Psicodélicos: chave para o potencial espiritual?

| 11 Jul 2023

Fé-comprimidos

“Talvez um acto contemplativo, em vez de um comprimido, seja um modo mais humano de explorar essas experiências e encontrar novas formas de significado, propósito e pertença a um mundo cada vez mais complexo.” Foto © Miguel Panão

 

Na busca constante por compreender o sentido da nossa existência no universo e conexão com a realidade para além da materialidade, a humanidade desenvolveu há muito tempo uma sensibilidade para a dimensão espiritual da realidade humana. Uma dimensão que gera experiências religiosas. No entanto, os avanços científicos e tecnológicos começam a explorar novas formas de aprofundar essa sensibilidade. Uma dessas formas é através do uso de substâncias psicodélicas, como a psilocibina, que estão a ser estudadas pelo seu potencial de aumentar a sensibilidade à experiência religiosa.

A psilocibina, um composto psicoativo encontrado em certos tipos de cogumelos, tem sido usada em práticas religiosas e espirituais por séculos. Num artigo focado no efeito de substâncias psicodélicas no encontro com Deus, um grupo de investigadores fez uma revisão de tudo o que sabemos sobre o potencial dessas substâncias induzirem experiências místicas e espirituais. Em geral, os participantes que receberam psilocibina relataram experiências profundas de auto-transcendência e conexão com o divino. Inclusive, a maioria daqueles que se identificaram como ateus antes da experiência não se identificaram mais como ateus após o encontro. Isso sugere que a psilocibina, bem como outras substâncias psicodélicas, teve um impacto na orientação religiosa dos ateus, levando-os a não se identificarem mais como ateus. Estaremos diante de uma pílula da fé?

A espiritualidade é uma experiência mediada pelo nosso corpo. As substâncias psicodélicas provocam alucinações e estudos como este são uma faca de dois gumes: ou ampliam a experiência; ou ampliam a alucinação. Por isso, em vez de esclarecer, estudos como este mantêm-nos na dúvida sobre a autenticidade da experiência de encontro com Deus. Teologicamente, Deus fez-nos livres. Por isso, se não houvesse no mundo quem não acreditasse n’Ele, a Sua existência estaria entre uma alucinação colectiva e um ser como outros seres, quando — por definição — Deus é Deus se não for um ser entre outros seres, nem causa entre outras causas, mas o fundamento de toda a existência.

No entanto, é importante notar que estas abordagens científicas a experiências religiosas não são universais. A resposta a substâncias como a psilocibina é altamente individual e pode ser influenciada por uma variedade de factores, incluindo as crenças e expectativas da pessoa. Para aqueles que não têm convicções religiosas, a psilocibina pode não induzir uma experiência religiosa, mas antes promover uma sensação de admiração, conexão e transcendência que pode ser espiritualmente significativa.

Além disso, a psilocibina não é uma “pílula mágica” para a experiência religiosa. Embora possa facilitar experiências profundas e transformadoras, essas ainda requerem interpretação e integração para ter um impacto duradouro na vida de uma pessoa. Nesse sentido, a inserção numa comunidade onde se partilham experiências espirituais e a orientação de um director espiritual pode ser inestimável neste processo.

Também é crucial ter presente que a psilocibina é uma substância poderosa com potenciais riscos e efeitos colaterais. Embora não seja considerada fisicamente viciante, pode levar a experiências psicológicas intensas e, por vezes, angustiantes. O uso seguro e responsável é essencial, mas necessário para termos um encontro com Deus?

O estudo da psilocibina e outras substâncias psicodélicas está no início, e há muito que ainda não se sabe. Os estudos até agora sugerem que essas substâncias têm um potencial significativo para enriquecer nossa compreensão da experiência religiosa e espiritual. Mas, em última análise, a questão não é se a psilocibina ou qualquer outra substância pode “provar” a existência do divino ou induzir uma experiência religiosa genuína. Em vez disso, a questão é se vale a pena usar todas as ferramentas à nossa disposição, incluindo a psilocibina, para explorar a vasta paisagem da experiência humana e buscar uma maior compreensão de nós mesmos e do universo em que vivemos reconhecendo o valor da dimensão espiritual humana.

Numa era de crescente secularismo, a psilocibina e outras substâncias psicodélicas podem oferecer uma nova forma de buscar o sagrado, mas serão sempre o soma do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, ou seja, o berço de uma distopia. Seja qual for a origem da nossa fé (material, espiritual, ou síntese de ambas), todos temos a capacidade de experimentar momentos de contemplação, onde a transcendência e conexão profunda com o que está para além da materialidade, se materializa dentro de nós. Talvez um acto contemplativo, em vez de um comprimido, seja um modo mais humano de explorar essas experiências e encontrar novas formas de significado, propósito e pertença a um mundo cada vez mais complexo.

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao. Contacto: miguel@miguelpanao.com

 

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