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Entre Margens

(Pseudo)Cristianismo e violência nos nossos dias

| 10/10/2025

 

Temos assistido, nas nossas sociedades contemporâneas, a uma crescente polarização entre duas linhas de pensamento diametralmente opostas. Refiro-me concretamente à chamada guerra cultural, conceito usado pela primeira vez pelo sociólogo James Hunter no seu livro Culture Wars: The Struggle to Define America.[1]

Analisando a sociedade americana, Hunter define o conceito de guerra cultural como um profundo confronto social entre duas cosmovisões moralmente opostas, uma ortodoxa e outra progressista, que lutam pelo domínio das instituições culturais e políticas, e pela autoridade que define a vida pública e identidade nacional. Esta guerra cultural não se resume a controvérsias isoladas, como o aborto, a política de posse de armas, a separação entre igrejas e estado, o consumo de drogas sem supervisão médica, a homossexualidade e a censura. De facto, estes dois polos não estão divididos por questões tradicionais, como a religião, a etnia ou a classe social, facilmente identificáveis, mas antes por algo mais difuso que, conforme já referido, tem que ver com visões do mundo ou cosmovisões ideológicas.

Se a “ortodoxia” é caracterizada pelo compromisso com uma autoridade externa e auto-suficiente, definível e transcendente (Deus), a qual define objetiva e universalmente o que é bom e verdadeiro, a maneira como viver e o próprio sentido da existência humana, o “progressismo” sustenta que a verdade moral é evolutiva e contextual, dando mais ênfase à tolerância e à inclusão.[2] Recentemente, uma análise mais aprofundada à genealogia e mecânica da guerra cultural, tem mostrado que a divisão sugerida por Hunter entre as visões “ortodoxas” e “progressistas” vai mais longe. O papel da religião no conflito não tem sido inócuo, até porque, contrariamente ao que muitos pensavam, a secularização não eliminou de vez a relevância social da religião na sociedade em geral. Além disso, existe ainda uma ligação profunda entre guerra cultural e economia, uma vez que ambas se influenciam reciprocamente e muitos conflitos culturais decorrem da insegurança gerada pelas desigualdades económicas, e inclusive pela percepção de que certos investimentos, por exemplo, em políticas sociais e apoio a terapêuticas abortivas, são injustos e imorais.

Os recentes acontecimentos trágicos ocorridos com o influenciador e activista político conservador Charles Kirk, não são um acto isolado da crescente violência decorrente da bipolarização política e ideológica a que se tem vindo a assistir nos EUA. Já em 2024, a senadora democrática do Minnesota, Melissa Hortmane, e o seu marido foram igualmente assassinados a tiro por motivações políticas. O senador democrata John Hoffman do Minnesota e a sua mulher foram também alvo de um ataque semelhante, tendo sido ambos atingidos várias vezes, embora tenham escapado com vida.

O que está aqui em causa é a necessidade e o imperativo de uma verdadeira disposição para um diálogo aberto e sincero que leve a uma profunda reflexão acerca do que está realmente a acontecer nas nossas sociedades contemporâneas, a fim de sarar as feridas em vez de as aprofundar. Mas como podemos sair desta espiral de violência se os atuais meios de comunicação social, particularmente as omnipresentes redes sociais, contribuem como nenhum outro meio para a polarização política, nomeadamente através da propagação descontrolada de desinformação (fake news), ideologias violentas e discursos de ódio, pondo em causa os próprios fundamentos da democracia e do estado de direito?

George Segal, Despedida de Abraão a Ismael, 1987. Pérez Art Museum Miami (PAMM)

O que tem chocado muitos ultimamente é a constatação de que uma certa parte dos que se assumem como cristãos tem aderido a ideologias extremistas, especialmente defendidas por figuras que dinamizam, promovem e intensificam a polarização na sociedade em que vivem. Muitas destas ideologias estão fortemente alicerçadas no nacionalismo e numa narrativa imaginária de guerra espiritual contra supostos inimigos, justificando mesmo o uso da violência e hostilidade no espaço da esfera pública. A escolha, que é sempre feita entre os “que estão connosco” e os que “se não estão connosco, estão contra nós”, entre os alegadamente “puros” e os “impuros”, entre os autoproclamados detentores da verdade e os decadentes e degenerados, entre os que se dizem salvos e os outros já perdidos à partida, é muitas vezes justificada com o recurso à – alegada – vontade de Deus. O fim que tudo parece justificar – inclusive o uso da violência – é da construção de uma sociedade uniforme e monocromática, expurgada de toda a suposta impureza dos “impuros”. Este tipo de cristianismo – se é que pode realmente ser chamado de tal – erode toda a empatia, todo o diálogo, toda a possibilidade de abertura à realidade do outro enquanto outro, promovendo assim o ódio e a violência.

Talvez uma das propostas mais radicais para a solução da violência a que se assiste nestes últimos dias, muitas vezes feita com o beneplácito de uma religião fanatizada, conservadora e militante, seja aquela apresentada pelo teólogo Miroslav Volf no seu livro Exclusion & Embrace (Exclusão e abraço).[3] O livro foi escrito no contexto de uma profunda turbulência pessoal e global, marcada essencialmente por conflitos étnicos, religiosos e culturais ocorridos na antiga Jugoslávia na década de 1990. Estes acontecimentos, que Volf testemunhou em primeira mão – a devastação, a limpeza étnica e a polarização que surgiram durante a guerra da Bósnia – influenciaram profundamente a sua reflexão teológica acerca da alteridade, exclusão e reconciliação. A persistente alienação e hostilidade a que Volf assistiu na sua terra natal, compeliram-no a desenvolver uma teologia que desse uma resposta à violência, não com retaliação, mas com a possibilidade de perdão e de acolhimento ou abraço.

Como, pois, os cristãos devem reagir à violência? Volf defende que uma genuína fé cristã não deve sancionar nem legitimar a violência: o cristão é chamado a resistir à violência através da prática do amor, o qual se doa a si mesmo e absorve o mal sem lhe dar resposta, ou dando-lhe como resposta exclusivamente o bem. De facto, a base da resposta à violência, continua Volf, está assente no “abraço do outro”, o qual rompe o ciclo de exclusão e vingança e que busca a reconciliação, mesmo daqueles que ferem ou violam. Mas o perdão não é uma negação da justiça, mas sim uma busca activa pela reconciliação social e pessoal, procurando caminhos para a restauração de relações danificadas sem perpetuar o ciclo da violência, a qual somente pode ser justificada pela perversão das mais elementares crenças e valores do cristianismo, como o amor, a compaixão e a misericórdia.

Por fim, Volf defende que o cristão deve amar, mesmo quando discorda, ser sempre benevolente, promovendo o bem-estar do outro, inclusive dos próprios inimigos, sem necessitar, obviamente, de sancionar as suas acções violentas. No meio de tudo isto a resposta que todos nós devemos dar a esta espiral de violência, será, não apenas rejeitar a prática directa da violência, mas todos os discursos, organizações ou políticas que promovam a exclusão, o ódio ou a vingança, tendo sempre por alvo o bem comum sem fazer acepção de pessoas. Só assim nós, cristãos, estaremos agindo como agentes activos de reconciliação em ambientes tão marcados por conflitos como os que temos assistido nestes últimos tempos.

 

[1] Hunter, James. Culture Wars: The Struggle to Define America. (New York, Basic Books, 1991), 42-6, 50.
[2] Hunter, James. Culture Wars: The Struggle to Define America, 44.
[3] Miroslav Volf, Exclusion and embrace : a theological exploration of identity, otherness, and reconciliation (Nashville: Abingdon Press, 1996).

 

Doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt

 

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