[Segunda leitura]

Prrriiiuuu!… Cartão branco!

| 15 Nov 21

Cartão branco mostrado nas Olisipíadas. Foto © Direitos reservados

 

Era um jogo de futebol feminino, sub-19, entre o Sport Clube Vianense e a Associação Desportiva de Paredes. Quando as equipas entraram em campo, o treinador do SC Vianense reparou que a equipa adversária, o Paredes (um estreante na competição), tinha apenas oito jogadoras, pois não conseguira levar mais ao jogo. Vai daí, o dito treinador, de nome Fabrício Franco, retirou três jogadoras ao seu “onze”, para que pudessem jogar ambas as equipas com o mesmo número de atletas. Uma boa demonstração de fair play. A árbitra do encontro, Marina Almeida, chamou o técnico, meteu a mão no bolso onde guardava os cartões (tradicionalmente o amarelo e o vermelho, como se sabe) e exibiu-lhe o cartão… branco. Um cartão que “visa enaltecer condutas eticamente corretas, praticadas por atletas, treinadores, dirigentes, público e outros agentes desportivos”, conforme se pode ler no “site” do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED)

 

Li esta história no jornal O Minho e também na página de Facebook do SC Vianense. Gostei muito, até porque não conhecia a coisa, nunca tinha ouvido falar do tal cartão branco, nunca o tinha visto em qualquer competição desportiva. E fui à procura de mais.

A futebolista Fabiana Pinto, da Escola de Futebol Hernâni Gonçalves, viu o cartão branco porque auxiliou e procurou animar uma adversária que se lesionara, num jogo contra o Desportivo de Leça. Ela conta: “Naquele momento percebi que a minha adversária não tinha ficado bem tratada, não a nível físico, mas a nível emocional/psicológico. Como não a conhecia, pensei que seria bom ela ter uma ‘voz desconhecida’ que a ajudasse a abstrair-se do momento e a conseguir acalmar-se.” Boa.

Luís Rodrigues, guarda-redes do AC de Travanca, abandonou de repente o terreno de jogo, para ir à bancada prestar os primeiros socorros a um adepto da equipa adversária que se encontrava em situação de emergência médica. E recebeu um cartão branco pelo seu comportamento. Ele recorda: “Quando regressei e vi o árbitro a dirigir-se a mim e a meter a mão ao bolso, pensei mesmo que me ia expulsar, mas imediatamente ele disse que era um ato simbólico e que era mais que merecido e mostrou-me o cartão branco! Sim, já conhecia o cartão branco, no entanto também sei que é pouco comum ver a sua utilização”. Boa.

Edivino Miranda é árbitro de basquetebol, modalidade que adora. Há tempos, num jogo que arbitrou a contar para a XXIII Taça Nacional Sub-16 Feminino, entre as equipas do Basquete Clube de Barcelos e o Clube do Povo de Esgueira, mostrou o cartão branco… aos adeptos. Porquê? “Foi um jogo muito disputado e intenso dentro de campo, no final a vitória acabou por sorrir à equipa do CP Esgueira. No final do jogo, dois atletas do Esgueira dirigiram-se a mim, dizendo que os pais pediam que fosse à bancada falar com eles, o que decidi aceitar. Ao chegar à bancada os pais agradeceram a excelente arbitragem feita por mim e pelo meu colega e referiram a pedagogia e a forma compreensiva como lidámos com um jogo no qual as principais intervenientes pertenciam a um escalão de formação. Pessoalmente como árbitro principal achei que foi uma atitude merecedora de cartão branco, porque estes bons exemplos não acontecem todos os dias e entendi que deveria ser valorizado.” Boa.

Paulo Cruz, árbitro da Associação de Patinagem de Coimbra, em jogo a contar para a Taça de Aveiro no escalão de Sub-13, que decorreu no Pavilhão de Ventosa do Bairro, Mealhada, mostrou o cartão branco às duas equipas em contenda: o Hóquei Clube da Mealhada e a Associação Académica de Coimbra B. Ele explica: “Exibi o cartão branco às equipas pelo comportamento de todos os jogadores intervenientes porque, apesar do avolumar do resultado, nunca menosprezaram nem zombaram dos adversários, revelando sempre um espírito desportivo competitivo e leal, respeitando os adversários, assim como a mim.” Boa.

 

Primeiro cartão branco no Campeonato de Portugal de Futebol, mostrado a um jogador do Esperança de Lagos num jogo contra o Olhanense. Foto © PNED

 

O futebolista do Esperança de Lagos, Gonçalo Teixeira, viu o primeiro cartão branco de sempre mostrado num jogo do Campeonato de Portugal, no encontro entre o Esperança de Lagos e o Olhanense.  O jogador marcou um livre e chutou a bola deliberadamente para fora. Porquê? Porque o seu adversário tinha reparado que a bola estava vazia e agarrou-a com a mão para a mostrar ao árbitro, mas este de imediato lhe marcou falta. Gonçalo, percebendo que o gesto do adversário não era motivo para falta, marcou o livre para fora, assim devolvendo a bola à equipa do Olhanense. E adianta: “O árbitro interrompeu o jogo e veio na minha direção a tirar os cartões do bolso. Fiquei um pouco na expectativa do que ele ia fazer, mas depois lembrei-me que já existia o cartão branco…” E foi esse que ele recebeu. Boa.

E há também a história do jogador Dinis, que viu o árbitro marcar uma falta a seu favor porque o adversário supostamente cortara a bola com o braço. Mas a bola não tinha acertado no braço, tinha-lhe batido na cara. E foi dizer isso mesmo ao árbitro, abdicando do livre. Boa.

Há mais, muitas mais. As que aqui ficam foram respigadas da newsletter Cartão Branco, publicada regularmente no site do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), numa secção muito adequadamente intitulada “Recursos Pedagógicos”. Aí se fica a saber que já quase meia centena de entidades do país, ligadas a um total de 14 modalidades, aderiu a esta iniciativa. Entre 2015 e 2019, o cartão branco foi mostrado, diz o PNED, 2.041 vezes. Muito bem. E eu que não sabia… E eu que nunca tinha visto…

Uma das entidades que aderiram, já agora, é a Federação Portuguesa de Futebol. Pode dizer-se que, infelizmente, nos jogos “maiores”, como aqueles que dão na televisão, não é muito frequente encontrar exemplos de fair-play como os que aqui se contam. Mas, sempre que haja, era bom que o cartão branco saltasse do bolso do árbitro, para que ficássemos a saber que ele existe – e que se pode e deve usar o mais possível. Sem qualquer penalidade por acumulação…

 

Eunice Mortágua, árbitra de futebol. Foto © Direitos reservados

 

[N.R. – No próximo dia 2 de dezembro, às 15h, o PNED organiza a cerimónia de entrega de prémios do cartão branco, durante a qual serão reconhecidos, entre outros, os gestos da árbitra Eunice Mortágua, da Associação de Futebol de Aveiro, que no mesmo dia socorreu um futebolista inanimado (em Valongo do Vouga, Águeda) e outro com três paragens cardíacas (em Famalicão, Anadia), em jogos de campeonatos distritais realizados no dia 19 de junho de 2021.]

 

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Ainda antes de acabar o curso fui à minha primeira entrevista de trabalho “a sério”, numa produtora de filmes num bairro trendy de Lisboa. Roubei um dia à escrita da tese de mestrado, apanhei o comboio e lá fui eu, tão nervosa quanto entusiasmada. O dono começou por me perguntar se fazer cinema era o meu sonho. Fiquei logo sem chão. Sofri, desde muito cedo, de um mal que me acompanha até hoje: sonhava demais e muitos sonhos diferentes.

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