Lisboa vai passar a ter um novo edifício preparado para acolher funerais de “diferentes expressões culturais, religiosas e espirituais da cidade”: trata-se do Edifício Saudade, com quatro salas de velório, uma para cerimónias de despedida, uma sala de tanatopraxia (preparação de cadáveres) e o forno crematório e que funcionará no Cemitério de Carnide.
A inauguração estava prevista para esta sexta-feira, dia 21, mas razões de saúde impedem o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, de estar presente, e por isso a cerimónia foi adiada, em princípio para daqui a uma semana. O presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, José Vera Jardim, e representantes de diversas religiões deverão estar presentes.
O novo equipamento pretende ser uma resposta “multicultural, concretizada num espaço neutro e sem identificação confessional”, como define ao 7MARGENS a chefe da Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara de Lisboa, Sara Gonçalves. Por isso, acrescenta a responsável, o edifício responde à “dimensão multicultural” cada vez mais presente em Lisboa, com salas de velório que permitem o acolhimento de todas as pessoas, mobiladas de forma sóbria, sem qualquer símbolo religioso (mas que podem ser colocados em determinadas circunstâncias).
Tendo em conta a dimensão das comunidades, é provável que a maior parte dos funerais religiosos que ali se venham a realizar sejam de muçulmanos e hindus. Para estes últimos, o Edifício Saudade permite passar a fazer tudo no mesmo espaço: lavagem e preparação do corpo, velório e cremação. No caso dos muçulmanos, pode fazer-se a lavagem e preparação do corpo, o velório e a inumação no talhão islâmico do cemitério de Carnide. Mas também budistas, judeus, bahá’ís ou não-crentes podem ali cumprir os seus rituais de despedida – bem como católicos que optem por aquele espaço e não por uma normal capela mortuária.
As características do edifício permitem que cada pessoa possa ter “um funeral digno, com ou sem os seus rituais religiosos próprios”, acrescenta Eugénia Abrantes, coordenadora do Edifício Saudade. A morte é um momento sensível e por isso é importante que cada pessoa ou família tenha a possibilidade de decidir como cumprir os rituais de despedida.
Luz natural e luminárias

Uma das salas de velório no Edifício Saudade: “Um bom exemplo de aceitação do outro e de respeito pelos seus costumes e crenças”, diz Vera Jardim. Foto © António Marujo/7MARGENS
José Vera Jardim, que intervirá na sessão de inauguração, refere, num texto publicado no boletim dos Cemitérios de Lisboa, que “já de há muito se tornava necessária uma instalação deste tipo que pudesse dar satisfação à necessidade de uma sociedade cada vez mais diversa também no que diz respeito aos funerais e à sua preparação”.
Manifestando-se “muito bem impressionado com o conjunto das instalações”, o presidente da Comissão da Liberdade Religiosa acrescenta que o Edifício Saudade é “um bom exemplo de aceitação do outro e de respeito pelos seus costumes e crenças”, que deseja ver replicado “noutras localidades”, pois vem “colmatar uma lacuna no relacionamento com as várias confissões religiosas existentes na zona de Lisboa”.
O edifício foi adaptado e modificado a partir de um outro pré-existente, da autoria de Carlos Guedes de Amorim. Vãos envidraçados e largas claraboias permitem entradas generosas de luz natural. Os espaços, a planta cruciforme, o mobiliário neutro e confortável, conjugam-se para dar tranquilidade a momentos em que esta não domina. Ao mesmo tempo, possibilita-se que cada família possa adaptar a disposição e ornamentação das salas, dentro de determinadas regras e em diálogo com os responsáveis do espaço.
Evitam-se velas e cheiros próprios dos funerais mais tradicionais. Mas o símbolo da luz não deixa de existir: quatro luminárias verticais simulam o efeito das velas, dando ao mesmo tempo uma luz cálida a cada espaço; à noite, essa luz permite um efeito ainda mais apaziguador, assegura Eugénia Abrantes. De facto, o espaço foi já utilizado por alguns dias, enquanto o crematório do cemitério do Alto de São João esteve encerrado. Mas só agora, com o fim de todos os trabalhos de adaptação e colocação do mobiliário ele fica disponível para o uso público.
Outro símbolo está contido no próprio nome do edifício: Saudade remete para a palavra que, na cultura portuguesa, traduz o sentimento da “melancolia, associada à ausência de alguém ou de alguma coisa, de algum lugar” e que é “quase omnipresente” no contexto da despedida de quem morre, lê-se no boletim citado. Mas é também um símbolo físico: a scabiosa atropurpurea ou flor saudade está esculpida em muitos cemitérios, túmulos ou lápides, representando esse sentimento de ausência.
Sinal de inclusão e beleza

Na Sala Multiusos no Edifício Saudade é possível dar apoio a crianças, se necessário. Foto © António Marujo/7MARGENS
No edifício, várias salas podem ser utilizadas em simultâneo: o circuito de entradas e saídas está desenhado para permitir a privacidade e a serenidade de cada velório ou celebração. Todas as salas têm cadeirões, sofás, banquetas, um púlpito e mesas – e várias destas peças são versáteis e amovíveis. Em concreto, a Sala Saudade, a maior, tem capacidade para 170 pessoas (120 lugares sentados) e é uma “sala de despedida”, para cerimónias com um grupo significativo de pessoas. Duas outras têm capacidade para 65 pessoas e nas duas mais pequenas cabem 35 pessoas. Há ainda duas salas de apoio, para descanso e recolhimento para os familiares do defunto, uma sala de espera e a sala de tanatopraxia, para preparação de cadáveres – por razões sanitárias, estéticas ou religiosas. O crematório e uma sala multiusos (por exemplo, para apoio de crianças) completam o conjunto.
Como complemento do edifício e das suas valências, a Divisão de Gestão Cemiterial preparou um Guia Multirreligioso e Multicultural, que teve a colaboração de responsáveis de diferentes confissões religiosas, e que será complementado com uma pequena Enciclopédia das Religiões, Confissões Religiosas, Seitas e Espiritualidades Alternativas e um glossário.
“Sabemos que este trabalho não é um trabalho acabado. A integração de outras religiões, confissões religiosas, seitas, espiritualidades alternativas, no Guia, continuará a ser realizada, assim como continuará a estender-se o convite aos seus responsáveis para que possamos chegar mais proximamente a elas, na medida das nossas possibilidades”, explica Eugénia Abrantes, que destaca o carácter “inovador” deste projecto em Portugal.
“O Guia Multirreligioso e Multicultural do Edifício Saudade representa um sinal claro da construção de uma sociedade justa e de uma cidade de paz, de conhecimento, de tolerância, de inclusão, de diálogo, de respeito, de liberdade, na dinâmica da experiência da beleza da diversidade cultural, espiritual e religiosa”, acrescenta a responsável do Edifício Saudade.
Dos cemitérios públicos à cremação

Edifício Saudade: uma nova realidade funerária. Foto © António Marujo/7MARGENS
Num texto sobre “a liberdade religiosa nos cemitérios de Lisboa, Gisela Monteiro, da mesma divisão camarária, recorda a criação dos cemitérios do Alto de São João e dos Prazeres em 1833 por imperativos de saúde pública que, aliados aos decretos cemiteriais de Rodrigo da Fonseca Magalhães, de 1835, “permitiram estabelecer uma nova realidade funerária, em que os sítios de enterramento deixaram de ser os adros e interiores das igrejas e passaram a ser autónomos dos espaços religiosos”.
Esse facto, que deu origem a revoltas populares e a tensões políticas, não era inédito: desde 1717 havia a possibilidade de não-católicos britânicos e neerlandeses serem enterrados num cemitério próprio que, em 1801, incluiu um talhão para os judeus; em 1822, os protestantes alemães passaram também a ter o seu próprio cemitério e, em 1868, o rei D. Luís permitiu à comunidade judaica de Lisboa instalar também um cemitério próprio.
Já no início do século XX surge a questão da cremação, autorizada pela Primeira República. Mas o primeiro forno crematório, construído no Alto de São João, só foi inaugurado há precisamente cem anos, em Novembro de 1925 – e até Dezembro de 1936 só houve vinte e duas cremações. Esse facto levou à desactivação do forno, apesar de se terem realizado 48 cremações, recorrendo a piras como na tradição hindu só reactivado em 1985, já a Igreja Católica aceitara também a possibilidade da cremação.
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(Foto de destaque: luminárias numa das salas de velório do Edifício Saudade. Foto © António Marujo/7MARGENS)
Notícia actualizada às 9h55 do dia 21 de Março, com a informação do adiamento da cerimónia de inauguração.










