Arquivo de Abel Varzim digitalizado

“Procura-se! Quem as acuda e não as condene”

| 6 Nov 21

Fundador da Acção Católica, dinamizador de projectos sociais, preocupado com a situação dos operários ou das prostitutas, o padre Abel Varzim tem uma parte do seu espólio digitalizado e acessível. Esse é o pretexto para uma homenagem na tarde deste sábado, 6, na sua aldeia natal, Cristelo (Barcelos). 

 

“Elas procuram espontaneamente quem lhes acuda e as não condene! Isso depende de cada um de nós! (…) Abandoná-las, não querer ver, acusá-las e deixar correr, não é pudor social mas verdadeira cumplicidade no negócio da prostituição.”

As frases do folheto não poderiam ser mais esclarecedoras do que pretendia o Instituto de Sant’Ana, fundado pelo padre Abel Varzim em 1954. O antigo assistente da Acção Católica e fundador do jornal O Trabalhador, à conta do qual tinha sido censurado e perseguido pela ditadura do Estado Novo, tinha sido nomeado pároco da paróquia de Nossa Senhora da Encarnação, ao Chiado (Lisboa) E aí deparou-se com um quadro social em que a prostituição era um problema grave. Empenhou-se então em promover iniciativas dedicadas à sua reintegração. O Instituto de Sant’Ana, a par da Liga Nacional Contra a Prostituição, no ano seguinte, foram duas delas – ambas olhadas de soslaio pelo regime, aliás.

O folheto a apelar à ajuda e não à condenação das mulheres obrigadas a prostituir-se é um dos documentos digitalizados que podem ser encontrados na colecção Documental Abel Varzim, agora disponibilizada na PAPIR (Plataforma de Arquivos Pessoais e de Instituições Religiosas), através de uma colaboração do CEHR (Centro de Estudos de História Religiosa), da Universidade Católica, com o Fórum Abel Varzim.

“Trata-se de colocar no domínio público uma figura marcante do catolicismo português do século XX, antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial”, diz ao 7MARGENS Nuno Estêvão, membro do CEHR e responsável pelo processo de digitalização. “Abel Varzim foi político, empenhado no campo social, deputado do regime, depois opositor ao regime, assinou manifestos de católicos contra Salazar, foi jornalista… Foi uma figura multifacetada, marcante para várias gerações.” Sinal disso mesmo é o facto de ainda haver pessoas que se juntam para o evocar”, acrescenta o historiador.

O arquivo será apresentado neste sábado, 6 de Novembro, em Cristelo (Barcelos), terra natal de Abel Varzim, no âmbito de uma homenagem ao padre d’O Trabalhador. A ocasião será também pretexto para uma evocação do jornalista católico e político socialista João Gomes, que morreu em Março de 2020 e foi fundador do Fórum Abel Varzim (ver 7MARGENS).

A homenagem começa às 13h45 com uma romagem ao cemitério de Cristelo. A partir das 14h, no Centro Social Cultural e Recreativo Abel Varzim, Paulo Fontes e Nuno Estêvão Ferreira, ambos do CEHR, apresentarão o espólio digitalizado. Uma hora depois, o jornalista Manuel Vilas Boas falará sobre João Gomes; familiares e amigos do jornalista que dirigiu a revista católica Actos darão também testemunhos sobre ele. Além do Fórum, João Gomes promoveu a ideia de um centro social em Cristelo com o nome do padre Abel Varzim. Daí a escolha desta data e do local para juntar os dois na mesma homenagem, que terminará com a celebração da eucaristia.

 

“Converteu-se e tornou-se opositor de Salazar”

 

Nascido em Cristelo, em 29 de Abril de 1902, Abel Varzim da Cunha e Silva era filho de um proprietário agrícola e de uma professora primária. Em 1916 entrou no Seminário Menor de Braga e, em 1921, no Seminário Conciliar, onde frequentou o Curso Teológico. Foi ordenado padre em 1925.

Ainda nesse ano, a pedido do bispo de Beja, D. José do Patrocínio Dias, foi transferido para esta diocese, tendo ficado a trabalhar como professor e prefeito do Seminário Maior. Em 1930 foi para Lovaina (Bélgica), doutorar-se em Ciências Políticas e Sociais. Ao mesmo tempo, fez o papel de correspondente do jornal Novidades, o jornal oficioso da Igreja Católica, publicado em Lisboa, onde começou a publicar colunas regulares – vários desses textos estão também digitalizados no arquivo.

É essa situação que, lê-se na nota biográfica disponível na colecção documental, permite a Abel Varzim “contactar figuras marcantes do universo católico”, como o fundador da Juventude Operária Católica, o futuro cardeal Joseph Cardijn, “e observar iniciativas do movimento e das organizações católicas de universitários e operários”.

Em 1934 regressa a Portugal, radicando-se em Lisboa, ao mesmo tempo que começa, com o padre Manuel Rocha, também a estudar em Lovaina, a pensar em lançar a Acção Católica Portuguesa (ACP), “enquanto modelo de mobilização dos católicos”. Nesse âmbito, “a doutrina social da Igreja, a organização do trabalho e da economia e a situação dos trabalhadores constituíram áreas privilegiadas” da sua actuação, entre 1930 e 1940.

É já com esses horizontes que, em 1934, recorda ainda a mesma nota biográfica, se torna chefe de redação do recém-fundado jornal quinzenal O Trabalhador. Em 1946, por causa de vários artigos publicados a defender os operários e a dignificação das suas condições de vida, o jornal é suspenso, sendo retomado em 1948, como semanário, dirigido por António Cerejo.

“Politicamente, o padre Abel Varzim colaborou com o regime de Salazar mas, quando percebeu os ataques do regime à dignidade dos trabalhadores, converteu-se e tornou-se opositor do regime, sendo perseguido por defender os valores cristãos”, diz António Soares, actual responsável do Fórum Abel Varzim.

Vários dos artigos publicados n’O Trabalhador, no Novidades e em outros jornais e revistas podem ler-se também na colecção agora digitalizada.

Em 1936, Abel Varzim é nomeado assistente geral da Liga Operária Católica (LOC), que ajudara a criar. Nesses anos e nos seguintes participa em múltiplas iniciativas de cariz social, católico, cooperativo ou universitário.

 

Um “aviso prévio” que saiu caro

Entre 1938 e 1942, tem os primeiros embates com o regime: eleito deputado à Assembleia Nacional, na lista da União Nacional, o partido único, intervém várias vezes no plenário em defesa dos sindicatos, dos trabalhadores e de uma vida digna. Em 17 de Fevereiro de 1939, na sua intervenção mais marcante apresenta um “Aviso prévio” sobre os sindicatos, criticando a organização corporativa do Estado Novo.

Tais ousadias ficariam caras, não só pela vigilância que a polícia política começa a exercer sobre ele (a colecção documental inclui também vários documentos da PIDE sobre ele), como pelo facto de não voltar a ser convidado para as listas eleitorais, em 1942.

A crítica ao regime aumenta quando Abel Varzim assume a responsabilidade pela paróquia da Encarnação e começa a preocupar-se com a questão da prostituição. Inicialmente, falava das prostitutas como imagem do “demónio”, recorda António Soares. “Depois percebeu que elas eram filhas amadas de Deus. Tornou-se, então, um aliado poderoso, defensor da dignidade humana daquelas mulheres”, um processo descrito no livro póstumo Procissão dos Passos (ed. Cáritas).

Quando, em 1957, o Estado destrói as casas de acolhimento que o padre Varzim criara para as mulheres que queriam deixar a prostituição, Abel Varzim pede para deixar a paróquia e regressar à sua terra. Para a decisão terá contribuído também a falta de apoio que sentiu da parte do cardeal Cerejeira, então patriarca de Lisboa. No Norte do país, o seu trabalho continua com as mesmas preocupações e iniciativas de reintegração de prostitutas, associativismo, sindicatos, promoção do movimento cooperativo – envolve-se ainda na criação da Sociedade Avícola do Minho.

“É o perfil deste homem, em permanente mudança, inquieto, que produziu um conjunto alargado de textos patentes no seu espólio”, que agora foi tratado e digitalizado, acrescenta António Soares. “As ideias que professou foram inovadoras e, de certa forma, abriram caminho para uma visão mais progressista da Igreja Católica”, diz ainda o responsável do Fórum Abel Varzim, que recorda ter o cardeal Cerejeira chegado a referir-se ao padre como o homem de um “novo regime” que já se pressentia vir a ocorrer, apesar de depois não o ter apoiado como Abel Varzim esperaria.

Em 1958, o padre Varzim é um dos subscritores de um manifesto de católicos contra a repressão do regime e crítico da conivência da hierarquia com Salazar. “O padre Abel Varzim viveu num tempo mais avançado que o seu tempo de vida”, resume António Soares. “O que podemos considerar mais importante na sua vida é a constante inquietação à procura de uma fidelidade ao Evangelho, mesmo sendo capaz de ultrapassar preconceitos que resultavam da sua formação.”

Num texto publicado em 14 de Julho de 1948, no jornal O Trabalhador, e que pode ser lido no livro Abel Varzim – Entre o Ideal e o Possível (ed. Multinova), o padre Abel dizia isso mesmo. Com o título “A mensagem cristã”, escrevia: “O salário, a justa remuneração de todo o trabalho e mesmo do capital, as condições em que se trabalha, as férias pagas, a previdência, as reformas de estrutura, nada mais são do que pressupostos da Mensagem cristã (…). Na sua essência, o cristianismo é uma libertação. Não só dos homens, mas também das coisas.”

Abel Varzim morreu em 20 de Agosto de 1964. Em 28 de Outubro de 1994, o Presidente Mário Soares atribuiu-lhe, a título póstumo, a Ordem da Liberdade.

 

(Sobre o padre Abel Varzim, pode ver-se esta edição do programa 70×7)

 

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