Quando o Papa pediu desculpa

| 4 Fev 20

1. A notícia reza assim. O Papa Francisco, de 83 anos, teve um encontro tenso com uma peregrina no último dia do ano de 2019, durante uma caminhada na Praça de São Pedro. A mulher, que não foi identificada, inesperadamente agarrou a sua mão e a puxou na sua direção, causando evidente alarme. Vê-se um Francisco claramente descontente, que se liberta dando umas palmadas no braço da mulher.

No primeiro dia do ano, vimos e ouvimos o que nos interessa para a nossa reflexão: “Muitas vezes perdemos a paciência, até eu, e peço desculpas pelo mau exemplo de ontem”, disse o Papa a milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro na quarta-feira, no final da tradicional missa de Ano Novo.

2. Tem importância, muita por sinal, este gesto do Papa, se considerarmos que não é comum os líderes, ainda mais um grande líder mundial como é o Papa, vir a terreiro e dar conta das suas fragilidades e pedir desculpa por elas terem existido. Ter acessos de impaciência e de irritação, é normal, é humano. Anormal, isso sim, é que durante muitos anos se tenha pastoreado a ideia de não existir erros nos Papas e que estavam acima das contingências comuns a todos os seres humanos. É esquisito que se tenha pensado assim. Vamos, pois, pensar um pouco em duas lições que este episódio me suscita.

Um, é o exemplo extraordinário que o Papa nos dá e, particularmente, a quem tem responsabilidades públicas, para que não tenha vergonha e não se iniba de proclamar as suas falhas e pedir perdão publicamente a quem tenha sido prejudicado com as suas ações.

Outra, é que nos revela definitivamente o fim da “papolatria”. Muito se tem esforçado o Papa Francisco para que esta mentalidade de algum catolicismo acabasse. Parece não haver forma de pegar, por isso, o empolamento daquele momento de irritação junto com as tapas no braço da mulher na Praça de São Pedro, fizeram mais do que todos os discursos sobre a necessidade de considerar o Papa humano de carne e osso como os demais.

3. É tão raro vermos os líderes das nações reconhecerem os seus erros; muito mais raro é vermos assumirem em público que falharam e que sentiram a necessidade de pedir perdão aos seus povos ou às pessoas que direta ou indiretamente prejudicaram.

O Papa Francisco fez isso. Só pode vir na sequência daquilo que tem sido a sua ação de proximidade com todas as pessoas, a sua humildade, simplicidade e verdadeira assunção daquilo que ele considera ser, o Papa homem como qualquer homem, com uma missão especial, é certo, sujeito de virtudes, mas também de defeitos.

Neste sentido, gostaríamos que o seu gesto se tornasse exemplar, inspirasse os líderes das nações a serem assim, sujeitos de ações acertadas e outras infelizes – prejudiciais para todos ou para alguém. Bom seria que fossem capazes de ver e recenhecerem que erraram, perderam a paciência e foram causa de sofrimento para alguém. Este gesto do Papa Francisco é um grande sinal. Foi uma ação que ficará registada nos anais da história dos nossos tempos, para ser lembrada aos líderes que pretendam sair incólumes dos seus erros, se façam esquecidos, cheios de si e todo poderosos como se fizessem sempre o bem e nunca nada de mal.

4. Outro dado que a meu ver este sinal revela e serve de lição para quem andou dentro da Igreja Católica a venerar, quase a adorar, o Papa como “único representante de Cristo na terra”, quase um deus ou um braço estendido de nosso Senhor Jesus Cristo. O Papa tem uma missão especial, uma responsabilidade sobrehumana, mas não é nenhum deus. É um homem como qualquer outro, investido de altas responsabilidades e com uma missão universal. É um líder religioso e político ao mesmo tempo. Mas nunca deixa de ser um cristão igual a qualquer batizado, que nessa condição representa Cristo e que é “outro Cristo” (Santo Agostinho) ou ainda, se quisermos que é “membro do corpo de Cristo” (São Paulo).

Por conseguinte, o gesto do Papa deitou por terra todas as ideias que ainda pairam na cabeça de muitos católicos, que andam a viver com o endeusamento do Papa, como se fosse uma entidade supra humana, livre do pecado da impaciência, da irritação e da reação mais ou menos fora do âmbito da misericórdia. Não é de Jesus o relato evangélico, que se armou com um chicote e expulsou os vendilhões do Tempo de Jerusalém?

São estas as duas lições que me apraz ler com o gesto do pedido de desculpas do Papa Francisco. Tomara que saibam ler e aprendam todos os nossos líderes, religiosos e políticos, a mesma lição que o Papa Francisco transmitiu ao mundo inteiro.

 

José Luís Rodrigues é padre católico da diocese do Funchal e autor do blogue O Banquete da Palavra.

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