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autores - Ersun Augustinus Kayra

[Entre Margens]

Quando a mercearia fecha: a perda da vizinhança e da misericórdia

 

Na minha rua em Istambul, a mercearia do senhor Ahmet fechou na semana passada. Trinta e dois anos no mesmo local. A renda subiu, o senhorio preferiu vender a um investidor. No lugar da persiana verde, apareceu uma caixa de chaves cromada e um cartaz: «Alojamento Local».

Hoje, quando passei, a senhora Elif – que mora no segundo andar há quarenta anos – parou diante da porta fechada e disse baixinho: «Já ninguém diz “bom dia”. Porque já ninguém mora aqui. Só passam.»

Respondi qualquer coisa vaga, mas a frase dela ficou-me cravada. Não era saudade. Era infraestrutura. Aquela loja da esquina não era só um sítio onde se comprava pão ou açúcar. Era o lugar onde a senhora Elif deixava a chave quando saía, onde o senhor Ahmet guardava encomendas, onde se percebia se alguém estava doente ou precisava de ajuda. Quando a mercearia fecha, fecha também uma rede de segurança invisível – e essa rede não aparece em nenhum plano urbanístico.

Istambul e Lisboa são cidades parecidas: colinas, mar, bairros antigos que sobem e descem. E a mesma ferida. Em Alfama, o som do eléctrico 28, muitas vezes, já não é para quem lá vive: é para quem fotografa. Na Mouraria, em Arroios, a história repete-se: casas que deixam de ser casas e passam a ser produtos; vizinhos que desaparecem e são substituídos por visitantes de três noites. O bairro rareia, e com ele enfraquece a gramática da confiança.

Lisboa

“Em Alfama, o som do eléctrico 28, muitas vezes, já não é para quem lá vive: é para quem fotografa.” Foto © site Descubra Lisboa.

Não é nostalgia. Do lado de quem compra, vende e lucra, é cálculo frio. Do lado de quem fica – idosos, famílias, pequeno comércio –, é uma questão de dignidade e, no limite, de direitos. O direito à habitação não é só ter um teto: é pertencer a um lugar. É ter vizinhos que reparam se alguém não apareceu. É ter na esquina uma mercearia onde deixar a chave.

A crise das cidades não é crise de casas. É crise de relações. Quando o bairro se transforma em hotel, perdemos algo que não se reconstrói com tijolo: a capacidade de cuidar uns dos outros sem contrato, sem app, sem intermediário. Perdemos o reflexo quotidiano da misericórdia.

Aquela pequena mercearia era, na verdade, um templo do quotidiano – um lugar onde o sagrado e o banal se cruzavam. Venho de uma tradição cristã que levou a sério a ideia de encarnação: Deus fez-se corpo e vizinho, vida numa rua concreta. Por isso o Evangelho está cheio de portas, de casas, de encontros no caminho. O próximo não é uma ideia. É a pessoa da casa ao lado.

Não escrevo contra o turista. Escrevo contra a cidade que só consegue sobreviver transformando-se em vitrina – e os seus bairros em quartos de hotel.

Proteger o bairro não é romantismo. É defender a possibilidade de uma vida humana que não seja só consumo e solidão. É defender espaços onde ainda se pode perguntar «está tudo bem?» sem parecer estranho. Onde ainda se pode confiar. Onde a solidariedade não precisa de intermediários.

A senhora Elif não vai voltar a ter a mercearia do senhor Ahmet. Mas podemos decidir que a próxima loja da esquina, a próxima padaria, o próximo pequeno comércio que resiste, não desapareça sem luta. Podemos decidir que uma cidade não é uma montra: é uma teia de pequenos gestos, repetidos, que fazem a diferença entre viver e apenas habitar.

Istambul ensinou-me isto. Lisboa reconhece-o no corpo: quando o bairro cala, a cidade adoece.

 

Ersun Augustinus Kayra é escritor e ensaísta baseado em Istambul. Publica em vários meios internacionais (Vida Nueva, Stimmen der Zeit, Plough, Le Verbe) e escreve sobre fé, ética e vida urbana.

O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

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