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Bento XVI em Auschwitz

[Leituras de um pontificado – 5]

Quando Bento XVI questionou em Auschwitz o “silêncio de Deus”

| 04/01/2023

Pouco mais de um ano depois de ter sido eleito, Bento XVI foi ao campo de extermínio de Auschwitz, onde fez um dos discursos mais notáveis e reconhecidos do seu pontificado. Esse texto é aqui recordado, a partir da notícia do Público de 29 de Maio de 2006 – e que deve ser aqui lida com as referências temporais daquela data.

Bento XVI em Auschwitz

Bento XVI em Auschwitz: “um sentido grito dirigido a Deus: Porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto?. Foto: Direitos reservados

 

Apresentando-se como “filho da Alemanha”, o Papa Bento XVI terminou ontem a sua viagem de quatro dias a Polónia, país natal do seu antecessor, João Paulo II, com uma visita ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. O acontecimento foi considerado “histórico” por responsáveis judaicos, apesar de uma pequena gaffe do Papa. Depois de ter escutado o kaddish, a oração judaica pelos mortos, Bento XVI confessou a sua dificuldade em falar naquele local.

“Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: Porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque esteve ele silencioso? Como pôde ele permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?”

O Papa disse ainda que Hitler e o nazismo quiseram eliminar os judeus, que estão “na raiz do cristianismo”, porque queriam “matar Deus”. Queriam “apagar todo o povo judeu, apagar este povo do registo dos povos”, disse Bento XVI. Uma frase que o embaixador de Israel na Polónia, David Peleg, considerou a mais importante do discurso.

A humanidade só pode “gritar humildemente e insistentemente a Deus: não te esqueças da humanidade, as tuas criaturas”, respondeu o Papa Bento, às suas perguntas.

A visita a Auschwitz foi o ponto alto desta segunda viagem de Bento XVI ao estrangeiro. O grande rabino judeu da Polónia, Michael Schudrich, considerou-a, em declarações à AFP, como “um grande momento no processo de reconciliação” entre cristianismo e judaísmo. Schudrich, que cantou o kaddish, estava junto de Bento XVI na oração que este fez em Birkenau e disse que iria rezar para que o Papa “prossiga no mesmo caminho de João Paulo II, para lutar contra o anti-semitismo”.

“Para um cristão e para um Papa alemão” é difícil estar no lugar símbolo do Holocausto, crime “sem equivalente na história”, confessou Bento XVI. Na sua juventude, Joseph Ratzinger foi integrado na Juventude Hitleriana, já nos últimos tempos da II Guerra Mundial, mas abandonou essa força paramilitar ao fim de um ano. Apesar de tudo isso, o Papa afirmou que não podia deixar de ali estar. E, na única vez que se exprimiu em alemão nestes quatro dias polacos, foi para rezar: “Senhor, tu és o Deus da paz, tu és a paz em ti mesmo.”

Alguns líderes judaicos ouvidos pela AFP no final das mais de duas horas que durou toda a visita não gostaram, entretanto, que o Papa tivesse atribuído a Shoah apenas a um “grupo de criminosos” que, pela demagogia e pelo terror, “abusou” do povo alemão “como instrumento da sua sede de destruição e de dominação”.

Perante milhares de pessoas – entre as quais muitos sobreviventes de Auschwitz e de outros campos da morte, líderes judaicos, políticos – o Papa referiu que também muitos alemães ali morreram. E citou o caso da filósofa judia Edith Stein, que se tornaria cristã e freira carmelita. “Foi um discurso muito comovente, mas teve coisas que poderiam ter sido mais fortes”, disse o grande rabino da Polónia. “Mas a sua simples presença aqui é importante, é um grito contra o anti-semitismo.”

A visita a Auschwitz começou com Bento XVI a atravessar, sozinho, a porta do campo, onde se lê a inscrição tristemente célebre Arbeit macht frei (o trabalho liberta). Dirigiu-se, depois, ao muro dos fuzilamentos, onde milhares de prisioneiros foram executados. Rosto pesado, cabelo ligeiramente levantado pelo vento, o Papa rezou ali sozinho durante alguns instantes, antes de acender uma vela.

Ratzinger saudou em seguida, um a um, 32 dos 200 mil sobreviventes dos campos de concentração. Entre eles, estava Henryk Mandelbaum, um judeu polaco que esteve encarregue de retirar os corpos das câmaras de gás, ao qual abraçou. Dirigiu-se à cela onde morreu o padre Maximiliano Kolbe, padre polaco que pereceu no campo depois de ter pedido para substituir um pai de família condenado à morte.

Já no campo de Birkenau, a três quilómetros do de Auschwitz, o Papa esteve longos minutos em silêncio, diante do monumento que recorda as vítimas de diferentes países. E, depois do kaddish, nota a Reuters, terminou o seu discurso com uma citação do Salmo 23, “um dos salmos de Israel, que é também uma oração para os cristãos: O Senhor é meu pastor. Mesmo que eu atravesse vales tenebrosos, nada temerei, porque tu estás comigo.”

 

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