A proximidade é a linguagem do cristianismo. Não é um adorno da fé, nem uma categoria pastoral simpática. É a forma concreta como Deus escolheu entrar no mundo.
Cristo é proximidade. Cura em proximidade, fala em proximidade, escuta em proximidade, olha em proximidade. Quando diz que “o Reino de Deus está próximo”, não anuncia uma realidade futura. Diz que está perto. Que se aproximou. Que Deus deixou de poder ser pensado como ideia remota, porque se fez rosto, corpo, voz, mãos, presença.
A Encarnação é isto: Deus suficientemente perto para ser visto, tocado, contrariado, seguido, abandonado, amado. Deus suficientemente perto para tocar as chagas do leproso, para pôr saliva nos olhos do cego, para se sentar à mesa com pecadores, para chorar diante do túmulo de um amigo. E isto não é linguagem figurada.
A fé cristã não se exerce à distância. Cada cristão, chamado a ser outro Cristo, precisa da proximidade para exercer o seu ser Cristo. Não há cristianismo desencarnado, higiénico, asséptico, cuidadosamente protegido do incómodo do outro. Há sempre um corpo diante de nós. Uma voz. Uma ferida. Uma história. Uma fome. Uma solidão. Um rosto.

“A fé cristã não se exerce à distância. Cada cristão, chamado a ser outro Cristo, precisa da proximidade para exercer o seu ser Cristo.” Foto @ Timon Studler | Unsplash.
Ora, o centro e o norte da Europa mostram-nos, com particular nitidez, a dificuldade contemporânea de ser cristão pela dificuldade crescente de proximidade. A começar pela proximidade física, tantas vezes recebida com estranheza, retraimento ou rejeição. Mas também a proximidade afetiva, espiritual e intelectual se tornou suspeita. Aproximar-se é visto como invadir. Interessar-se é confundido com interferir. Cuidar corre o risco de parecer excesso.
O pós-pandemia e a dependência tecnológica acentuaram esta aridez. Habituámo-nos à mediação dos ecrãs, à distância confortável, à gestão digital da presença. Vemos sem olhar. Respondemos sem escutar. Comunicamos sem tocar. Estamos disponíveis sem estarmos presentes.
Se juntarmos a isto o individualismo exacerbado e as suas suscetibilidades anexas, sempre prontas a gritar que “o inferno são os outros”, compreendemos a dimensão dos muros que erguemos para as relações humanas. A cápsula inexpugnável que o nosso tempo oferece às pessoas tem muitos nomes, mas um só efeito: o isolamento. Nunca estivemos tão conectados e talvez nunca tenhamos sido tão difíceis de alcançar.
Pior do que muitas perseguições exteriores aos cristãos é esta secura que destrói por dentro a missão. Porque a missão começa antes da palavra. Começa no instinto da proximidade fraterna. Começa quando alguém deixa de ser caso, rótulo, opinião, problema, ameaça ou categoria, e é só, inteiramente, pessoa.
Na verdade, é como se a humanidade irmã se tivesse transformado paulatinamente numa humanidade de adversários. Os rótulos precedem as pessoas. As pessoas são vistas através de múltiplas lentes, e quase nenhuma delas generosa. Antes do encontro, já levantámos a defesa.
Amar, porém, exige proximidade. Exige pousar um olhar amoroso sobre um outro que se deixa ver. Exige a coragem de não reduzir ninguém ao seu medo, à sua fragilidade, ao seu erro, à sua opinião ou à sua máscara. Exige também aceitar que o outro talvez não queira deixar-se amar.
A tarefa dos cristãos nos nossos dias parece, por isso, ter voltado ao seu princípio. Esperar contra toda a esperança. Ser de Deus onde Deus parece não ter lugar. Levar a proximidade de Deus sem ruído, e oferecê-la em pequenos goles, para não ser estranhada. Pequenos goles de presença, de alegria, de fidelidade, de escuta, de benevolência. Gestos discretos, mas persistentes. Constantes. Mansos. Carregados do enorme amor que tudo salva – o Dele mesmo.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
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