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WFP Palestinos deslocados atravessam a destruição em Rafah, no sul de Gaza

Reações firmes

Proposta de Trump para a Faixa de Gaza é “chocante”, “vergonhosa” e “ilegal”, dizem Igrejas cristãs e Amnistia Internacional

| 06/02/2025

A mais recente proposta feita pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o futuro da Faixa de Gaza – que prevê transformar a região na “Riviera do Médio Oriente”, sem que os palestinianos possam habitar nela – deixou em choque o Conselho Mundial de Igrejas, o Patriarcado Latino de Jerusalém e organizações de defesa dos direitos humanos como a Amnistia Internacional, que são unânimes ao denunciar a sua ilegalidade, desrespeito pelo direito internacional e violação dos direitos humanos.

“O Conselho Mundial de Igrejas acredita firmemente que a proposta feita pelo Presidente dos Estados Unidos da América sobre o futuro de Gaza equivale a propor uma limpeza étnica em larga escala e uma neocolonização da terra natal dos dois milhões de palestinianos de Gaza. Ela viola todos os princípios aplicáveis ​​do direito internacional humanitário e dos direitos humanos, desrespeita décadas de esforços da comunidade internacional — incluindo os EUA — por uma paz justa e sustentável para os povos da região e, se implementada, constituiria múltiplos crimes internacionais do tipo mais sério”, afirma o organismo que representa mais de 340 igrejas e denominações cristãs em todo o mundo, num comunicado publicado esta quarta-feira, 5 de fevereiro.

Donald Trump anunciou no dia antes, numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, após o seu encontro na Casa Branca, que os Estados Unidos “tomarão conta” da Faixa de Gaza e supervisionarão a sua reconstrução, e os palestinianos que aí habitam serão reinstalados “permanentemente” fora do território devastado pela guerra. “Faremos o que for necessário. Se for necessário, enviaremos tropas. Vamos assumir aquela zona e vamos desenvolvê-la”, sublinhou. Por sua vez, Netanyahu mostrou-se convencido de que a “disposição” de Trump “de pensar fora da caixa com ideias novas ajudará a alcançar todos os objetivos” de Israel.

Mas, para o CMI, não restam dúvidas: “Vinda depois de tantos meses de violência desenfreada, morte, destruição e deslocamento infligidos à população de Gaza pelas forças armadas israelitas, apoiadas pelos EUA, esta proposta para a limpeza étnica do território revela o objetivo final inconcebível deste conflito, há muito buscado por elementos extremistas na política e na sociedade israelita”, pode ler-se no comunicado, assinado pelo secretário-geral da organização, Jerry Pillay.

“A proposta do Presidente Trump está em flagrante desrespeito pelos direitos fundamentais do povo de Gaza, que tem lutado e sofrido por tantas décadas. Portanto, deve ser inequivocamente rejeitada por todos os membros responsáveis ​​da comunidade internacional e por todas as pessoas de boa vontade”, pede o CMI, apelando diretamente a Trump para “reconsiderar esta proposta vergonhosa e respeitar o direito internacional e a dignidade humana e os direitos iguais do povo de Gaza”, e instando as igrejas e comunidades cristãs em todo o mundo “a levantarem as suas vozes em defesa da justiça, a defenderem a proteção das vidas e direitos palestinianos e a pressionarem os seus Governos a rejeitarem qualquer proposta que facilite a limpeza étnica e a ocupação permanente”.

 

Onde fica a solução dos dois Estados?

Bispo William Shomali, durante visita ao Patriarcado Ortodoxo Grego, Natal 2024. Foto Patricrcado Latino de Jerusalém

“É inconcebível pensar em deslocar um povo contra a sua vontade”, afirmou o bispo William Shomali. Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém

 

Quem também rejeita o “Plano Trump” é o bispo auxiliar de Jerusalém e vigário patriarcal para a Palestina, William Shomali, que em entrevista à agência italiana SIR afirmou que “é inconcebível pensar em deslocar um povo contra a sua vontade, assim como é impensável forçar outro estado a acolhê-lo”. “Se a reconstrução de Gaza exige a limpeza da área de minas, bombas não detonadas e escombros – um trabalho que pode levar anos – realocar a população é possível, mas apenas garantindo o seu direito de retorno e não forçando-a a ficar do lado de fora depois de a área ter sido reconstruída”, salvaguarda.

“As declarações de Trump chocaram-nos porque nos fizeram entender as suas intenções em relação ao futuro de Gaza. O Egito e a Jordânia já disseram que não aceitam esse plano que prevê um êxodo em massa de palestinianos. É diferente aceitar famílias vulneráveis, idosos, doentes, mas não uma população de mais de dois milhões de pessoas”, afirmou o bispo católico, em representação do Patriarcado Latino de Jerusalém. “Está em jogo os respeito pelos direitos humanos”, sublinhou.

William Shomali assinalou ainda que “Trump e Netanyahu nunca falam sobre as resoluções da ONU e a solução Dois Povos, Dois Estados” e defendeu que “o ponto crucial da questão” é se haverá um Estado palestiniano. “O conflito surge dessa questão sem resposta. O mundo inteiro fala sobre isso, até mesmo Trump, mas sem realmente entrar em detalhes sobre uma solução justa e sustentável. O Estado palestiniano, para os dois líderes dos EUA e de Israel, continua a ser um princípio vago”, lamentou, deixando o apelo: “Precisamos de chegar à raiz do conflito: a posse desta terra. A solução é a solução dos dois Estados. Se caminharmos nessa direção chegaremos ao fim do conflito”. Mas, se isso continuar a ser evitado, “a paz na Terra Santa continuará a ser um sonho”, concluiu.

 

Uma luta com décadas

UNRWA Mulheres em Gaza fazem fila num ponto de distribuição de alimentos

Mulheres em Gaza fazem fila num ponto de distribuição de alimentos. Foto © UNRWA

 

“Nenhum Estado tem o direito de tratar uma população protegida que vive sob ocupação como peões num jogo de xadrez geopolítico”, alertou por seu lado a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, em comunicado enviado ao 7MARGENS.

“Qualquer plano para deportar à força os palestinianos para fora do território ocupado contra a sua vontade é um crime de guerra e, quando cometido como parte de um ataque generalizado ou sistemático à população civil, constituiria um crime contra a humanidade”, afirmou perentoriamente a responsável pela organização de defesa de direitos humanos.

Callamard considera que a linguagem de Trump nas declarações de terça-feira “é inflamatória, ultrajante e vergonhosa”, e a sua proposta “equivale a uma violação flagrante do direito internacional”. E recorda que “a maioria dos palestinianos de Gaza são descendentes e sobreviventes da Nakba de 1948, já foram repetidamente desenraizados e expropriados por Israel e viram negado o seu direito de regresso, mas continuaram a lutar para permanecer nas suas terras e defender os seus direitos humanos”.

Neste momento, conclui, “é mais importante do que nunca que o resto da comunidade internacional rejeite categoricamente estas propostas e acelere os esforços diplomáticos, em linha com o direito internacional, para pôr fim à ocupação ilegal de Israel, desmantelar o apartheid e defender os direitos humanos dos palestinianos e dos israelitas”.

 

Organizações pedem fim dos negócios com colonatos de Israel

Numa carta aberta dirigida a Ursula Von Der Leyen, 163 organizações portuguesas e europeias de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional, sindicatos e grupos da sociedade civil desafiaram já esta semana a Comissão Europeia a tomar medidas para proibir todo o comércio e negócios entre a União Europeia (UE) e os colonatos ilegais de Israel no Território Palestiniano Ocupado.

A missiva afirma que esta é uma ação essencial para que a UE e os seus Estados-Membros cumpram as suas obrigações ao abrigo do direito internacional.

“Tendo em conta a necessidade urgente de respeitar o direito internacional e de pôr termo à contribuição da UE, dos Estados-Membros e das empresas para os graves abusos cometidos por Israel, estas organizações apelam à Comissão para que, imediatamente, introduza legislação para proibir o comércio e os investimentos nos colonatos” e, enquanto se aguarda a adoção de tal legislação, publique “um documento consultivo reforçado que desencoraje as empresas europeias de atividades que beneficiem os colonatos israelitas”.

(Foto de destaque: Palestinianos deslocados atravessam a destruição em Rafah, no sul de Gaza. © WFA)

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