João Paulo II esteve na Ucrânia em 2001

Quando o Papa Wojtyla cantou, entre discursos crispados contra o invasor

| 24 Mar 2022

João Paulo II na visita à Ucrânia, em junho de 2001. Foto: Direitos reservados.

João Paulo II na visita à Ucrânia, em junho de 2001. Foto: Direitos reservados.

Estou a escrever no vigésimo sétimo dia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia dias depois de, pela primeira vez, terem sido utilizados pelo exército russo os mísseis hipersónicos Kinzhal, invisíveis, que destruíram depósitos subterrâneos de armas, em Kiev. A guerra progride, entretanto, avassaladora, exposta às imagens de televisão e aos consequentes conflitos de desinformação.

Conheci a nobre cidade de Kiev em Novembro de 1981, quando, em Portugal, algumas forças políticas se incomodavam com a proliferação das armas nucleares que, como se sabe, impuseram em 1945 o fim da Segunda Guerra Mundial, vitimando milhares de pessoas, em Hiroshima e Nagasaki. Entre nós, ausentes que fomos da mais mortífera das guerras de sempre, levantavam-se os medos da energia nuclear militar. São, aliás, esses medos que agora confinam as forças beligerantes da Rússia e da Ucrânia.

Ao tempo, em 1981, reinava ainda na Ucrânia o Império Russo, integrando a URSS (União Soviética). Para mim, visitante estrangeiro, eram servidos, em boa estratégia, pratos cor-de-rosa, longe da crueldade da censura e da violência do regime, que atravessava todas as áreas. Estava na liderança da União Soviética, nos aparentes anos dourados de Leonid Brejnev.

 

O palhaço caricaturista
A caricatura de Manuel Vilas Boas feita por um palhaço.

A caricatura de Manuel Vilas Boas feita por um palhaço.

Foi curiosamente na área da cultura e do entretenimento que selei a minha admiração com o esplendor de Kiev, a cidade culta e solidária de torres douradas de ortodoxia, onde homens possantes são elevadores da sociedade e as mulheres, intrépidas, de vibrantes olhos azuis, rasgam novos horizontes.

Anexo, aqui, a caricatura que me foi feita no circo de Kiev por um palhaço que, eventualmente, me achou graça e em que, certamente, a organização colaborou. No final do espectáculo estava a ser surpreendido pelo próprio palhaço, que me fazia a entrega da mais fiel das caricaturas de sempre.

O conhecimento e a aproximação a este território eslavo, onde eu voltaria, em 1988, nas celebrações do Milénio do Baptismo da Igreja Russa, propiciaram que fosse enviado, de novo, em reportagem, quando já sopravam, pelos Urais, os ventos da Perestroika de Mikhail Gorbatchov. Ventos “traidores” que levariam, em 1991, à estrondosa queda do Império Soviético.

Dez anos mais tarde, em Junho de 2001, uma figura surgia nos céus da Ucrânia. Karol Wojtyla, o Papa polaco, visto pelo Kremlin como tendo contribuído, de modo decisivo, para o derrube do comunismo soviético, também dominante nas repúblicas anexadas a Moscovo.

No início do Verão de 2001, depois de ter visitado a Grécia, a Síria e Malta (reconstituindo as viagens do apóstolo Paulo), João Paulo II decidiu-se pela visita pastoral à Ucrânia. Nessa altura, o país tinha 82% de cristãos, sendo a maioria de confissão ortodoxa. Tendo desistido de chegar a Moscovo, Wojtyla investia, a todo o custo, na imensa Ucrânia que, em finais do séc. X, se abrira às águas lustrais do baptismo cristão.

A viagem ao oriente eslavo terá sido uma das mais arriscadas do pontificado de Wojtyla pelo mundo. Curiosamente, a oposição ao catolicismo não se fazia tanto por parte dos poderes políticos, mas, sobretudo, por parte da Igreja Ortodoxa Russa, visivelmente enfurecida pelo que designava de proselitismo da Igreja Católica Romana. Não foi fácil ao Papa polaco conquistar as ruas da capital. Mas depressa chegariam as missas multitudinárias, em Kiev e Lviv.

 

Os anos terríveis da ditadura soviética
A primeira página do New York Evening Post de 3 de março de 1935 sobre a fome que atingiu milhões na Ucrânia. Imagem © Public domain, via Wikimedia Commons.

A primeira página do New York Evening Post de 3 de março de 1935 sobre o Holomodor, a fome que atingiu milhões na Ucrânia. Imagem © Public domain, via Wikimedia Commons.

 

De armas e bagagens, segui esta viagem de cinco dias pelas cidades de Kiev e Lviv.

No discurso, feito no palácio presidencial Mariyinskyi, no encontro com os representantes do mundo da política, da cultura, da ciência e da indústria, em 23 de Junho de 2001, o Papa polaco não conteve as palavras: Saúdo a terra que conheceu o sofrimento e a opressão, conservando um apego à liberdade que nunca ninguém conseguiu destruir.

João Paulo II, ele próprio, no seu país, foi vítima do Holomodor, a grande fome, que ali denunciou: Os anciãos do vosso povo recordam com saudades o tempo em que a Ucrânia era independente: a essa época, bastante breve, seguiram-se os anos terríveis da ditadura soviética e a duríssima penúria dos inícios dos anos 30, quando o vosso país, “celeiro da Europa”, não conseguia mais dar de comer aos seus próprios filhos que, então morreriam aos milhões.

O chefe da Igreja Católica não perde a memória da Segunda Guerra Mundial: E como se pode esquecer o numeroso elenco dos vossos compatriotas mortos durante a guerra de 1941-1945, contra a invasão nazi? Infelizmente, a libertação do nazismo não assinalou também a libertação do regime comunista, que continuou a espezinhar os direitos humanos mais elementares, deportando cidadãos pacíficos, aprisionando dissidentes, perseguindo os crentes e, até mesmo, tentando apagar da consciência do povo a própria ideia de liberdade e de independência. Felizmente a grande viragem de 1989 permitiu à Ucrânia a reconquista da liberdade e a plena soberania.

Wojtyla sabia também dos perigos que a incipiente independência corria: Encorajo-os a perseverar no esforço necessário para superar as dificuldades que ainda existem, assegurando o pleno respeito das minorias nacionais e religiosas. Uma política e tolerância sábia não deixarão de fazer com que o povo ucraniano seja considerado com simpatia, assegurando-lhe um lugar especial na família dos povos europeus.

 

Tchernobil, o ensaio da morte global
Oleksandr Kaglyan, investigador do Departamento de Radioecologia Aquática do Instituto de Hidrobiologia da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, analisa as águas junto à central nuclear de Tchernobil. Foto © Tomchenko Olha, CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, via Wikimedia Commons

Oleksandr Kaglyan, investigador do Departamento de Radioecologia Aquática do Instituto de Hidrobiologia da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, analisa as águas junto à central nuclear de Tchernobil, em 2013. Foto © Tomchenko Olha, CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, via Wikimedia Commons.

 

O Papa polaco sabia como ninguém das tormentas que passou para afirmar a sua própria fé, obrigando-se a secretismos, para o exercício do ministério de padre: A negação de Deus não tornou o homem mais livre. Pelo contrário, expô-lo a várias formas de escravidão, degradando a vocação do poder político a nível de uma força violenta e opressiva.

Tchernobil, tragicamente assinalada, em 1986, com o acidente nuclear mais desastroso da história, não saiu ainda da memória colectiva. Os seus componentes estão, por estes dias, nas mãos dos militares russos, ali permanecendo o silêncio. Quinze anos depois da hecatombe, o Papa admoestava os homens comprometidos com a investigação para que a catástrofe social, económica e sociológica de Tchernobil, ou seja, a ciência e a técnica estejam vinculadas aos valores éticos imutáveis, a fim de que seja garantido o respeito devido ao homem e à sua dignidade inalienável.

O peregrino romano não poderia deixar de visitar Lviv, o bastião do catolicismo em território próximo da sua Polónia natal (Lvov e Kiev são designações em língua russa). Fundada no séc. XIII, Lvov foi já ocupada pela Polónia, Alemanha, pelos Impérios Austro-Húngaro e Soviético. Fica no centro Oeste do país (Karol Wojtyla esteve aqui na sua juventude a prestar serviço militar, quando este território era polaco.) Esta cidade fronteiriça, capital da cultura, tem actualmente 800.000 mil habitantes e veste-se de diferentes expressões da arquitectura clássica. Dispõe de hotéis de charme, com locais de rara gastronomia. A Ópera de Lviv é deslumbrante e recebe atuações de renome. O centro histórico é Património Mundial da Unesco. Retenho que esta multisecular cidade foi berço de dois eminentes juristas do direito internacional, Hersch Lauterpacht, austro-húngaro, pai da formulação “crimes contra a humanidade” e de Raphael Lenkim, bielorrusso, criador do neologismo “genocídio”. Pelas ruas desta cidade passaram milhares de vítimas a caminho da morte. Como escreveu, no DN, João Ribeiro-Bidaoui, “defender Lviv é defender a alma da humanidade”.

Não resisto a contar que, para fazer a viagem, por mais de 500 quilómetros, entre Kiev e Lviv, atravessando densas florestas, reservei um lugar num táxi, na companhia de três possantes jornalistas alemães. Eu, o menos volumoso de todos, encaixei-me, com dificuldade, num dos cantos do carro, afogado pela germânica língua, incompreensível aos meus ouvidos, pela noite fora, durante violentas oito horas.

 

“Montanhas de cadáveres e rios de sangue”

Recordo, entretanto, a Divina Liturgia, em rito bizantino, para a beatificação de 20 mártires no hipódromo de Lviv. Entre os novos beatos estavam bispos, sacerdotes, monges, monjas e leigos dos séculos XIX e XX. Muitos deles eram conhecidos dos participantes na liturgia, presidida pelo papa João Paulo II. Na homilia, ele citou o metropolita José Slipyj, dizendo que esta terra, ao longo da história, viu o desenvolvimento da Igreja ucraniana greco-católica tantas vezes coberta por montanhas de cadáveres e rios de sangue.

Wojtyla estendia o dedo a quem responsabilizava por tantas mortes violentas: Os seguidores das ideologias nefastas do nazismo e do comunismo, neste século do martírio. Eu próprio, continuava o Papa, fui testemunha na minha juventude desta espécie de apocalipse. E finalizou perante uma vasta assembleia, embargada pela emoção: Ao longo dos últimos séculos acumularam-se demasiados estereótipos de pensamento, muitos ressentimentos recíprocos e demasiada intolerância. O único meio para desimpedir este caminho é esquecer o passado, pedir e oferecer o perdão uns aos outros, pelas ofensas feitas e recebidas.

Por estas palavras e outros gestos, os bispos ucranianos e polacos assinaram um documento conjunto, a pedirem à Santa Sé que declarasse João Paulo II “patrono da reconciliação”.

 

Um papa superstar

Na tarde anterior, no penúltimo dia da visita, o Papa, de 81 anos, mostrava-se fortemente condicionado pela doença de Parkinson. Apesar da saúde débil, não rejeitou um encontro com os jovens, na esplanada de Sylchiv.

Saíam da sua boca palavras incisivas: Caros jovens, o vosso povo está a viver uma passagem difícil e complexa do regime totalitário que o oprimiu por muitos anos, para uma sociedade finalmente livre e democrática. Bem sabeis que a liberdade é exigente, em certo sentido custa mais que a escravidão, mas não passeis da escravidão do regime comunista à dependência do consumismo. A Ucrânia tem necessidade de vós aqui, prontos a oferecer a vossa contribuição para melhorar as condições sociais culturais, económicas e políticas do país. Bem sabeis também que a verdadeira civilização não se mede somente pelo progresso económico, mas, principalmente, pelo desenvolvimento humano, moral e espiritual de um povo.

Já o sol se punha no horizonte quando o Papa cedia às solicitações dos muitos milhares de jovens para que cantasse uma das melodias tradicionais da Polónia. Depressa o microfone da TSF registava, para sempre, a voz de um papa superstar:

 

(Registo sonoro da voz do papa João Paulo II a cantar em Lviv)

Despedindo-se da Ucrânia, no aeroporto de Lviv, o chefe da Igreja Católica deixava, ao povo e ao vasto território ucraniano, a gratidão por ter defendido a Europa, pela incansável e heroica luta contra os invasores: Há muito que eu desejava manifestar-vos a minha admiração e a minha estima pelo testemunho heroico que destes durante o longo inverno da perseguição, no século passado.

Palavras finais de esperança do Papa polaco: Embora ainda sejam dolorosas as cicatrizes das horríveis feridas, sofridas ao longo de intermináveis anos de opressão, de ditadura e de totalitarismo em que os direitos do povo foram negados e calcados. Ucrânia, olha com confiança para o teu futuro. Esta é a hora propícia. Este é o tempo da esperança e da audácia.

 

Um regresso insólito

Dos quatro jornalistas que, em Kiev, tomaram o táxi para Lviv, apenas o autor destas linhas regressaria à capital ucraniana, no andar da tarde de 27 de Junho de 2001. Esperava-me, em Kiev, José Milhazes, ao tempo repórter, a Leste, para a TSF. Um excelente guia. Um sábio ambulante.

Pelos jornais internacionais, ia lendo sínteses desta visita papal. Considerada “histórica”, “profética”, enfrentando “risco de atentado”, com manifestações públicas dos ortodoxos russos e missas com muitos milhares de crentes.

No regresso, já em plena noite, dou por mim com activa linguagem gestual, já que o condutor apenas se exprimia em russo e ucraniano, de inglês e português nem uma palavra. Para trás, ficava uma agricultura trabalhada com maquinaria visivelmente obsoleta. Atravessámos a mesma densa floresta, por mais de 200 quilómetros, quando se acendeu o sinal vermelho da falta de combustível. Crescia o risco de termos de pernoitar entre a absoluta escuridão da floresta. Alimentávamos ainda a esperança de encontrar uma estação de serviço, quando ao longe, divisámos uma breve luz, sinalizando tudo menos combustível para a viatura… Fomos quase até ao desespero dos soluços do carro. Kiev brilhava, por fim, num amanhecer tranquilo, de jardins de encanto, de girassóis enormes, os edifícios robustos e modernos e as torres das igrejas ortodoxas, impantes de beleza.

 

P.S.: No dia 22 de Março, o Papa Francisco telefonou ao Presidente da República da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. O Presidente pediu a Francisco que intermediasse o conflito Rússia/Ucrânia e que visitasse o seu país. Isto acontecia 21 anos depois da visita do Papa Karol Wojtyla à Ucrânia.

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