
Manifestação contra as alterações climáticas. Foto Direitos Reservados
Lembramos Aristides de Sousa Mendes…Como criminoso? Não, não, como herói. Embora tenha ido contra a lei e ordens superiores do Estado para salvar milhares de Judeus.
Olhamos para Martin Luther King Jr. e os seus companheiros como alguém que, com as suas marchas pela Paz, interrompiam o trânsito de quem queria ir para o trabalho? Não, não, como aqueles que trouxeram a igualdade para negros e brancos. Ainda que irrompessem pelas cidades impedindo a normal rotina diária dos residentes.
Vemos estas e outras personagens da história, que não seguiram leis e tão pouco o que lhes diziam, como exemplos, comos modelos, como heróis. Se assim é, como é o nosso olhar para com os activistas climáticos?
Jovens e velhos, que causam um frenesim, se sentam e colam às estradas, a comboios, a sedes de petrolíferas, aos bancos e empresas que continuam a investir em explorações de petróleo. Não serão heróis? Faltará passar o mesmo tempo, o tempo da indiferença climática para o tempo da consciência deste que é o maior desafio que a humanidade enfrenta? Tal como teve de passar o tempo da ditadura para o reconhecimento de Aristides, ou o tempo da desigualdade racial para Luther King?
Atentemos na mensagem do Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres: “Os ativistas pelo clima são descritos como radicais perigosos mas os radicais verdadeiramente perigosos são os países que estão a aumentar a produção de combustíveis fósseis.”.
Em 2019, António Costa e vários ministros tentaram assinar a expansão do aeroporto de Lisboa, estimulando assim o negócio que mais alimenta o consumo massivo de combustível fóssil (aviação). E, prestes a fazê-lo, sem relatório de impacto ambiental. Resultado? Bem, nada de criminal ou politicamente consequente se passou. Essas consequências foram reservadas para Francisco Colaço Pedro, também colunista do 7Margens, que alertou para o facto tomando o microfone e interrompendo uma intervenção do primeiro-ministro, enquanto outros lhe atiravam aviões de papel e erguiam um cartaz: “Mais aviões? Só a brincar!”. Costa, sem consciência das acções que estava prestes a tomar e que os activistas realçaram, prosseguiu com um processo contra Francisco.
No último mês, em Algés, vinte Activistas bloquearam o acesso ao Conselho de Ministros colando-se aos portões do local da reunião. Porquê esta acção? “A crise climática devia ser o tema central desta reunião. É a maior crise que a humanidade já enfrentou e os governos não estão a lidar com isso dessa forma.”, disseram.
No passado 26 de setembro, um grupo de jovens, chocado com o ministro do ambiente representar o governo em evento da GALP e EDP – que lucram com o comércio da emissão de gases que agudizam a crise climática, atiraram tinta verde ao representante do governo. Segundo eles: “se (o ministro) respeitasse os jovens não tentaria limpar a imagem das empresas que estão a condenar o nosso futuro”.
Vemos tranquilamente como o quão perigoso é a não priorização do maior desafio da humanidade, mas as acções destes activistas são tidas e olhadas como radicais. Os activistas levaram a cabo estas acções sem nada a ganhar, talvez umas horas na polícia, cadastro, e a incompreensão de tantos, mas em verdade são os heróis dos nossos dias ainda que o tempo não lhes atribua este mérito por agora.
Vejamos alguns acontecimentos dos últimos quatro meses:
- Cheias na Líbia (11.300 mortos)
- Guatemala, (38 mortos e 40.000 deslocados)
- Brasil, o número de mortos provocados pelo ciclone aumentou para 41, milhares de pessoas forçadas a abandonar as suas casas;
- Índia, Nova Delí, (15 mortos nas cheias). Em julho já teriam tido 98 mortos por onda de calor..
- Omã e Iêmen, tempestade fruto de ciclone tropical (três mortos).
- China, em Hong Kong, a maior intensidade de chuva desde 1884, caíram até 158,1 milímetros de água por hora.
- México, um morto depois da passagem de Furacão Hillary, onde dois meses antes termômetros atingem 49º e fizeram 100 mortos.
- Também na Europa, em Espanha três mortos, Grécia, Espanha e Bulgária pelo menos 11 mortes
Estas são vidas de grupos culturalmente e religiosamente diversos na linha da frente da catástrofe. Os activistas realizam estas acções com a mesma motivação de Martin Luther King Jr., pela justiça e igualdade racial. Citando a dura verdade, nas palavras do teólogo Robert Beckford: “A inacção Climática é racismo, pois são maioritariamente negros e asiáticos a morrer”.
Por isso, neste Tempo da Criação 2023, prestamos tributo.
No mundo:
- As duas Eco-Activistas que a 7 de Setembro atiraram ao CEO da Rynair Michael O’Leary duas tartes (Dados do think tank Transport & Environment, garantem a companhia aérea emitiu mais de 13 milhões de toneladas de CO2 em 2022. A Ryanair é líder quanto ao número de passageiros transportados, e continua a aumentar a receita)
- Aos milhares de detidos e às 2400 pessoas presos em protesto na Holanda.
- Aos 102 activistas em manifestação pacífica contra jactos privados presos na Suíça.
- Philip Kingston (activista de 83 anos que, segundo Christian Climate Action, nenhum polícia quer prender).
- Greta Thumberg que agora mais velha já é detida.
- Aos nove Activistas Climáticos presos no Tibete sem processo: Anya Sengdra, Dorjee Daktal, Kelsang Choklang, Dhongye, Rinchen Namdol, Tsultrim Gonpo, Jangchup Ngodup, Sogru Abhu e Namesy.
- Joshua Smit, Louise Lancaster, Greg Rolles e Blue Sandford.
- Padres Activistas Climáticos: Sue Parfitt, Tim Hughes, Fr Martin Newell e a quaker Sue Hampton.
- À Christian Climate Action e Extinguish Rebellion no mundo.
Em Portugal:
- À Beatriz Xavier, líder da Greve Estudantil Climática, e aos vinte activistas, na maioria detidos, no bloqueio da Reunião do Conselho de Ministros.
- À Sofia e ao André Oliveira; Cláudia, Mariana e Martim Agostinho; e à Catarina Mota que interpuseram no tribunal europeu dos direitos do Homem um processo contra 32 países pelos incêndios em Portugal e ansiedade climática dos jovens.
- Ao Francisco Pedro julgado por uma acção de protesto climático, depois de absolvido em primeira instância por desobediência civil qualificada foi novamente alvo de intimidação política e judicial.
- À Matilde Ventura e restantes jovens que salpicaram de verde o Ministro do Ambiente num evento da GALP e EDP.
- À Aterra, Climáximo e Extinguish Rebellion Portugal.
Catarina Sá Couto é membro da Comunhão Anglicana em Inglaterra e Portugal










