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Visita do Papa Francisco à prisão de Rebibbia em 2015 @Photo Service - L'Osservatore Romano
Momento em que o Papa Francisco lavou os pés a 12 detidos na prisão de Rebibbia, em 2015. Foto © Photo Service - L'Osservatore Romano

Testemunho

Quando Francisco lavou os pés de Isabel, a reclusa portuguesa

| 21/04/2026

Foi em 2015 que, pela segunda vez no seu pontificado, o Papa Francisco decidiu celebrar a Quinta-feira Santa da Páscoa lavando os pés a 12 detidos, um gesto que viria a ficar como marca da sua permanência na cadeira de Pedro. Vir-se-ia a saber mais tarde que, entre os 12 reclusos, estava Isabel, uma transgénero de nacionalidade portuguesa.

Um jornalista católico italiano, amigo de Jorge Mario Bergoglio desde os tempos em que ele, então cardeal, liderava a arquidiocese de Buenos Aires, conta a história desta detida e de como foi o Papa a decidir que ela, que figurava numa lista inicial, não viesse a ser excluída. Fá-lo num depoimento que publicou este domingo, 19, no jornal italiano La Repubblica.

O cenário em que aquela Quinta-feira Santa papal teve lugar foi a prisão de Rebibbia, nos arredores de Roma. Quando o desejo de Francisco ali chegou, o capelão e os responsáveis da cadeia selecionaram12 pessoas para a cerimónia do lava-pés, procurando que na lista estivessem detidos das várias alas do complexo.

Na véspera do acontecimento, conta o jornalista, a equipa da televisão católica TV2000, procurando reunir dados sobre os que iriam ver os seus pés lavados pelo Papa, descobriu que havia uma detida que era transgénero, mas não queria dar notícia do facto sem estar segura da informação, ciente de que uma matéria dessas seria altamente polémica.

Estando a lidar com essas inquietações, Lucio Brunelli recebe uma chamada de Bergoglio. Não por causa da Quinta-feira Santa, mas simplesmente para lhe desejar uma santa Páscoa. Com um relacionamento de cerca de dez anos, esse tipo de gestos era habitual.

Na conversa, Brunelli conta-lhe o que sabiam: que entre os 12, havia uma transgénero. “Como é que você descobriu?”, perguntou o Papa. Acabou por lhe confessar que Isabel representava a ala das pessoas ‘trans’, e por isso tinha sido escolhida. Esta ala era mantida num setor separado, “para proteger essas pessoas do assédio de outros presos”.

No texto que acaba de publicar, o jornalista recorda que Isabel havia sido escolhida por dizer que acreditava em Deus. Francisco sabia que os responsáveis da cadeia equacionavam a eventualidade de a retirar e estava, por outro lado, ciente, que o gesto de a incluir desencadearia reações de vários setores, nomeadamente eclesiásticos. No entanto, opôs-se a que o nome dela fosse retirado, já que “excluí-la significaria marginalizá-la por causa de sua própria condição”. “Seria como teorizar que a salvação para uma pessoa trans, explicou ele, estaria a priori excluída.” O Papa foi ainda mais longe, deixando ao jornalista a decisão livre de dar ou não a notícia. Brunelli e a sua equipa acharam melhor esperar.

Isabel chorou de emoção, quando chegou a vez de os seus pés serem lavados pelo Papa. O mesmo aconteceu com a outra mulher que estava entre os 12: uma africana que estava presa com o seu bebé que também participou no ritual.

No dia seguinte, Lucio Brunelli enviou uma jornalista entrevistar Isabel. A portuguesa contou a sua vida, na qual couberam várias transgressões que a levaram à cadeia. Apesar disso, “não havia perdido a sua humanidade, nem a sua fé num Deus bom que pudesse amá-la sem antes questionar os seus antecedentes criminais”, conta o jornalista. “Quando o Papa beijava os meus pés, eu disse: ‘Rezarei por si e para que haja paz no mundo…’. Ele olhou para cima novamente e fitou os meus pés.”

Isabel comentou também, nessa entrevista, que muitas vezes quis ir à Basílica de São Pedro para ver o Papa. “Em vez disso, ele é que veio visitar-me na prisão. Ele é o Papa do povo , dos marginalizados. A minha fé cresceu”, reconheceu.

Quando o canal televisivo emitiu a entrevista, não referiu a condição de ‘trans’ de Isabel. Foi ela que referiu isso nas suas declarações. Brunelli pensou que surgiriam reações e protestos. Mas nada disso aconteceu, o que o levou a comentar: “A sinceridade de Isabel, a sua fé em Deus, a sua emoção ao ver um Vigário de Cristo que ‘olhou nos seus olhos’, suscitaram a mesma reação que levou os acusadores de uma adúltera, há dois mil anos, em Jerusalém, a absterem-se de atirar pedras àquela pecadora”.

O jornalista junta ainda um outro aspeto que vale a pena recordar, quando se completa um ano sobre a morte de Francisco: “Este Papa considerava-se um pecador, ‘e não no sentido figurado’, disse ele, um pecador perdoado por Deus. E isso levou-o a sentir uma ligação especial com os presos. ‘Porquê eles e não eu?’, perguntava ele volta e meia — e fez isso também em Buenos Aires — quando entrava numa prisão. A salvação, às vezes, depende apenas dos encontros fortuitos que temos”.

 

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