Livro de Manuel Vilas Boas e Amadeu Araújo

Profetas em Moçambique

| 31 Jan 2024

No próximo sábado, será apresentado em Lisboa o livro Moçambique da Colonização à Guerra Colonial – A Intervenção da Igreja Católica, da autoria de Manuel Vilas Boas (AVB) e Amadeu Araújo (AA), e do qual o 7MARGENS publicou um excerto.

A apresentação (Teatro São Luiz, 16h-18h) será feita pelo historiador Pacheco Pereira e a sessão, moderada pelo jornalista Fernando Alves, contará com a participação de Francisco Fanhais, Manuel Freire e Manuel Campos, que interpretarão músicas do tempo da Guerra Colonial. A entrada é livre, mas é necessária reserva de lugar para o endereço electrónico mvbtsf@gmail.com, até ao final do dia 2, sexta-feira.

Tributo merecido e inquestionável a D. Manuel Vieira Pinto, arcebispo de Nampula (1967-2001) mas, ainda por fazer, tanto a nível nacional, como além-fronteiras, o livro Moçambique da Colonização à Guerra Colonial A Intervenção da Igreja Católica, de Amadeu Araújo (AA) e Manuel Vilas Boas (MVB), 2023, Paulinas, é, também, hino de homenagem aos missionários que por lá dedicaram a vida.

Justamente, a centenas de padres, religiosos, freiras, leigos, voluntários, homens e mulheres consagrados ao ideal do anúncio do Evangelho e, ao mesmo tempo, da promoção da dignidade do Povo, tendo em vista a construção da Paz pelo desenvolvimento, emancipação e direito à autonomia.

Têm essas pessoas nomes próprios, alguns deles são conhecidos e retratados no livro. As suas vias inscrevem-se em comunidades concretas de “Missões Estrangeiras/Padres de Burgos, Combonianos, Dehonianos, Capuchinhos, bem como uma boa parte de portugueses, como alguns membros das Missões Católicas Ultramarinas (hoje, Missionários da Boa Nova) e Franciscanos.” (p. 311).

São, ou foram, intérpretes de uma outra visão missionária por uma evangelização inculturada e enraizada na alma dos povos africanos, que não se deixaram instrumentalizar pelo Acordo Missionário de 1940. Esses novos arautos do Evangelho, da Justiça, Liberdade e da Paz, sobretudo, a partir da segunda metade da década de [19]60, tiveram a felicidade de encontrar em D. Manuel Vieira Pinto a “referência de esperança, pastoral e não só” (p. 314) de que tanto necessitavam. Além de bispo de Nampula foi, ainda administrador apostólico de Pemba (1992-1998), (p.310) e administrador apostólico da Beira (p. 309).

O livro de AA e de MVB, enriquecido por uma Nota introdutória do general Ramalho Eanes é apresentado por Pacheco Pereira, dia 3 de fevereiro, às 16 horas, no Jardim de Inverno do Teatro São Luís, em Lisboa, com moderação do jornalista Fernando Alves, e a participação de Francisco Fanhais, Manuel Freire e de Manuel Campos que vão interpretar canções alusivas à época que o livro trata.

Foto: Visita de D. Manuel Vieira Pinto. DR

 

Dado à estampa por ocasião das comemorações do centenário do nascimento (9 dezembro 1923-2023) de D. Manuel Vieira Pinto, “profeta da Paz em Moçambique”, a obra de AA e de MVB constitui iniciativa editorial de rara oportunidade, cuja relevância importa assinalar. Desde logo, pelo acolhimento recebido em apresentações já realizadas: Barcelos, 5 de novembro, por D. José Cordeiro; Amarante, 9 de dezembro, por D. Januário Torgal Ferreira e o escritor Carlos Santos, além disso, pelo facto de, por estes dias, estar a ser distribuída a segunda edição.

Suporte de esmerado trabalho gráfico, o texto corre vagarosamente em 415 páginas ilustradas, com fotografias, gravuras, mapas, brasões e outros símbolos que, além de tornarem mais sugestiva a leitura, oferecem ao leitor melhor contextualização de ambientes e realidades, pontuados por exaustiva descrição da história de Moçambique, das raízes à conquista da independência.

Os autores cruzaram-se em estágios pastorais, na Diocese de Nampula, entre 1971 e 1978. Amadeu Gomes Araújo é membro/investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e Vice-Postulador da Causa de Canonização de D. António Barroso. Manuel Vilas Boas é padre da Sociedade Missionária da Boa Nova e jornalista. Ambos naturais do concelho de Barcelos, 45 anos após experiências vivenciadas na longínqua diocese de Nampula, decidiram fixar memórias e utopias. Cada um, fazendo uso de recursos que melhor sabe usar: um a História, outro o Jornalismo. E, assim, a quatro mãos, teceram o texto.

AA assina as duas partes iniciais: Da Colonização à Independência e A Igreja Católica em Moçambique (1498-1975). A terceira e última parte do corpo do livro, Polémicas nas Dioceses da Beira, Tete e Nampula é da responsabilidade de MVB.

 

Sobre a evolução histórica de Moçambique

Chegada de Vasco da Gama a Calcutá, Índia, a 20 de maio de 1498. Gravura de Ernesto Casanova, Divisão de Gravuras e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos./ Wikimedia Commons

 AA descreve os “primeiros encontros nas praias do Índico” (p. 19) quando os portugueses ali arribaram em 1498, onde já havia os povos nativos chegados de fora doze séculos antes, com relações costeiras que se estendem pelo litoral da costa oriental, incluindo o Norte de Moçambique (p. 20), e salienta a fusão das comunidades muçulmanas de língua árabe, com as comunidades bantas, ao longo se séculos, de que nasce a etnia, a língua e a cultura suaíli (p. 20).

Noutro registo, sublinha alianças de portugueses com régulos locais alimentadas por “constantes saguates”, permitindo “reduzir um pouco a concorrência das comunidades árabes-suaílis” e suavizar relações que nunca foram fáceis (p. 27).

Nos primórdios da colonização emerge como figura importante, na sua expansão para o interior, o padre Gonçalo da Silveira, doutor em Teologia e provincial dos Jesuítas na Índia, chegado a Moçambique no início de 1560, na companhia do padre André Fernandes e do irmão André da Costa (p. 26).

A marcha da colonização é descrita com detalhe (p. 28-54), dedicando-se o autor a esmiuçar a fita do tempo até se deter na Conferência de Berlim e análise de inerentes consequências (p. 55-69).

A narrativa, dir-se-ia, disposta à maneira de compêndio, oferece imagens da história e geografia da Moçambique desde o Império de Gaza que, “no seu apogeu, abrangia toda a área costeira entre os rios Zambeze e Maputo e tinha a sua capital em Manjacaze, na atual província de Gaza” (p. 70), ao período da prisão de Gungunhana e sequentes guerras de portugueses com populações locais.

“Proclamada a República em Lisboa, a vida da colónia continuou a reger-se por diretrizes traçadas pelo anterior regime” (p. 77). A seguir, o autor revela consequências da I Conferência de Paris, em 1919, e os trabalhos do III Congresso Pan-Africano em Lisboa, 1923, com participação de delegados “estudantes de várias colónias portuguesas que, nessa altura, residiam em Portugal”, e considera a possibilidade de “nestes delegados se poderem encontrar os alicerces do desejo de emancipação dos povos africanos dos territórios ultramarinos” (p. 78).

AA percorre o período determinante para a emancipação de Moçambique, desde a adoção da Carta do Atlântico, em 1941, e o impacto gerado no seio de intelectuais africanos, à origem do Movimento de Unidade Democrática (MUD) e, por outra parte, o Movimento de Países Não Alinhados. Enquanto isso, descreve, “em Moçambique eram crescentes a frustração e agitação entre os cidadãos indígenas, devido à forma como a Administração portuguesa lidava com os seus problemas, com as suas carências” (p. 84).

Na África do pós-guerra proliferavam movimentos de autodeterminação que, naturalmente, contagiaram muitos moçambicanos a tornarem-se também, progressivamente, nacionalistas. Torna-se, assim, compreensível o aparecimento da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) fundada por Eduardo Mondlane, em 1962, na Tanzânia (p. 85).

A guerra colonial em Moçambique, teve início em setembro de 1964, protagonizada pela Luta Armada de Libertação Nacional, segundo denominação da Frelimo (p. 88-106). AA escreve sobre detalhes da guerra travada por duas etnias, macondes e nianjas, contra as tropas portuguesas, passa por cima dos acontecimentos em Wiriamu, e interrompe “a narrativa sobre a Guerra Colonial, para uma breve referência a massacres cometidos pela Frelimo (…) após a independência”.

A II Parte do corpo do livro, sob a designação de A Igreja Católica em Moçambique (1498-1975), apresenta-a o autor AA, na forma de subsídios históricos (p. 115-182) oferecendo ao leitor um manancial de informação preciosa sobre o panorama religioso em Moçambique, onde emergem três bispos reformadores D. António Barroso, Prelado de Moçambique (1891-1897); D. Sebastião Soares de Resende, Bispo da Beira (1943-1967); e D. Manuel Vieira Pinto, Bispo de Nampula (1967-2000).

 

Polémicas nas Dioceses da Beira, Tete e Nampula

A Catedral de Nossa Senhora do Rosário, em Nampula, inaugurada em 1956.

A Catedral de Nossa Senhora do Rosário, em Nampula, inaugurada em 1956. D. Manuel Vieira Pinto, bispo da diocese, chegou à cidade, em 24 de Setembro de 1967, em plena Guerra Colonial.

 

A III Parte do corpo do livro é da autoria de MVB. Constrói o autor uma narrativa descontínua, intercalada por entrevistas, testemunhos e recolha de depoimentos de diversos interpretes das polémicas nas dioceses da Beira, Tete e Nampula, com algumas histórias a serem contadas na primeira pessoa, o que em si mesmo, constitui inestimável valor acrescentado ao texto.

Uma narração onde, dir-se-ia, o jornalista Manuel Vilas Boas, talvez até sem se dar conta, seja levado pela mão do sacerdote Manuel Vilas Boas a conduzi-lo pelas veredas históricas da Sociedade Missionária da Boa Nova, no seio da qual viveu, continua a viver, experiências de missão em Moçambique, protagonizadas por muitos profetas, padres, religiosos, pessoas consagradas e leigos, também, evidentemente, de outros institutos religiosos, por ele imortalizados nesta obra.

Atentem-se, então, as evidências.

MVB começa a história, a partir de ensaio próprio. Ou seja, ele é sujeito de “experiência humana, social e pastoral, na cidade António Enes, diocese de Nampula, de 1972-1974”, precisamente, para ali enviado pela direção-Geral da Sociedade Missionária Portuguesa, como professor e animador juvenil, após ter concluído o curso de Teologia, no Porto. A par do espírito missionário, por essa altura, as portas do jornalismo já o atraiam (p.  187).

Sirva esta singela apresentação da chegada de MVB à diocese de Nampula, de introito breve, para fixarmos o primeiro clamor de profetas em Moçambique, ocorrido em março de 1974, mas, de alguma maneira, consequência de ponderada reflexão e discernimento aturado, sobretudo, a partir da segunda metade da década de [19]60: o aparecimento do documento Um Imperativo de Consciência, assinado pelo bispo diocesano D. Manuel Vieira Pinto e lançado por iniciativa dos missionários Combonianos.

O texto refletia a experiência missionária com as populações, condições de vida infra-humanas, contínua negação de direitos fundamentais, ofensas às populações, como os massacres de Wiriamu, insurgia-se contra “uma situação de Igreja ambígua e comprometedora; à luz da Palavra de Deus e dos últimos acontecimentos desta mesma Igreja (a saída dos Padres de Burgos, a saída de Tete de alguns missionários Combonianos” (p. 389). Consequência imediata, após a publicação do documento, em 12 de fevereiro de 1974, onde se afirmava a autodeterminação e independência de Moçambique, como Direito dos Povos, os missionários Combonianos seriam expulsos de Moçambique, bem como, dois meses depois, o bispo residencial, D. Manuel Vieira Pinto que agentes da PIDE-DGS conduziriam até à então designada Metrópole (p. 388).

Apresentada a diocese de Nampula, nascida no mesmo ano da assinatura da Concordata entre o Estado Novo e a Santa Sé, com o Acordo Missionário acoplado, precisamente, para estabelecer condições de maior dependência das Missões do regime salazarista, MVB abraça o propósito de enveredar por uma descrição de factos, evidenciado o propósito de uma Igreja local se entregar ao serviço das populações na defesa e promoção da dignidade humana, desde a satisfação imediata de necessidades básicas, alimentação, saúde, habitação, ao reconhecimento do direito à liberdade, paz e autodeterminação. E, tudo isto, haverá de ser conseguido através de um tacticismo, muito firme, de impedir a concretização de desígnios últimos do Acordo Missionário, o de amarrar a missão à portugalização, evidentemente contrários à visão dos novos missionários por uma evangelização, insculturada e enraizada na alma dos povos africanos.

Foto: Missionários Combonianos em Mossuril. © Comboni.org

 

Terceiro bispo da diocese, sucedendo a D. Teófilo José Pereira de Andrade (1941-1951) e D. Manuel de Medeiros Guerreiro (1952-1966), D. Manuel Vieira Pinto abraçará devotamente o desígnio de não amarrar a missão à portugalização, em virtude de ele, mesmo, ter sido moldado pelo Movimento por um Mundo Melhor, permitindo-lhe essa experiência, a todos os títulos inovadora, e renovadora no seio da própria Igreja, a construção de reflexão própria e, a revelar-se, constitutiva do pensamento pastoral do futuro bispo de Nampula (p. 206).

Bispo de Nampula que, na primeira aparição pública, ao desembarcar no aeroporto da cidade, recebe cumprimentos da “nata” local e, a seguir, rompe o protocolo, avança na direção onde se aglomerava a população negra, posta a recato dos senhores da terra, saúda uma mulher, arranca-lhe do colo o filho e ele mesmo, o bispo recém-chegado, ergue em seus braços essa criança negra em direção ao Sol. Ficara marcado, assim, com este gesto, o pontificado de D. Manuel Vieira Pinto na sua amada diocese de Nampula (p. 206).

Outro episódio, contra a corrente, protagonizado por D. Manuel Vieira Pinto ocorreu na sequência do pedido formulado por senhoras do Movimento Nacional Feminino para celebrar uma Eucaristia em memória de militares portugueses falecidos em combate. Acedeu fazê-lo, na condição de “incluir também a memória dos militares negros da colónia ‘uma vez que a Igreja não tem inimigos’” (p. 207).

No resto “ele tentava romper com o conservadorismo teológico pastoral, que dominava o pontificado do papa Pacelli, conhecido pelo seu misticismo mariano e mão dura, no governo da Igreja Católica”. (p. 207).

No alinhamento do texto, MVB interrompe a prosa pessoal, para dar voz a D. Manuel Vieira Pinto e republicar a entrevista com o bispo de Nampula, publicada na revista Visão e difundida na TSF, em 2002. “Nunca me arrependi de ter lutado pela independência de Moçambique” afirmava com vigor o lendário bispo de Nampula (p. 208-222).

Ao leitor é, então, proporcionada oportunidade de revisitar o pensamento do bispo de Nampula que confiava o seu futuro a Moçambique e lá desejava ser sepultado, pois o consideravam moçambicano “porque não defendia nem a Frelimo nem a Renamo. Estava do lado do povo” e chegara até a fundar a “Congregação de Nossa Senhora da Paz e da Misericórdia” (p.  210).

Manuel recorda sem azedume a expulsão de Moçambique, em vésperas de 25 de abril de 1974, lamentando, somente que, entre os seus irmãos do episcopado, apenas tenha sido visitado por D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, e D. António Ribeiro, Patriarca de Lisboa (p. 215).

De Samora, dizia que não percebia nada de Marx, nem se sentia bem onde houvesse nuvens marxistas (p. 218).

Samora Machel e Eduardo Mondlane

Descanso em tempo de guerra. Quando Eduardo Mondlane (em cima, à direita) foi assassinado, em 03-02-1969, o seu sucessor imediato foi Uria Simango, que servira com ele como Vice-presidente desde a fundação da FRELIMO. Cedo foi expulso, e logo substituído por Samora Machel (em cima, à esquerda), em Maio de 1970.

 

Convidado por MVB a lançar um olhar sobre a Igreja portuguesa, na altura da entrevista, em 2002, D. Manuel Vieira Pinto hesita: “Apenas lhe sei dizer que gostaria de uma Igreja mais profética e não tão preocupada em rezar missas a fio. Noto que a Igreja é pobre em profecia e perde-se na rotina de festas e procissões” (p. 221).

José Lino, irmão e afilhado de Manuel Vieira Pinto, presta testemunho com amargura: como bispo de Nampula “foi expulso pelo poder civil, sem que a Igreja portuguesa e Roma se opusessem a tal crime”. Recorda a morte do irmão aos 96 anos. Tempos fatídicos da pandemia covid-19, sepultado na sua terra natal em São Pedro de Aboim (1 de maio de 2020) e, desgostoso, exprime irreprimível mágoa: o País e a Igreja Católica devem a este raro ser humano, a honra que os seus atos heroicos e proféticos reclamam” (p. 227).

No fio do texto, MVB insere a prosa publicada no 7MARGENS, em 2 de maio de 2020, aquando da morte do arcebispo emérito de Nampula, ocorrida no Porto, em 30 de abril de 2020 (p.228-232).

A seguir, o jornalista passa a ser assessorado pelo sacerdote, guia de escrita sobre a retaguarda da evangelização, releitura da missionação exigente e crítica (p.239-252). Mergulha nos longínquos anos de 1834, revisita a Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas até desembocar no “acordo que tramou a originalidade da missão” (p. 252-255).

É por esta altura do corpo do livro, que MVB incorpora uma entrevista com Luís Sá, antigo sacerdote da Sociedade Missionária Portuguesa, ex-revolucionário da Frelimo, médico neurologista, que aos 79 anos continua a assistir doentes de Alzheimer e de Parkinson. A ele os autores dedicam o livro, talvez, por eles próprios encontrarem no testemunho de Luís Sá a chave de leitura ou chaves de leitura deste trabalho. (p.265-279).

O missionário “guerrilheiro” no campo de acção.

Foto: Luís Sá, o missionário “guerrilheiro” no campo de acção.DR

 

Além das entrevistas a D. Manuel Vieira Pinto e a Luís Sá já acima citadas, o escopo do texto de MVB tem como sustentáculo outras duas relevantes entrevistas: com o padre Manuel Horta, missionário comboniano, subscritor do documento Um Imperativo de Consciência e por isso expulso de Moçambique em 12 de abril de 1974 (p.284-290); e com o padre José Luzia (pp. 291-329) que foi quem melhor conheceu a trama que envolveu Vieira Pinto e a diocese de Nampula.

Manuel Horta aponta a extraordinária importância do gesto de D. Manuel Vieira Pinto de ter sido primeiro subscritor do documento Um Imperativo de Consciência (p. 286) tornando-se então incontornável referência dos missionários em Moçambique.

José Luzia sublinha a multiplicidade de “sinais do neoclericalismo que explica que a figura emblemática de Vieira Pinto, seja praticamente ignorada (p. 308).  Sobretudo “a primordial intuição visionária de Vieira Pinto, inconformista e renovadora” como se depreende de títulos de documentos por si deixados:

A Caminho de Novas Estruturas Missiopastorais; Estamos numa hora de viragem; Das Missões à Igreja Local; Na Linha da Renovação Missionária; Repensar a Guerra; Um Imperativo de Consciência (p.298).

Outras vivências da Missão em Moçambique são narradas por MVB com recurso ao testemunho do padre Fernando Marques Mendes, sacerdote da Diocese da Beira. O “grito dos padres do Macuti” (p. 330-358), com a denúncia dos massacres de Mukumbura (p.336) onde tropas rodesianas e portuguesas torturaram e assassinaram camponeses moçambicanos indefesos.

O trabalho de MVB é beneficiado, na parte final do livro, por dois textos distintos: depoimento de D. Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas e de Segurança, (p.359-362) e pelas notas pessoais do final de vida de D. Manuel Vieira Pinto extraídas de uma autobiografia que a doença de Alzheimer impediu de concluir (p.365-374). Aí, recorda que encontrando-se em Lisboa por ter sido expulso de Moçambique pela PIDE/DGS, passados 11 dias, a ocorrência da Revolução de 25 de Abril e de, na sequência desses acontecimentos, ter tido “o privilégio de ajudar o General Spínola a elaborar o texto que reconhecia e proclamava o direito dos povos das chamadas colónias ou Províncias Ultramarinas à sua autodeterminação e independência total e completa” (p. 371).  Também de ter sido “o único Bispo de Moçambique a ser convidado pelo Presidente Samora a estar presenta na solene cerimónia da proclamação da Independência de Moçambique” e do “longo diálogo” que “a partir daquele dia histórico” começou com “o Presidente Samora ajudando a criar uma consciência no povo Moçambicano, agora independente e soberano” (p. 371).

Vieira Pinto

Foto. D. Vieira Pinto © Vatican News

 

No Moçambique revolucionário o bispo Manuel Vieira Pinto “foi um verdadeiro catequista político” (p. 320), como atesta a Pastoral do Natal de 1978 Cristianismo e Religião – Fé e Revolução: (…) com os seus escritos, com as suas notas pastorais, o bispo Manuel, “por um lado, ajudou os de dentro da Igreja a entenderem algo mais para lá das suas tradicionais convicções religiosas católicas e anticomunistas” (p.321).

O livro Moçambique da Colonização à Guerra Colonial à Intervenção da Igreja Católica é completado pelo registo histórico de documentos emblemáticos da situação, militar, social, política e religiosa em Moçambique, de 1974 a 1992:

– Repensar a Guerra, Carta Pastoral, janeiro 1974 do bispo Vieira Pinto que se pergunta pelas causas da guerra e proclama o direito dos Povos à autodeterminação (pp. 377-387).

– Um Imperativo de Consciência, Missionários Combonianos, 12 de fevereiro de 1974, em que se afirma a autodeterminação e independência de Moçambique, como o Direito dos Povos (pp. 388-394).

– Carta do bispo Vieira Pinto ao Presidente Samora Machel, datada de 25 de setembro de 1986, onde denuncia massacres, execuções arbitrárias, castigos desumanos e torturas, e o prelado propõe uma política de verdade e pela não-violência, mais ajustada aos valores da justiça e do amor (pp. 395-408).

Acordo Geral de Paz de Moçambique, datado de 4 de outubro de 1992 (pp. 409-413).

 

Uma nota introdutória

Deixamos para o final desta recensão a Nota Introdutória, onde o general Ramalho Eanes afirma não ser sua intenção “apresentar esta obra que partindo da História geral de Moçambique, desde a chegada dos Portugueses até à Independência, se debruça, em particular, sobre a presença da Igreja Católica neste país e, dentro desta temática, aborda, em maior detalhe, a vida e obra de D. António Barroso e D. Manuel Vieira Pinto” (p. 5).

Porém, refletindo brevemente sobre o contexto da descolonização ocorrido “em situação verdadeiramente dramática”, Eanes observa:

“A perda do império, um império que fora projecto coletivo de vida por mais de 5 séculos, exigia um tempo de luto, de reflexão do País, em que deveríamos ter encontrado estímulo para uma reflexão democrática e para desenharmos, em conjunto, um novo projecto colectivo de vida. Mas a verdade é que não fizemos esse luto, não procedemos a essa reflexão. E sinais há de que o País sente a falta dessa reflexão, necessária para se libertar de fantasmas, e, até, para desenhar uma estratégia de cooperação com África (p. 7-8).

Pelo que se escreveu e fica por dizer, Moçambique da Colonização à Guerra Colonial A Intervenção da Igreja Católica de Amadeu Araújo e Manuel Vilas Boas é de leitura obrigatória e referência incontornável para aqueles que se interessam pelos temas nele tratados.

 

José António Santos é jornalista

 

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