Será colocado nas livrarias na próxima quinta-feira, 18, o segundo volume das Histórias da PIDE – Quando era a DGS de Caetano (edição Tinta-da-China), da autoria do jornalista José Pedro Castanheira. Depois de um primeiro volume no qual se contam histórias da vigilância da PIDE em relação a vários bispos católicos nas antigas colónias, esta nova obra inclui vários episódios sobre a vigilância exercida pela polícia política do Estado Novo (que entretanto mudara o nome para Direção-Geral de Segurança) em relação aos patriarcas de Lisboa Gonçalves Cerejeira, António Ribeiro e José Policarpo (este, espiado enquanto padre, já que só viria a ser cardeal e patriarca em democracia).
Deste volume, o 7MARGENS reproduz a seguir, em pré-publicação, alguns excertos do capítulo sobre o cardeal Ribeiro – concretamente, sobre o caso da Capela do Rato e as consequências nos meses seguintes.
José Pedro Castanheira (Lisboa, 1952) é jornalista profissional desde 1974 e foi “um dos primeiros jornalistas a mergulhar no Arquivo PIDE/DGS, a que se seguiram outros, igualmente depositados na Torre do Tombo”, recorda a editora. Trabalhou em jornais como A Luta, O Jornal e, durante 28 anos, o Expresso. Foi presidente da direção do Sindicato dos Jornalistas, vencedor de alguns dos mais prestigiados prémios atribuídos em Portugal, e é autor de uma dezena de livros, entre os quais Quem Mandou Matar Amílcar Cabral? (1995), Os Dias Loucos do PREC (com Adelino Gomes, 2006); Jorge Sampaio: Uma biografia (2 volumes, 2012/2017), Volta aos Açores em 15 Dias (2022) e À Descoberta das Ilhas Selvagens (2024).
A vigília da Capela do Rato

A capa do livro de José Pedro Castanheira.
Em junho de 1972, o chefe da delegação da DGS de Coimbra, inspetor Armindo Ferreira da Silva, enviou para a sede de Lisboa a «fotocópia de uma carta, intercetada pelos Serviços de Verificação de Correspondência desta Delegação, da autoria de Sua Eminência o Patriarca de Lisboa». É a única carta do seu punho existente neste dossiê, endereçada ao professor Torquato de Sousa Soares, um docente ultraconservador do Instituto de Estudos Históricos da Faculdade de Letras. O assunto era o padre Alberto Neto, responsável pela famosa Capela do Rato, em Lisboa. Escrevia D. António: «Desejo transmitir a V. Ex.ª a certeza de que reprovo todas as palavras ou atos suscetíveis de induzirem à guerra civil. Sobre o assunto da carta de V. Ex.ª, já adverti o Pe. Alberto Neto.» Apesar da menção à missiva do professor, esta não consta do processo.
A vigília‑ocupação da Capela do Rato teve início ao final da tarde de 30 de dezembro de 1972. Destinada a assinalar o Dia Mundial da Paz, transformou ‑se numa jornada contra a guerra colonial e terminou com a ocupação da igreja por elementos da DGS e da polícia de choque. Foram detidas cerca de 70 pessoas, entre as quais o padre António Janela. Os efeitos deste caso fizeram estremecer as estruturas da Igreja portuguesa. O patriarcado de Lisboa emitiu uma ambígua nota, na qual criticava os promotores da vigília e a polícia. A 23 de janeiro, o padre Serafim Ferreira e Silva, da casa episcopal do Porto (e que viria a ser bispo de Leiria e Fátima), escreveu ao patriarca. Não o fazia em nome pessoal – como o próprio frisou –, mas por incumbência da Comissão Diocesana Justiça e Paz do Porto, que o encarregou «de participar ou levar‑te ao conhecimento o apreço pela referida ‘nota’, que considera positiva, apesar de tudo. Desejaria a mesma Comissão que o Episcopado fosse mais claro, mas reconhece e compreende a limitação».
Do dossier de D. António Ribeiro nada consta sobre a su aintempestiva deslocação à sede da DGS, na Rua António Maria Cardoso, no primeiro dia de 1973. Como se viu, um dos detidos no caso da Capela do Rato fora o padre António Janela. «A Capela fora fechada e selada no dia 31 de dezembro pela Polícia», recordou aquele sacerdote, à época assistente da Juventude Escolar Católica. A polícia invocava ordens superiores, no sentido de impedir o culto na capela. Opostas eram «as instruções» recebidas pelo padre Janela, que, ao meio‑dia de 1 de janeiro, entrou na capela e rezou a missa como era seu hábito. «No final, estava eu ainda paramentado, quando fui abordado na sacristia pelo capitão Maltês», o chefe da polícia de choque, «que me deu ordem de prisão». Enviado para a sede da DGS, o sacerdote foi interrogado pelo inspetor Adelino Tinoco. «De repente», prossegue o padre Janela, «apareceu no edifício o Sr. Patriarca, acompanhado pelo seu secretário, que disse aos responsáveis da polícia que me vinha buscar. Depois de uma discussão, avisou que ou me deixavam sair da DGS ou então ele iria falar diretamente com o presidente do Conselho, à sua casa na Rua Duarte Lobo». O padre Janela acabou por ser libertado, «eram 5 horas da madrugada do dia 2 de janeiro».
A DGS sublinhou a mensagem de Natal de 1973

Monumento evocativo da vigília na Capela do Rato contra a guerra colonial: no estrangeiro, vários responsáveis católicos manifestaram apoio aos promotores da iniciativa e pediram aos bispos portugueses que o fizessem também. Foto © Isabel Duarte
A esperada promoção a cardeal deu‑se a 27 de fevereiro de 1973. Nessa altura, já os ecos da vigília da Capela do Rato haviam chegado a várias igrejas europeias. Em março, o cónego Pierre de Locht, presidente do Conselho Presbiteral de Bruxelas‑Malines, dirigiu‑se ao novo cardeal. Saudava a iniciativa do grupo de cristãos e pedia à hierarquia que promovesse a discussão do problema da guerra, «a todos os níveis da Igreja portuguesa». Ao mesmo tempo, reclamava a formação de mais comissões Justiça e Paz (havia apenas uma, na diocese do Porto) e de uma a nível nacional, «à imagem do que existe na quase totalidade dos países da Europa». Esta posição foi noticiada pelo jornal católico belga La Cité; o respetivo recorte chegou ao MNE, que se apressou a informar a DGS.
Em novembro, foi apreendida uma carta do teólogo espanhol Severiano Talavero Tovar. Emitida em Salamanca, referia‑se a um documento de alguns bispos de Moçambique – em confronto aberto com o regime –, que teria sido entregue por D. António Ribeiro ao chefe do Governo. «Também nesta ocasião, como em tantas outras, há que obedecer mais a Deus que aos homens. Saúdo ‑o em Jesus Cristo o Libertador», escrevia o teólogo, que manifestava ao cardeal «todo o meu apoio pessoal».
Por esta altura, o regime tinha detido vários cristãos envolvidos em atividades de caráter anticolonial: Nuno Teotónio Pereira, o padre Carlos Póvoa Alves (pároco de Alhos Vedros), José Augusto Pereira Neto, os irmãos Luís e Conceição Moita. Em protesto, 60 estudantes de Teologia dirigiram uma carta‑manifesto ao bispo de Lisboa. O mesmo fez o grupo Échanges et Dialogue, um respeitado movimento católico sediado em Paris. «Desde há três semanas que é impossível comunicar» com alguns dos detidos, dizia aquele movimento, que pedia informações «das iniciativas que a Conferência Episcopal portuguesa e você mesmo tomaram ou tencionam tomar face a estes muito graves acontecimentos». Uma cópia da carta foi remetida ao cardeal Jean Villot, o secretário de Estado da Santa Sé. Já em 1974, o professor Jean Marmignon e nove outros cristãos franceses escreveram ao cardeal, em apoio à tomada de posição do movimento Échanges et Dialogue. Um despacho de 28 de janeiro da direção da DGS instaurou a represália: «Interditar a entrada em T. N. [Território Nacional] aos que forem identificados pelo nome.»

À esquerda, carta de D. Eurico Dias Nogueira, bispo de Vila Cabral (Moçambique), dirigida em 1966 ao padre António Ribeiro e apreendida pela PIDE. À direita, ofício da delegação da DGS de Coimbra, de 1972, sobre a apreensão de uma carta do cardeal endereçada ao prof. Torquato de Sousa Soares. Fotos do Arquivo PIDE/DGS-Torre do Tombo, reproduzidas no livro.
A 25 de dezembro de 1973, e como de costume, o cardeal dirigiu ao país uma mensagem de Natal – a última sob a ditadura. O texto foi publicado pelo Diário de Notícias. O respetivo recorte enriqueceu o dossiê de D. António Ribeiro. Um funcionário da DGS sublinhou a régua e tinta vermelha duas passagens. Uma delas reza assim: «Há que reconhecer e aceitar as parcelas de verdade, venham elas donde vierem, mesmo se da contestação mais violenta e radical.» A outra: «Bem sei que alguns factos recentemente ocorridos à escala do Mundo, e até no interior da nossa comunidade nacional, são de molde a justificar apreensões e a erguer nuvens sombrias no horizonte».
A escassos dois meses do 25 de Abril, a DGS continuou a colecionar informações. Em fevereiro, o jornal alemão Frankfurter Rundschau noticiou uma intervenção do cardeal de Utrecht, Bernardus Alfrink, e do bispo de Munique junto do patriarca, «para esclarecimento das detenções de religiosos e crentes em Portugal». A notícia foi transmitida ao MNE pelo embaixador em Bona, Vasco Futscher Pereira. Esta embaixada parecia especialmente atenta às movimentações dos meios católicos europeus – com as informações recebidas a serem de imediato transmitidas pelos serviços centrais do MNE à polícia.
Foi assim que esta ficou a saber que «se encontra hospedado na casa de Jesuítas», em Frankfurt, o padre português José de Sousa Monteiro, «o qual, ao que parece, teria sido o autor de um artigo recentemente publicado no Publik Forum sob a assinatura de Rutti». O mesmo jesuíta era suspeito de ter influenciado diversos «círculos» de Munique, que, por sua vez, teriam estado na base da «carta enviada pelo Bispo Thenhumberg a Sua Excelência o Cardeal ‑Patriarca de Lisboa, bem como provocado a resolução tomada pelo Movimento Pax Christi», criticando o silêncio dos bispos portugueses sobre a violação dos direitos humanos. A mesma embaixada deu conta da realização, em Bruxelas, da Conferência Europeia Justiça e Paz, em que o padre espanhol Juan Ugarte apresentou «uma informação sobre ‘a prisão de cristãos militantes em Portugal’».
Um último documento conservado na Torre do Tombo é uma carta do padre Duarte Ribeiro Jorge ao cardeal. Emitida em Paris, em 12 de fevereiro de 1974, escrevia: «Soube que foi preso Ismael [Nabais Gonçalves], meu colega de curso» e pároco da Igreja Nova em Mafra. «Por isso, peço ao Senhor Patriarca o favor de me enviar o seu endereço, pois gostaria de lhe testemunhar a minha amizade neste momento de provação.» Desconhece ‑se se o pedido foi satisfeito.










