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John Sentamu. Igreja de Inglaterra

Primeiro arcebispo anglicano de Inglaterra fora das nomeações de Boris Johnson para a Câmara dos Lordes

| 20/10/2020

John Sentamu com as vestes litúrgicas numa celebração enquanto arcebispo. Foto Wikimedia Commons.

O Governo do Reino Unido, liderado por Boris Johnson, deixou de fora das nomeações para a Câmara dos Lordes o primeiro arcebispo negro da Igreja de Inglaterra (Comunhão Anglicana). A história vem contada no Público: John Sentamu, combatente incansável contra as injustiças sociais, perdeu direito ao lugar que ocupava na Câmara dos Lordes, um dos 26 atribuídos aos bispos da Igreja de Inglaterra como lordes espirituais, resume a jornalista Sofia Lorena.

Apesar de haver quem esperasse a atribuição do título de lorde vitalício na sequência da sua saída da diocese de York, em Junho, o Governo contrariou essa expectativa, argumentando que quer diminuir o número de lugares na câmara alta do Parlamento. Apesar disso, nomeou 36 novos lordes, incluindo o irmão do primeiro-ministro, Ian Botham, ex-campeão de críquete, Claire Fox (antiga dirigente do Partido Comunista Revolucionário e ex-dirigente do partido do “Brexit”, bem como o marido da ex-primeira-ministra, Theresa May. E o presidente da Câmara dos Lordes, Norman Fowler, criticou também a “oportunidade perdida para o número dos agora mãos de 800 parlamentares, que têm por função rever as leis aprovadas na Câmara dos Comuns e questionar o Governo.

“John Sentamu é um herói e um modelo, não só para os negros britânicos mas para toda a Grã-Bretanha. O facto de não ter sido nomeado lorde vitalício é escandaloso”, diz, citado também no Público, o político e activista Simon Woolley, fundador da organização não-governamental Operation Black Vote e lorde desde 2019.

“Há um sentimento crescente que confrontar as profundas desigualdades raciais não é uma prioridade e muitas pessoas verão nisto parte dessa narrativa”, acrescenta Woolley. Este parlamentar manifesta ainda a esperança de “que se trate de um descuido a corrigir em breve”, principalmente tendo em conta “o dilúvio de títulos para amigos e familiares, nenhum dos quais negro” e que o primeiro-ministro Johnson “mostre a sua liderança não só enaltecendo um homem bom que serviu a nação, mas também enviando um sinal”.

Apesar de não haver qualquer regra que leve a nomear como lordes os responsáveis máximos da Igreja de Inglaterra, esse precedente está criado. Como arcebispo de York, John Sentamu tinha o segundo lugar mais importante na Igreja de Inglaterra, mas já passara por muito: nascido no Uganda em 1949, fugiu da ditadura de Idi Amin, em 1974, por não ter ignorado, enquanto juiz, os crimes de um familiar do ditador. Preso e espancado, ficou com vários ferimentos internos graves e chegou a receber a extrema-unção.

Já no Reino Unido, estudou Teologia em Cambridge e foi ordenado padre em 1979, sendo depois bispo de Stepney e de Birmingham, antes de York. “Sobrevivi à brutalidade de Idi Amin no Uganda, a uma intoxicação por salmonela, a uma ruptura de apêndice, a um cancro da próstata, a três operações complicadas. Através de tudo isto, soube sempre que a minha vida é aqui com Cristo e Deus”, afirmou Sentamu, numa missa virtual na altura em que se retirou do cargo, dias antes de completar 71 anos.

O arcebispo opôs-se à invasão anglo-americana do Iraque, em 2003, denunciou as violações de direitos humanos dos EUA na prisão de Guantánamo, criticou o regime de Robert Mugabe e votou contra o “Brexit”, no referendo de 2016. Mas aprovou, depois, o acordo proposto por Theresa May para a saída, por acreditar que um segundo referendo seria pior.

No ano passado, John Sentamu e o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, fizeram uma declaração na qual diziam que “as divisões sociais estão mais enraizadas e insolúveis do que estavam há muitos anos”, acusando o Governo de “reprimir” a reconciliação social e advertindo que “a perda permanente de confiança nas instituições governamentais resulta sempre em agitação social e violência”.

 

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