
“Fiquei indecisa por um bocado, mas a certa altura curiosei tanto de como seria a festa dos nativos que não aguentei não ir até lá. Assim também aproveitava para afastar a superstição de não brindar na cambalhota do calendário.” Foto © Simona Pilolla /Shutterstock/Portal EdiCase.
Foi numa dessas vezes em que brinquei de me afastar de casa o mais que pudesse. Estava longe, tão longe de casa e tão perto de mim.
Lá, nesse longe que era perto, também chegou a noite de passagem de ano. Fazia calor e eu voltava de mota pelo caminho de terra batida que levava à casa da Dona M., na qual alugara quarto para me instalar por uns dias. Naquele povoado, que mais parecia um anexo da aldeia, as casas rareavam. A Dona M. alugava os quartos e, da cozinha, improvisara um restaurante de comida boa. Comida de mãe, diz-se assim.
Entre a casa da Dona M. e a praia, havia quinze minutos de mato que eu adorava percorrer a pé. Até à aldeia, o caminho era meia hora de mota em terra batida. Estrada de chão, diz-se assim.
Jantámos. Eu e a Dona M., só. Não havia mais hóspedes nem clientes.
O povo gosta de ir para a confusão nestes dias de festa, ela disse para justificar a nossa solitária ausência de mundo.
Daqui a pouco também vou até à aldeia ver a confusão, eu disse, e perguntei, Você quer vir.
Não, faz tempo que me despedi da histeria, faço mais conforto se me aquietar por aqui dentro de mim mesma, respondeu.
Fiquei indecisa por um bocado, mas a certa altura curiosei tanto de como seria a festa dos nativos que não aguentei não ir até lá. Assim também aproveitava para afastar a superstição de não brindar na cambalhota do calendário.
Havia gente alegre, muita dança, comida e bebida. Os fogos de artifício faziam lembrar os da minha infância, pouco seguros, dava medo, mas o povo não tinha. Via-se. Só eu tinha medo. Eles estavam demasiado alegres para se lembrarem de ter medo.
O serrabulho amainou pouco depois dos festejos da meia-noite e eu fui voltando. Escusei o capacete e preferi a ousadia do vento a bater-me na imaginação.
Enquanto se me esvoaçavam as ideias, imaginava a minha cidade àquela hora, em alvoroço como sempre, as janelas no limite da resistência, de tão violentos os sons de bandas, Dj’s e ensaios, fogos de artifício, drones e helicópteros. Pensava nos abraços da família, os sorrisos rasgados a legendar Bom Ano sincero, os pratos e os copos esvaziados.
Depois, semicerrava os olhos a sentir a solidão trópica e estava feliz com o sentido das coisas. Estava feliz por ter um lado de lá, perto de casa e longe de mim – uma família de riso alargado e uma cidade de festa exagerada. E estava também feliz por estar longe disso.
O longe é bem intencionado quando estamos completos na outra ponta da distância, tanto quanto a solidão é bem intencionada quando estamos completos na outra ponta do vazio.
A noite desmentia o seu protagonismo no calendário acontecendo exatamente igual às outras, parecia esconder o mundo todo por debaixo do seu manto de medos e mistérios. E eu tive a certeza de que a noite acontece para esconder a existência. Nem lua, nem estrelas. Uma noite sem céu.
Só havia vida ao alcance da iluminação do farol da minha DT e, como velozes miragens em volta, cajueiros, amendoeiras-de-praia, oleandros e goiabeiras escondiam, para lá das margens da estrada de chão, o mistério que eu nunca desvendaria.

“Passei pelo pau-brasil e o Luiz Profeta também já lá não estava. Só o espírito do Rajá deveria estar debaixo das raízes com o seu nome.” Foto © Manfred Antranias Zimmer / Pixabay
De repente, no meio das raízes de um pau-brasil, na berma, vi pender a cabeça de um homem. Logo não tive a certeza, mas devia ser um homem. Naquele instante senti todo o escuro da noite pesar sobre mim.
Não podia parar. Talvez fosse perigoso parar. Também não podia seguir como fazedora de conta que o não via.
Eu pensava – mas parecia que não eram pensamentos, eram só sustos – nas hipóteses possíveis. Parar para oferecer ajuda e correr o risco de ser violentada caso se tratasse de uma armadilha; ou seguir no fingimento de olhar em frente e correr o risco da violência que é a intromissão da culpa nas memórias futuras. Lembrei-me do Rui Vizinho a dizer que o contrário do amor não é o ódio, o contrário do amor é o medo.
Escolhi preferir morrer de amor do que viver amedrontada pelo peso da consciência de não ter feito o que a lei do amor dita.
Inverti a marcha e o plano estava traçado, deixar a mota ligada e pronta a arrancar no caso de sentir à espreita qualquer ameaça.
Aproximei-me sem ter a certeza de que o amor ganharia ao medo.
Boa noite, eu disse. Boa noite, ele respondeu levantando a cabeça coberta de grisalhice. Os olhos choravam-lhe e eu perguntei se ele precisava de ajuda. Apresentei-me, Olá, eu sou a T.. Você é do signo de aquário, disse ele sem me desviar o olhar molhado. Pois sou, e como é que você sabe, perguntei pouco certa de que o episódio era real, eu podia perfeitamente estar a sonhar.
Eu sou o Luiz Profeta, prazer, disse ele estendendo-me a mão. Demo-nos as mãos e através delas eu tive, por fim, a certeza de que nesta história o amor ganharia ao medo. Por isso desliguei a mota e sentei-me ao seu lado. O Profeta tinha acabado de enterrar o seu cão – ali mesmo, junto às raízes do pau-brasil, onde tantas vezes se sentaram juntos – e chorava a perda. Disse-me que ia passar ali a noite em vigia do túmulo para que nenhum animal do mato decidisse esburacar a terra e devorar o corpo do Rajá seu cão.
Quando lhe perguntei se ele não tinha medo de ficar ali a noite inteira sozinho, ele disse que não estava sozinho, estava na companhia do espírito jovem de Rajá, e de suas profecias. Chorava porque chorar espanta os medos, dizia-me. Depois, foi a vez de ele me perguntar o que fazia uma gringa sozinha por aqueles caminhos, a altas horas, se eu era besta de não me assustar com as violências da noite do mato. Eu disse que me afastava dos confortos para espantar a arrogância, mais ou menos como ele, que chorava para espantar o medo.
O único jeito de amar é lutar contra a arrogância, esse trabalho que parece nunca terminado e reavivado a cada esquina de todos os dias. E o único jeito de lutar contra a arrogância é experimentando a lonjura. A lonjura do conforto e das certezas. A busca da vulnerabilidade é o único jeito de dissolver o cancro da alma, a arrogância. Eu disse isto mais ou menos sem saber o que dizia, acho que ouvi em qualquer lado e quis reproduzir sei lá por quê, pareceu-me a ocasião certa.
Bom ano, Luiz Profeta, despedi-me, desta vez fui eu quem estendeu a mão.
Bom ano T., ele devolveu o aperto. Os olhos ainda lhe choravam a afastar o medo.
Solavanquei o pedal da mota e parti, de novo a escusar o capacete para poder ouvir melhor o vento.
Quando cheguei a casa da Dona M., ela estava dedicada aos vasos, o regador a jorrar cuidados às plantas. Faltava-lhe o sono, pensei.
Boa noite, Bom Ano, Dona M., eu disse enquanto entrava.
Estou em cuidados, menina, meu irmão saiu triste e não voltou, disse ela sem esconder a preocupação, como se visse em mim uma amiga daquelas de confiar.
É o Luiz Profeta, perguntei. É ele mesmo, você viu, respondeu-me.
Disse-lhe que o tinha visto a cuidar do espírito do Rajá, chorando nas raízes do pau-brasil, e ela não hesitou em pegar caminho sem mais palavra.
Ao outro dia, que eu já nem fazia caso de ser o primeiro de um ano que começava de novo, peguei na mochila e parti. Como não a vi, à senhora M., deixei um bilhete de agradecimento e promessa de regresso. Faço sempre isso, promessas de regresso de onde parto. Um entusiasmo que me devolve à infância a cada despedida, mas se desvanece, sem explicação nas teorias do esquecimento, à chegada a qualquer outro lado.
Passei pelo pau-brasil e o Luiz Profeta também já lá não estava. Só o espírito do Rajá deveria estar debaixo das raízes com o seu nome.
Desta vez meti o capacete porque o caminho para o novo destino exigia mais precauções. Durante a viagem não pude ouvir o vento, nem pensei na ressaca geral por que havia de estar a passar a minha cidade àquela hora.
O Rui Vizinho tem razão. Tudo o que fiz foi pensar nesta frase, em loop, enquanto adentrava de mota, longe de casa e perto de mim, o ano acabado de nascer.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024
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