A primeira Trienal de Arte das Universidades Católicas vai reunir 104 artistas em oito cidades de três continentes, entre agosto de 2026 e 2027. Intitulada Exercises in Empathy (Exercícios de Empatia), a iniciativa promovida pelo Vaticano conta com curadoria portuguesa e chega à Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, a 12 de outubro.
Concebida como um projeto coletivo de criação artística, investigação e diálogo, a ArtCut envolve sete universidades católicas e 14 curadores. Começa no Rio de Janeiro, a 27 de agosto, e passa depois por Santiago do Chile, Bogotá, Boston, Milão, Lisboa e Luanda, antes de culminar em Veneza.
A trienal é promovida pelo Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, dirigido pelo cardeal português José Tolentino de Mendonça, comissário-geral da iniciativa. A curadoria-geral foi confiada a Nuno Crespo, diretor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa.
A exposição em Lisboa estará patente na sede da Universidade Católica entre 12 de outubro e 15 de dezembro. Entre os 30 artistas representados, encontram-se Amadeo de Souza-Cardoso, Ana Vieira, Helena Almeida, João Abel Manta, Julião Sarmento, Pedro Costa, Daniel Blaufuks, Délio Jasse, Carlos Bunga, Andreia Santana e Aires Mateus, a par de nomes internacionais como Francesca Woodman, Gordon Matta-Clark, Martha Rosler, Mona Hatoum e William Eggleston.
Arte contra a “desumanização”
O tema da primeira edição parte do debate sobre o lugar da empatia num tempo marcado pela inteligência artificial, pela fragmentação social e pela dificuldade de diálogo. Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV adverte que as inteligências artificiais podem “simular empatia ou compreensão”, mas não habitam o horizonte afetivo, relacional e espiritual próprio dos seres humanos.
Num texto enviado ao 7MARGENS, José Tolentino de Mendonça defende que a empatia não é “um ornamento retórico”, mas um princípio estrutural da educação universitária, porque permite “colocar-se dentro da experiência do outro e habitar o seu ponto de vista”.
Para o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, a arquitetura internacional da própria trienal constitui já “um exercício de empatia institucional”, ao ligar universidades com diferentes geografias, linguagens e contextos históricos.
“A experiência da obra de arte continua a ser, ainda hoje, um dos treinos mais eficazes para a capacidade de nos deixarmos afetar por algo — ou por alguém — que nos excede”, escreve o cardeal português. Diante de uma obra, acrescenta, as pessoas são convidadas a “suspender o juízo imediato”, a demorar o olhar e a deixar-se interpelar pelo outro antes de o classificar ou instrumentalizar.
A iniciativa pretende, assim, colocar em diálogo estética e ética e combater formas de despersonalização associadas tanto às tecnologias como às crescentes polarizações sociais. Tolentino de Mendonça espera que a trienal reforce o papel das universidades católicas como “laboratórios culturais” capazes de contribuir para a paz, a fraternidade e a humanização.
“Vidas emprestadas” pela arte
Para Nuno Crespo, as linguagens artísticas permitem criar relações e diálogos que atravessam fronteiras culturais, linguísticas e políticas. A trienal será, por isso, uma exposição distribuída pelo mundo e, ao mesmo tempo, “uma vasta conversa” entre artistas e públicos.
O curador-chefe descreve o projeto como uma “escola de empatia”, na qual cada obra funciona como ponto de partida para exercícios estéticos, éticos, sociais e políticos. A arte, sustenta, permite experimentar “vidas emprestadas”, aproximando os espectadores de lugares, tempos e realidades que não conhecem.
“A ambição enorme da nossa Escola de Empatia é proporcional à dimensão dos abalos que as sociedades e culturas humanas têm sofrido, a ponto de muitas vezes tornarem o impensável real”, afirma Nuno Crespo, em comunicado enviado ao 7MARGENS. Nas obras de arte, acrescenta, encontram-se “dispositivos empáticos” capazes de contrariar “a crescente desumanização” e uma surdez coletiva que impede o diálogo.
Além da Universidade Católica Portuguesa, participam na ArtCut a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Pontificia Universidad Católica de Chile, a Pontificia Universidad Javeriana, da Colômbia, o Boston College, a Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão, e a Universidade Católica de Angola.
Depois da abertura no Rio de Janeiro, a trienal será inaugurada em Santiago a 3 de setembro, em Bogotá a 9, em Boston a 23, em Milão a 6 de outubro, em Lisboa a 12 e em Luanda a 29. O ciclo encerra em Veneza, em 2027.










