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Papa Leão XIV na inauguração do Borgo Laudato Si, 5 setembro 2025. Foto Vatina Media
Papa Leão XIV na inauguração do Borgo Laudato Si, 5 setembro 2025. Foto Vatican Media

[Dicionário particular III]

‘q’ de querido – Querido Papa Leão…

| 17/06/2026

 

Querido Papa Leão,

Escrevo‑lhe devagar. Vou pousando as palavras no colo antes de as entregar ao teclado. Tenho acompanhado as suas viagens em silêncio, como quem segue alguém que ainda se está a aprender a conhecer. E, sem dar por isso, sem ruído, foi nascendo em mim a surpresa. Uma pequena luz que se foi unindo a outras pequenas luzes e que me foi trazendo claridade, e clarividência. Descobri‑o aos poucos, foi-se revelando sem nunca se impor. Talvez seja por isso que lhe escrevo: porque, ao vê‑lo caminhar, também eu fui caminhando por dentro.

O primeiro passo deste percurso foi dado no médio oriente, quando no Líbano, se apresentou como “peregrino da esperança”, e essa palavra, que tantas vezes me parece frágil, foi ganhando densidade através do seu rosto sereno e do seu olhar. Quando disse que “a reconciliação começa sempre com um gesto pequeno, mas verdadeiro”, senti que estava a falar para mim, para as minhas próprias reconciliações adiadas, para os gestos que vou deixando para depois. Percebi que não estava apenas a visitar os países de uma check list: estava a tocar nas feridas do mundo com a delicadeza de quem acredita que, apesar de tudo, desistir não é uma opção.

Quando esteve em África, foi como se o seu pontificado ganhasse ali um coração exposto. Onze dias, quatro países, encontros com vidas que tantas vezes são invisíveis aos olhos do mundo. E, no entanto, o Papa Leão quis parar diante delas, como se fossem os parentes antigos que há muito não visitamos. “A fé não foge das feridas; aproxima‑se delas”. Esta frase caiu em mim como um convite silencioso. Acho que foi nesta visita que senti, com clareza, uma continuidade que me comoveu: Francisco abriu caminho por entre os espinhos, derrubou muros, suportou tempestades para que o Papa Leão pudesse, agora, aplanar o terreno, preparar a sementeira e transformar toda a clareira em campo fértil.

Espanha foi a viagem que mais me tocou, não só pelas suas inspiradíssimas palavras, mas pelos lugares onde decidiu estar. As praças e as universidades, claro, mas sobretudo os campos de refugiados, onde a dignidade humana é tantas vezes reduzida a um valor insignificante. Ali, quando disse que “ninguém é estrangeiro quando alguém decide olhar com humanidade”, senti que a sua palavra não era apenas espiritual, era profundamente humana. E nas prisões, quando afirmou que “a justiça não se cumpre quando se fecha uma porta, mas quando se abre uma possibilidade”, percebi que a Igreja, consigo, irá continuar nas periferias, a falar para aqueles cuja voz ninguém quer escutar e que muitos até querem calar.

Papa Leão no Porto de Arguineguín (Las Palmas de Gran Canaria) 11 de junho de 2026 Foto Vatican Media

‘Quando disse que “ninguém é estrangeiro quando alguém decide olhar com humanidade”, senti que a sua palavra não era apenas espiritual, era profundamente humana.’ Foto: Papa Leão no Porto de Arguineguín (Las Palmas de Gran Canaria) 11 de junho de 2026. © Vatican Media

É aqui que lhe confesso o que talvez seja o centro desta carta: ao conhecê‑lo melhor, percebi que a Igreja ainda tem algo a dizer, e que aquilo que diz pesa na forma como olhamos o mundo; pesa na forma como olhamos os outros; pesa até na forma como olhamos para nós próprios. E essa descoberta, para mim, foi inesperadamente luminosa.

Com a sua Magnifica Humanidade encontrei a última peça deste caminho interior. Escreveu que “a grandeza do humano não se mede pelo poder, mas pela capacidade de cuidar”. Esta frase não é apenas uma ideia: é o fio que cose todas as suas viagens, todos os seus gestos e todas as suas palavras, e tenho a certeza de que é por aqui que nos quer levar, é por aqui que a Igreja de Jesus irá.

Francisco abriu uma clareira. O Papa Leão está a preparar a terra, e eu, que apenas fui observando, descobri que a sementeira também me atravessa, pois «Temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo» in Magnifica Humanitas.

Plena de Esperança e Confiança, uno-me a si, querido Papa, num abraço fraterno,
Júlia

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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