Profetadas

| 29 Abr 20

Com a base de apoio progressivamente reduzida, o Presidente do Brasil estriba-se cada vez mais nos líderes religiosos do sector neopentecostal, fazendo tábua rasa do Estado laico e promovendo uma perigosa promiscuidade entre política e religião, que só pode vir a dar mau resultado no futuro.

Ouve-se e custa a acreditar, mas o “Polígrafo SIC” comprovou a veracidade dos factos relatados, no âmbito duma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social. Bolsonaro determinava uma “proclamação santa” anunciando um jejum religioso contra a pandemia do coronavírus, à qual teriam aderido os “maiores líderes evangélicos” do país.

Segundo o El País (Brasil) no dia 5 de Abril o presidente participou numa “roda de orações” pelo fim da pandemia que serviu também como cerimónia de encerramento do jejum, reunindo-se com pastores e fiéis evangélicos que o foram ver ao Palácio Alvorada. Na altura ouviu de um dos religiosos “a afirmação de que a partir desse domingo, dia 5 de Abril, dia proclamado de jejum, não haveria mais mortes nem doentes infectados pelo coronavírus“. Bolsonaro atendeu o pedido de um pastor e ajoelhou-se com o grupo que fez orações e cantou músicas de louvor. Em silêncio, o Presidente ouviu o pastor, em tom exaltado, dizer que, a partir daquele instante, não haveria mais nenhuma morte pela covid-19 no Brasil, porque o país estaria abençoado por Deus e pelo Presidente Bolsonaro”.

Como é evidente continuaram a morrer pessoas de covid-19 e, passada pouco mais de uma semana, o Governo informou que o país tinha atingido um recorde diário de 217 mortos e 3.257 novos casos de infecção, tendo até duplicado as percentagens anteriores de vítimas mortais e de infectados. A profecia falhou porque era falsa. A promiscuidade entre política e religião constitui a negação do que deve ser um estado moderno e laico, e leva o sagrado a reboque de interesses políticos. De facto, a Igreja brasileira perdeu há muito qualquer autoridade profética para falar à nação, por se ter envolvido até ao pescoço na política partidária.

Por outro lado, este triste episódio revela uma série de equívocos perigosos. Antes de mais, qual é a legitimidade de um chefe de Estado para convocar um acto religioso? Se o Estado é laico e a constituição garante rigorosa isenção face às religiões, por que motivo se poderá justificar tal convocação, agravada pela associação a uma pequena parte dos líderes cristãos, excluindo assim a maioria deles? Bolsonaro é Presidente de todos os brasileiros e não só dos neopentecostais. Aliás, tal convocação só faria sentido se viesse duma plataforma religiosa que não excluísse nenhuma confissão à partida. O argumento bíblico de que terão havido precedentes de reis do Antigo Israel que o fizeram esquece que os tais eram também sacerdotes e viviam num estado confessional, o que muda tudo.

E por que razão o Presidente da República aceitou sem pestanejar uma oração manipuladora e patética que apenas expressou um desejo humano, apresentado em forma de declaração profética? Já agora, visto que não se confirmou, e porque tais sectores religiosos gostam tanto de imitar o Antigo Testamento, será bom lembrar que os falsos profetas hebreus na altura eram punidos com a morte… O que lhes vale é que já não vivemos nesse tempo de que eles tanto gostam, caso contrário seriam executados.

Por último, como é possível a um líder religioso dizer que o país estava abençoado “por Deus e pelo Presidente Bolsonaro”, colocando ambos em pé de igualdade?

Estes falsos profetas são ainda mais censuráveis do que os charlatães que no início de cada ano vão à televisão fazer previsões a partir do alinhamento dos astros e dizendo normalmente o que as pessoas gostariam de ouvir. Todos eles sem excepção auguraram um ano de 2020 espectacular, extremamente positivo, e não houve nem um que falasse da eventualidade duma pandemia que viria a provocar centenas de milhares de mortos e o colapso das economias em todo o mundo.

Mas os falsos profetas são ainda mais censuráveis também porque põem os seus desejos na boca do divino, pretendendo falar em seu nome, enquanto os astrólogos supostamente se limitam a fazer uma leitura dos astros. Sobre os que debitam profetadas já o sacerdote-profeta Jeremias alertava há 2600 anos: “Os profetas profetizam falsamente no meu nome; nunca os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, e adivinhação, e vaidade, e o engano do seu coração é o que eles vos profetizam” (Jeremias 14:14).

Entretanto o ministro Sérgio Moro, a estrela maior deste governo, bateu com a porta e deixou acusações gravíssimas ao Presidente, que exigem investigação judicial, agravando assim a crise política e desferindo um profundo golpe no bolsonarismo.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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