Temos novamente papa. Dois aspetos me dececionaram logo que soube quem era. O primeiro foi o facto de vir da América do Norte, uma geografia bastante adversa a Francisco e às suas reformas. O segundo foi o nome escolhido. Leão parece indiciar o apetite pelo poder. Quem se lembraria de recuperar da arca bolorenta da história um tal nome? Estes dois aspetos lançaram em mim a suspeita de que poderá haver um retrocesso na vida da Igreja e no caminho que Francisco iniciou corajosamente, apesar dos ventos contrários que o foram fustigando, oriundos dos grupos mais conservadores, os mais vocálicos e ameaçadores.
Logo que apareceu ao balcão principal da Basílica de S. Pedro, a sua imagem manifestou a presença de alguém bem diferente do seu predecessor. Os paramentos escolhidos constituíram um terceiro sinal que veio desassossegar a minha expectativa. Bastante mais formal do que a simplicidade total do papa Francisco, o modo como ele se apresentou vestido poderá dizer alguma coisa a respeito do pontificado que se avizinha. Seria péssimo se regressássemos ao espetáculo das liturgias e paramentarias de Bento XVI!

Robert Francis Prevost, à esquerda, quando se mudou para o Peru, na década de 1980, como missionário. Foi nomeado bispo de Chiclayo, Peru, a 26 de setembro de 2015. Foto DR
Depois, soube que fora um missionário na América Latina, o que amenizou as minhas dúvidas. O seu discurso, muito menos espontâneo do que o do anterior papa, poderá revelar apenas uma personalidade diferente, sem qualquer outra leitura. Só o tempo o dirá. Seja como for, o conteúdo do seu discurso veio serenar um pouco a minha apreensão. Um por um, foi abordando os principais tópicos do pontificado de Francisco, desde a atenção à promoção da paz mundial, a afirmação do amor de Deus por toda a humanidade, a necessária construção de pontes e o estabelecimento permanente do diálogo — ao arrepio dos muros que muitos teimam em erguer —, o desejo de estabelecimento de uma Igreja sinodal — ponto essencial do anterior pontificado — até à alusão aos que sofrem. É também de referir como facto positivo a sua múltipla invocação do papa Francisco, o que parece indiciar a vontade de prosseguir o trabalho iniciado pelo seu predecessor. De qualquer forma, ainda não é possível prever se os tópicos referidos emergem de uma retórica inconsequente de aparente continuidade, para sossegar os espíritos mais inquietos, ou corresponde a intenções programáticas claras.
Sendo um primeiro discurso, não era esperado que se alargasse muito em questões concretas. Por isso, o seu silêncio sobre a situação da mulher na Igreja e a inclusão de grupos tradicionalmente excluídos (o célebre “todos, todos, todos”) poderá não significar uma rutura com Francisco, mas apenas uma questão de oportunidade. O mesmo poderá ser dito a respeito da tumultuosa questão dos abusos sexuais no interior da Igreja, que sacudiu profundamente a sua credibilidade, ou do diálogo ecuménico e inter-religioso, tão importante no pontificado anterior.
Os frutos das intervenções de Francisco começavam agora a germinar, ainda que timidamente, com o aumento da adesão de um bom número de jovens em algumas Igrejas ocidentais. Todavia, sem continuidade, todo esse trabalho em prol da credibilidade da Igreja poderá ter sido em vão, caso a atitude do novo papa for morna, insípida e complacente com as visões mais tradicionalistas da Igreja.
No que me diz respeito, desejo profundamente que este papa tenha sucesso, sendo que o sucesso na Igreja deve ser medido não pela dimensão do seu poder, mas pela credibilidade da sua palavra e ação, pois só neste caso o evangelho de Cristo se tornará existencialmente relevante no mundo contemporâneo. Não tenho dúvida de que a Igreja é depositária de uma riqueza espiritual determinante para a construção de um mundo mais humano. Porém, em demasiadas ocasiões, a sua ação concreta e os seus discursos obnubilaram esse património essencial que decorre do comportamento e da mensagem de Jesus de Nazaré. Se a Igreja não servir para tornar visível esse património, para que servirá então?
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.










