Pré-publicação

Qual é a religião de Deus?

| 16 Mai 2022

capa livro Joaquim Franco e Fernando VenturaNa próxima quinta-feira, 19 de maio, será apresentado no Porto Todos Nós Somos Sendo (ed. Contraponto), o livro que completa uma trilogia de conversas entre frei Fernando Ventura e Joaquim Franco.

Depois de Do Eu Solitário ao Nós Solidário e de Somos Pobres mas Somos Muitos, o frade franciscano capuchinho e o jornalista especializado em informação religiosa falam sobre o mundo, a fé, a política e Deus, tendo como pano de fundo a encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, bem como os dinamismos do diálogo e da sinodalidade, que entendem ser necessários em todas as dimensões da sociedade.

O 7MARGENS antecipa um excerto da obra, na qual frei Fernando e Joaquim Franco questionam: “qual é a religião de Deus?”

Juntam-se aos autores, na apresentação do livro, o bispo emérito Januário Torgal Ferreira e o jornalista João Fernando Ramos (Bertrand Shopping Cidade do Porto – Rua Gonçalo Sampaio, 350, às 18h30). A apresentação em Lisboa será no dia 23 de maio, na sala cultural do El Corte Inglés (Av. António Augusto de Aguiar, 31), às 18h30, com a presença da comunicadora Júlia Pinheiro e do jornalista Manuel Vilas Boas.

 

Joaquim Franco (JF) – Na Hungria, em setembro de 2021, o papa defendeu que o grande confronto não é entre religiosos e não religiosos, mas «entre o Deus verdadeiro e o deus que é o próprio eu». Francisco disse que «a lógica de Deus» é a do «amor humilde», que «o caminho de Deus evita qualquer imposição, ostentação e triunfalismo, visa sempre o bem dos outros, indo até ao sacrifício de si mesmo», enquanto, do outro lado «temos o pensar segundo os homens», isto é, «a lógica do mundo, presa às honras e privilégios, tendente ao prestígio e ao sucesso».

A reflexão de Bergoglio é inclusiva, até na perspetiva teológica. Parece‑me de uma subtileza revolucionária. Nenhuma religião pode então reivindicar que tem um Deus «verdadeiro». Podemos entender que o Deus da fé não é, sequer, exclusivo dos que o proclamam ou cultuam, mas que se revela numa ética de relação, de entrega em humilde compromisso para com o outro?

Frei Fernando Ventura (FV) – Voltamos à pergunta que há pouco deixei no ar. Qual é a religião de Deus? É uma pergunta retórica, admito. Na primeira epístola de João, há uma passagem que nos confronta já com essa reflexão de Francisco, que tem sido a nossa reflexão, conversa atrás de conversa: «A Deus nunca ninguém o viu, se nos amarmos uns aos outros Deus permanece em nós» (1 Jo 4). E nessa mesma carta, João dá a única definição possível de Deus: «Deus é amor» – ὁ θεός ἀγάπη ἐστίν; Ó Theos (Deus) agápê (amor, amor agápico, o grau mais elevado de doação absoluta ao outro) (1 Jo 4, 8).

 

JF – Dá-me a liberdade de usar uma expressão muito tua para alargar o espectro da reflexão. Estamos então diante de um Deus… poligâmico? Um Deus contra a monotonia?

FV – Era possível fazer essa pergunta com palavras menos chocantes? Talvez, mas essas são as palavras assertivas. Admito que sim. Permite‑me, entretanto, insistir nesta ideia, neste tempo tão urgentemente necessitado de gente de fé, «sem religião» que mata e mancha as mãos de sangue de todas as religiões, simplesmente, ou estupidamente, porque todos, mais ou menos, pensamos que Deus tem uma religião. A ser assim, e se assim fosse, Deus não seria mais do que um Narciso insuportável cheio de si, adorando‑se a si mesmo, exatamente ao nosso jeito, exatamente como nós, feito à «nossa imagem e semelhança», Narcisos, pedantes, vaidosos, peneirentos, talibãs (onde é que eu já me vi nisto?)…

 

JF – Então – assim só cá para nós, que ninguém nos ouve… –, qual é a religião de Deus?!

FV – Perdoem‑nos os(as) leitores(as) a veleidade de os(as) incomodarmos a este propósito, mas é importante ter ideias claras sobre isto. Um dos dramas que aflige o nosso tempo, tal como afligiu tantos outros tempos antes do nosso, é precisamente este. Assim, de repente, e em linguagem pobrezinha, olhando de fora, parece que os cristãos pensam que Deus é cristão, que os judeus imaginam que Deus é judeu, que os muçulmanos acreditam que Deus é muçulmano e por aí fora… E não saímos disto. Muito diálogo, muito diálogo… ou talvez não!

Não deixamos de lado este mistério da pescadinha de rabo na boca. Vamos dando mordidelas uns aos outros, o mais possível dentro do que consideramos politicamente correto, que muitas vezes mais não é do que o extremar das posições de cada um…

 

Papa Francisco, Patriarca Bartolomeu, Comunidade de Sant'Egídio

Papa Francisco e patriarca Bartolomeu (esqª), no final do encontro inter-religioso promovido pela Comunidade de Santo Egídio, em Roma, em Outubro 2021: “Parece que os cristãos pensam que Deus é cristão, que os judeus imaginam que é judeu, que os muçulmanos acreditam que é muçulmano e por aí fora…” Foto © Comunidade de Santo Egídio.

 

JF – … «Deus pensa como eu digo, logo a minha religião é a verdadeira!»

FV – E se alguém se quer aproximar, só tem é de se converter a mim. É assim uma espécie de convivência musculada, que mais não consegue fazer do que enviar antissinais a um mundo que cada vez mais está farto de nos aturar a nós e às nossas birras de gente «de religião».

 

JF – A essa gente, a gente da religião põe o carimbo de «descrente» ou, de forma mais pomposa, «secularizado»…

FV – Nem mais! Mas, vamos à Bíblia. Vamos ver o fio condutor de toda a Escritura, como nos pode ajudar a perceber que também aqui, como sempre, a lógica de Deus vai ao arrepio e em contrapelo das nossas idiossincrasias bacocas. Vamos a Génesis 1, 2 e a Apocalipse 22, 17. Não é preciso ir mais longe, vamos simplesmente ao princípio – Génesis – e ao fim – Apocalipse. O «Espírito solteiro» de Génesis, que paira divinamente solitário sobre as águas, reaparece «casado» em Apocalipse. Mais palavras para quê? Deus casou! O que temos é dificuldade em identificar a «noiva», a «esposa», como «virgens loucas». Corremos logo a gritar «a legítima sou eu…!»

 

JF – Desconfio que voltaremos a este tema mais à frente. Recordemos para já a pescadinha a morder a cauda…

FV – …andamos à volta e não entendemos que Deus «casou» com a criação inteira, com a humanidade inteira – até com os católicos…–, não cabe nas fronteiras apertadas de nenhuma religião, de nenhuma filosofia, de nenhuma teologia. Como perguntavas, antevendo já a resposta, Deus é poligâmico, não é «monótono»!

Casou com a humanidade, «converteu‑se» a nós de forma incondicional. Num Amor sem fronteiras temporais ou espaciais, que está para lá da nossa limitada compreensão.

 

JF – «Deus permanece» no Amor! Mas há racionalidade nesse amor, nessa incondicionalidade, nessa intemporalidade? Como entender, assim insinuas, que esse sentimento se mantenha depois de uma pessoa deixar de estar presente? O que há de racional em amar alguém que já não está ou esse Outro alguém, invisível como entidade?

FV – Essa é a pergunta que quem nos lê também já se deve ter colocado. É importante definir o conceito de «racional». Racional é só um mero resultado de compromisso das ligações sinápticas cerebrais? É só uma articulação da amígdala com o córtex pré‑frontal ou entre quais outras regiões cerebrais que se mobilizam?

É algo que podemos «separar» da própria essência e definição de ser pessoa? Sinceramente penso que não.

O tempo que é este tem feito tudo o que pode para separar o que é ontologicamente incindível, inseparável: o racional e o emocional – o cérebro e o coração. Não sei caminhar por aí. Somos fisicidade e «metafisicidade»…

 

JF – …razão e emoção…

FV – …e a separação destas duas entidades, a mera hipótese de poder existir realmente uma separação da dimensão «racional» e da dimensão «emocional» em alguém, é uma hipótese que facilmente nos levaria a ver a aparição de um monstro (infelizmente, a história já conheceu alguns!). É tarefa de todos, crentes e não crentes, enquanto seres humanos, não permitir que justamente o que é distintivo de ser pessoa – «o ser de relação» – nunca resvale para abismos de monstruosidade. É uma responsabilidade de todos.

 

JF – Qual é então – além do compromisso com essa ética de responsabilidade e interdependência, desse Amor acima dos modelos religiosos – o papel dos crentes, dos que, conscientemente, dizem ter fé em Deus?

FV – Têm de ser «fonte», semeadores das tais sementes de vida de que falei há pouco, capazes de, em comunidade que se reúne em nome de Deus e com a Palavra, saciar as sedes do mundo. No caso dos cristãos, é experimentar a luta interior que evita que essa ética da corresponsabilidade, capaz de transbordar em Amor, seja consumida pelo tal «pensar segundo os homens».

Deixa‑ me alargar um bocadinho, justamente a propósito deste tema. O tempo novo e os novos tempos, têm de ser tempos novos para continuar a acreditar que ser gente é «ser de relação». Um dia seremos um «nós» para além de nós e em direção ao «Nós».

 

JF – É uma das tuas frases clássicas. Acreditas profundamente nisso.

FV – Sim, acredito profundamente nisso. Acredito profundamente em Deus e recuso‑me a descrer da incapacidade humana de redenção. Eu sei que são os patifes que «vendem notícia», mas sou também testemunha ocular que não cala nem desanima de acreditar na bondade inata de todos os seres humanos.

Um dia seremos nós, e um dia seremos livres; livres de ser como somos sem peias nem amarras, nem cadeias, mas livres numa utopia a construir neste mundo que é nosso, neste espaço de existir a que chamamos precisamente «existência», delimitada pelos dois grandes abismos de solidão que nos balizam, que às vezes nos habituam e que muitas vezes nos transformam e nos conformam, num conformismo que nos tolhe e amordaça, porque não nos deixa ser gente.

 

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