Quadrado da serenidade ou testemunho de ser

| 7 Mai 21

Antiprisma quadrado torcido

“O quadrado da serenidade, consiste num desenho geométrico que preconiza o ser humano ideal, aquele em que todos deveríamos querer transformar-nos.”  Foto © Rodrigo.Argenton / Wikimedia Commons

 

Desde há mais de um ano que uma percentagem muito significativa do que aparece escrito tem, direta ou indiretamente, a ver com o mundo em que o nosso mundo se transformou diante da invasão por esta pandemia de covid-19. Não se trata de uma secagem da imaginação humana, mas da pregnância que este fenómeno de tão larga escala assumiu. Muito do que antes era quase absoluto ficou relativo ou relativizado pela forma como tivemos de redefinir as nossas decisões, as nossas atitudes educativas, os nossos ambientes laborais, as nossas relações e convívios, como hoje, entre os mais novos, tanto se diz.

Com a licença das nossas mentes, há que começar a permitir-se falar de outros conteúdos que continuam a fazer parte dos nossos desafios, da nossa sabedoria de vida, da nossa perceção do que assumimos ser a realidade em que vivemos.

Precisamos de não desistir de aprender e de querer entender o nosso papel. Aqui estamos para nos aperfeiçoarmos e, como alguém disse, não esquecer que o que daqui levarmos é o bem que fizemos a quem nos rodeou.

Mas, como podem alguns humanos piorar a sua condição, sem nada integrar do que de bom poderiam disseminar, desempenhando papéis de faz de conta que sou bom, mas tudo destruo subtilmente à minha passagem?

Um dos grandes riscos que se corre é mesmo o de perder a noção do ridículo e das genuínas conveniências. Há histórias de manipulação, de inveja e de mentira que, não parecendo ficção, existem bem perto de nós, embora apenas nos apareçam como manifestamente improváveis.

Aquilo a que tenho vindo a chamar o quadrado da serenidade, consiste num desenho geométrico que preconiza o ser humano ideal, aquele em que todos deveríamos querer transformar-nos. Imaginemos este polígono dividido ao meio na vertical e na horizontal. Sobram, assim, quatro figuras geométricas iguais.

Em cada um dos campos deveremos instalar uma atitude – a delicadeza, a dedicação, a alegria e a coerência.

Em geral corremos tanto que nem percebemos que ser delicado é tão só procurar agir com o outro como gostamos que ajam connosco; ter um sorriso verdadeiro e gentil; dispor de uma paciência acrescida, mesmo quando estamos mais cansados e nos dizem ou fazem algo que nos desagrada.

Ser dedicado é um gesto de entrega a coisas, causas ou pessoas. Nem sempre é fácil alcançá-la, é verdade. Contudo, desde que saibamos restringir-nos ao patamar em que nos encontramos, tornamos possível aquilo que, se quisermos ir longe de mais, se mostrará para nós inalcançável.

Ser alegre, às vezes estar, desde que esta aparência não seja desprovida de autenticidade, é o caminho do maior testemunho. Na Igreja Católica já há um bom guia acerca disto, mas, antes da exortação Evangelii Gaudium, era notório que, em alguns contextos, ser cristão parecia ser carregar às costas o peso de um dever pesado e sob o qual alguns se dobravam para parecer santos.

A coerência é verdadeiramente uma busca, diria eu, nunca plenamente conseguida. É um caminho que todos os dias deve representar uma ambição boa. É algo que precisa de rechear os nossos trajetos interiores e exteriores, pois representa uma ponte entre uns e outros.

Quando cada um de nós integrar bem esta síntese no seu ser concreto, irá, certamente, alcançando um estado de serenidade que o vinculará a aceitar e a aceitar-se; a ser construtivo e a construir-se; a pacificar e a apaziguar-se; a dar e a ser verdadeiro testemunho.

Claro que nada pode ser concebido sem contexto. Todos temos um caldo existencial em que somos e no qual as nossas vidas acontecem. Mesmo assim, estes humildes modelos que gosto de conceber estão muito mais ao nosso alcance do que, frequentemente, perspetivamos. Temos uma tendência natural para querer que as circunstâncias sejam ideais e, em função disso, podermos evidenciar a melhor versão de nós. Mas não. O que está ao nosso alcance é, em geral, muito mais do que imaginámos. Basta, para isso, lançarmos mão destas quatro propostas que se harmonizam numa só, à qual poderíamos chamar a verdadeira arte de viver.

E, como a sabedoria se pode cruzar, termino com uma citação do psicoteraupeta americano Irvin Yalom, que traduzo sem rigor técnico: Se vivermos uma vida cheia de arrependimentos, cheia de coisas que não fizemos, quando a morte vier, será, decerto muito pior para todos nós.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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[Segunda leitura]

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“Começa hoje a campanha eleitoral para as eleições autárquicas de 26 de setembro”. Juro que ouvi isto na passada terça-feira, dia 14 de setembro. Assim mesmo, sem tirar nem pôr, na abertura de um noticiário na rádio: “Começa hoje a campanha eleitoral para as eleições autárquicas de 26 de setembro”. Juro.

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