O poder do trabalho em conjunto

Quando a escola é mesmo uma comunidade

| 21 Set 2021

O school bus no primeiro dia de regresso à escola, a 30 de Agosto, em Montgomery County, MD, EUA. Foto © Ana Luísa Pimentel.

 

Às 7h56 da manhã recebemos uma sms de Ms. Golando. Professora do 5º ano. Pedia que avisássemos o nosso filho Vasco para estar mais cedo na escola nesse dia. Um agente da polícia iria fazer a formação das school patrols. São alunos destacados voluntariamente para ajudar à segurança rodoviária em redor da escola. Passadeiras e afins. O Vasco é um patrol. Adora a sua função. Levanta-se todos os dias uns minutos mais cedo. É dos primeiros a chegar à escola. Dos últimos a sair. Vai e vem a pé. Aquela sessão com o oficial de polícia foi definitivamente inspiradora. E, pelos vistos, responsabilizadora.

À noite, Ms. Emery atrapalha-se com a ligação zoom. O powerpoint é tecnicamente sofrível. Não está sequer em modo de apresentação. Ms. Emery fala de si. De como gosta de cavalos. Da sua família. Dos seus tempos livres. Faz-se próxima. Comum entre nós. E só então, da estatura dos seus – talvez – 50 anos, numa aparência descuidada e quase-intimidante, Ms. Emery fala do que está para vir. Das suas aulas de Ciência. A audiência é um grupo vasto de famílias. Pais e alunos. Os miúdos adoram-na. A minha filha Júlia diz que ela é boa. Gosta. Seguiram-se outros seis professores. Um para cada disciplina. Sete minutos cada um. O suficiente para se darem a conhecer, falar do seu programa, e deixar escancarado no ecrã o seu email pessoal para quaisquer perguntas. Any time.

Ainda nessa semana, chegam os emails da Westland Cares e da BCC Cares. São dinâmicas – não chegam a ser organizações ou associações – coordenadas por voluntários locais, de alguma maneira ligados às escolas do bairro. Não têm que ser pais, alunos ou funcionários. Podem ser vizinhos, reformados. São em qualquer dos casos um grupo suficientemente anónimo de gente empenhada. Recolhem regularmente bens (geralmente alimentares) e donativos para garantir que as famílias mais carenciadas da escola não passam fome. Porque existe fome aqui à volta. E o Estado não é social. Ou não tanto quanto seria desejável.

Lyric Winik é mãe de dois. Um já universitário. Outro ainda na escola secundária, a High School. É voluntária. Presidente da associação de pais. Hannah Wilks tem 17 anos. Trata a primeira por “tu” – e não é filha dela. Aluna do 11º ano, é presidente do student government. Nesta sessão, apresenta o painel de alunos que se seguem. Johanna Lane, Sanjana Surendran, Carter Jones. Este último, um apaixonado pelos desafios ambientais. Fundou este ano um novo clube na escola, “Save the Reef”.

A escola tem mais de 100 clubes extra-curriculares. Todos iniciados e geridos por alunos, voluntariamente. Fora da sala de aula. Grace Wilkins adora música. Haroun Wadoud, 17 anos, trabalha em part-time para sustentar os estudos. Oferece apoio aos que se encontram em situação similar. Ava Bamji, canta a capella. Teresa Montoya lidera o programa de apoio a minorias. Especialmente hispânicas. Thomas Soffronoff, 15 anos, profundamente ligado ao teatro na escola. Nahomen Berhe, Ting Ting L. e alguns mais. E não é preciso mais.

Os nomes revelam só por si a diversidade cultural. Os testemunhos que se seguem ilustram sem artifícios o que se antecipava. Cada um com interesses, objectivos, motivações, histórias, talentos e paixões marcadamente diferentes. Em comum, tantas outras coisas. Têm idades compreendidas entre os 15 e os 17 anos. Todos alunos da mesma escola. E todos disponíveis para esta sessão de acolhimento a novos alunos. Às 19h00 de uma segunda-feira. Online. Sem guião pré-definido, respondem espontânea e genuinamente às perguntas que lhes colocam, pais e alunos. A primeira parece simples: “Qual foi a melhor experiência que tiveram nesta escola secundária e qual foi o desafio mais exigente que encontraram à chegada?” Houve mais questões. Bem mais. Sem rede, escutámos de tudo. De pistas e conselhos dados de borla, empatia a jorros e testemunhos de angústias e aflições passadas ou presentes. Estratégias pessoais de como lidam com elas. E, no fim, sempre a mesma mensagem aos recém-chegados. “Não estão sozinhos. Contem connosco”.

Mat Gandal é um antigo aluno desta escola. Já agora, a escola chama-se Bethesda Chevy-Chase High School. BCC para os locais. Mat preside à BCC Educational Foundation. Gerida com fundos e donativos privados, esta é uma organização totalmente voluntária com a missão de financiar programas que procuram colmatar os claríssimos défices e diferenças de oportunidades. Com isto, impulsionar o sucesso de todos. E não apenas alguns. Tão equitativamente quanto possível.

A BCC tem 2.270 alunos (não me enganei). Do 9º ao 12º ano. A minha filha Clara entrou este ano. A BCC faz parte de um agrupamento de 208 escolas, com cerca de 162.000 alunos e mais de 13.000 professores. A Júlia e o Vasco estão em outras duas escolas deste agrupamento. Como pode esta escola-pública ser à medida? Como pode este monstro administrativo acolher e integrar tanta diversidade? Como pode comunicar com e apoiar milhares de famílias carentes de orientação, tranquilidade e segurança na educação dos seus menores, cada uma à sua maneira? Como pode este sistema conectar individualmente um grupo gigante de profissionais educativos com cada um dos alunos e respetivos educadores?

E não é que pode?… Só não o faz a solo.

Os exemplos acima são apenas isso. Breves exemplos das últimas semanas. Extraídos de uma vertigem avassaladora de início de um novo ano letivo. São, no entanto, ilustrações fidedignas, reais, de uma comunidade em acção. Digo comunidade. E não Administração. Ou Governo. Ou Direcção.

Nesta comunidade, há um sentido de pertença, de responsabilidade partilhada. Há solidariedade em abundância, entranhada algures num labirinto de histórias de vida e realidades intrinsecamente distintas. Nos contrastes de oportunidades. Nesta generosidade explícita ou recatada, há uma autenticidade que não se disfarça nem se forja.

E há também, um impulso para o compromisso, para a acção; que tristemente não consigo acompanhar como queria.

Reconheço uma comunidade educativa como tantas vezes a imaginei. E tantas outras defendi. E hoje, diante deste banquete de utopias tornadas realidade, refugio-me no egoísmo da minha inércia. Talvez ainda acomodado no sofá do meu modelo europeu.

Procuro explicações outras, arrogantemente menos ingénuas. De que nem tudo é mesmo assim, como se vê. De que há interesses encobertos. De que deveria ser o Estado a tomar conta. De que só é verdade por ser aqui, nesta cidade. De que há uma história neste país que molda este carácter empreendedor. Que esta entreajuda é afinal, apenas, uma estratégia de sobrevivência colectiva.  De que é tudo passageiro. Que as desigualdades e a segregação persistem apesar de tudo. O assalto massacrante e aniquilador do “vale mesmo a pena”?…

E enquanto isto… a comunidade move-se. Avança. Como aquele Reino em que acredito, numa fé estruturante. Filial. E, sem me dar conta, movo-me com esta comunidade. Num movimento ainda tacteante. Mas profundamente desinstalador, a cada passo. Como um convite renovado, que aceito mais tácita do que abertamente, agradeço timidamente a dádiva desta experiência que agora se me oferece. Não será esta, afinal, uma das muitas vozes do Deus em que acredito?…

 

Luis Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

 

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