Privilégios políticos são abraço de urso para a Igreja

| 21 Jul 21

Basta de desancar o secularismo para justificar a quebra da prática e adesão à fé cristã nos países desenvolvidos. Há alguns paradoxos que ajudam a determinar onde está realmente o problema.

Óscar Braga. Benguela. Lobito, Angola. Mulheres

“Afinal o que determina a vitalidade cristã nas sociedades estará relacionado com a medida em que os governos dão apoio oficial às igrejas em termos legais e políticos.” Foto: Páscoa de 2017, Lobito (Angola). Missa animada pelas mulheres da Promaica, movimento de defesa do papel das mulheres na sociedade e na Igreja. © Tony Neves

 

Muitos se questionam por que razão a fé cristã cresce nalguns países e áreas do mundo e diminui noutros. A verdade é que o extremo desenvolvimento da ciência e da tecnologia, assim como a difusão do conhecimento e a democratização do ensino superior parecem ter concorrido para o decréscimo da influência social das igrejas cristãs. Além disso o processo de secularização e o aumento da sociedade do bem-estar nos países desenvolvidos também não serão alheios ao fenómeno. Durante muito tempo acreditava-se que o aumento da prosperidade impediria os indivíduos de procurar um poder superior para responder às suas necessidades quotidianas, pelo que haveria uma ligação entre riqueza e ateísmo.

Porém, um estudo realizado com uma amostra global de 166 países de 2010 a 2020, revisto por pares e publicado na revista Sociology of Religion (Universidade de Oxford) desafia tais tentativas de explicação e aponta antes para um factor aparentemente surpreendente. Afinal o que determina a vitalidade cristã nas sociedades estará relacionado com a medida em que os governos dão apoio oficial às igrejas em termos legais e políticos. Ou seja, quanto maior for esse apoio governamental mais se reduz o número de cristãos, uma relação que se mantém mesmo levando em conta as tendências demográficas gerais.

Note-se, porém, que tal apoio dos governos não deve ser confundido com liberdade religiosa ou direitos decorrentes da cidadania, mas apenas com privilégios atribuídos pelo estado às confissões.

Os autores do estudo, Nilay Saiya e Stuti Manchanda, falam em três paradoxos que ajudam a explicar o fenómeno. O primeiro é o do pluralismo. Embora em diversos sectores da fé cristã se acredite que a melhor forma de ela prosperar seja a exclusão do espaço social das outras religiões, a verdade é que o cristianismo revela-se mais forte nos países em que se vê obrigado a competir com outras tradições de fé em igualdade de oportunidades.

Adam Smith ajudaria a explicar o paradoxo através do exemplo da economia de mercado que estimula a competição, a inovação e o vigor entre empresas concorrentes. De igual modo seria de esperar que o mercado religioso não regulamentado tivesse efeito idêntico nas instituições religiosas. A pesquisa revela que em sete dos dez países do mundo nos quais a população cristã cresce mais rapidamente não existe praticamente apoio oficial ao cristianismo.

O segundo paradoxo é o do privilégio. Nove dos dez países que revelam o declínio mais rápido da população cristã no mundo oferecem os maiores apoios públicos às igrejas. Esses privilégios podem incluir financiamento do estado para fins religiosos, acesso especial a instituições do estado e isenções de regulamentos impostos a grupos religiosos minoritários. Portanto, se a competição entre religiões estimula a vitalidade cristã, o favoritismo estatal às igrejas compromete essa vitalidade, decerto contra a intenção dos governos.

As igrejas favorecidas podem até utilizar a sua posição de privilégio para exercer influência sobre a sociedade, mas isso apenas sucede por via de rituais e símbolos, como uma religião civil e não pelo fervor espiritual. Os casos históricos no âmbito do protestantismo são imensos na Europa, desde o Reino Unido com a Igreja de Inglaterra aos países escandinavos com o luteranismo. Mas o fenómeno verifica-se igualmente nos países de tradição católica como Portugal, Espanha, Bélgica e Itália, onde durante o século vinte os governos discriminaram activamente os não católicos nas áreas de direito da família, radiodifusão religiosa, política tributária e educação. Coisa semelhante acontece na Rússia com a Igreja Ortodoxa.

O terceiro paradoxo é o da perseguição. Já no séc. II Tertuliano dizia que “o sangue dos mártires é a semente da Igreja”. A fé cristã cresce rapidamente em diversos países muçulmanos, como o Irão e o Afeganistão, onde sofre uma perseguição duríssima. Também a China vive um crescimento exponencial. O sociólogo das religiões Fenggang Yang afirma que desde a década de 1950 o cristianismo protestante cresceu 23 vezes, prevendo que em 2030 a China terá mais cristãos do que qualquer outro país no mundo e, em meados do século, metade da China poderá ser cristã.

É por isso que os partidos populistas de direita, apesar de alcançarem ganhos eleitorais momentâneos em nome duma defesa da “nação cristã” (resta saber o que será isso…), a prazo estarão apenas a contribuir para um declínio mais acentuado da fé na Europa.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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