AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

[na nudez dos socalcos/ os olhos seguem folhas ―/ rapto de Proserpina? © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Quando o portão é raiz de abismos

| 29/09/2025

 

[domingo xxvi do tempo comum ― c ― 2025
Dia Mundial do Migrante e do Refugiado]

 

1. Depois das rajadas e dos aguaceiros das últimas horas,
com que Gabrielle tangeu as árvores carregadas de folhagens
e esculpiu a superfície das águas,
sentimos que a calmaria regressou para uma semana de sol.
Durante a manhã, o mapa de Portugal apresentava-se pintado de amarelo,
para sinalizar certos perigos devidos à ondulação e às rajadas dos ventos.
Todavia, tal como hoje teremos experimentado,
o clima também proporciona experiências de maravilhamento.
Quem como nós ― durante a programação deste novo ano ―,
visitou a exposição de Paula Rego,
que se encontra na Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão,
há de reconhecer que entramos numa estação de metamorfoses e sonhos.

2. O outono é um pintor sem inscrição em movimentos artísticos,
que surpreende com os seus traços e as suas cores:
umas vezes com pinceladas rápidas, carregadas de intensidade,
outras, com misturas improváveis entre passados e futuros,
ao ponto de criar sensações de estranheza e espanto.
Quem é que, por estes dias, não se deixa encantar
com o trânsito das cores nas vinhas e plantas, nos campos e arvoredos?
Quem é que ainda não seguiu, com o olhar e os ouvidos,
o rasto de folhas de outono tocadas por rabanadas de vento?
No domingo passado, muitos de nós terão contemplado
uma criança a brincar com os redemoinhos de folhas das tílias
à porta do Santuário de Nossa Senhora da Abadia.
É com semelhante graça e encantamento ― assim espero ―
que agora vamos entrar nas páginas da santa Escritura.

3. Na Abadia, a porta do santuário encontrava-se aberta.
Também hoje o portal das santas páginas se abre
para que nelas nos adentremos através da leitura orante.
Descerraram-se os selos e, no cultivado silêncio,
o Cordeiro, que é a Verdade, fala-nos abertamente:
«Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino
e se banqueteava esplendidamente todos os dias» (Lc 16,19).
Ouvindo bem quanto disse Jesus,
quase parece que Ele tece a parábola para os fariseus e os farisaicos
a partir das palavras que ecoam da boca do profeta Amós,
registadas no Livro dos Ais:
«Ai daqueles que vivem comodamente em Sião…» (Am 6,1).
Não lhes faltam leitos de marfim, divãs,
cordeiros dos pastos e vitelos de estábulo,
vinho em abundância e perfumes impressivos,
melodias e cantares boémios (cf. Am 6,1,4-6).

[Ai daqueles que vivem comodamente. © Joaquim Félix]

4. No tempo de Amós, que remonta ao reinado de Jeroboão II,
Israel vivia em grande prosperidade económica.
Nesse período, enquanto as classes ricas e poderosas
se deleitavam em festas quotidianas,
os pobres, que eram muitos, viviam na miséria,
sem acesso a uma alimentação condigna e à proteção jurídica.
O poder judicial estava tomado pelas influências dos ricos,
que, para proteção dos seus interesses, subornavam os magistrados.

Escultura em ferro e cerâmica de Mário Rocha

[Os pobres viviam na miséria. Escultura em ferro e cerâmica de Mário Rocha © Joaquim Félix]

5. Na sua parábola, Jesus regista muitos detalhes;
nenhum deles, porém, é supérfluo.
Por ela, a parábola, ficamos a conhecer vários adereços do homem rico,
de como se vestia e se banqueteava;
todavia, desconhecemos o seu nome.
Talvez ele não merecesse ficar conhecido
pela dignidade e honradez que um nome condensa.
Por sua vez, Jesus diz-nos o nome do pobre:
Lázaro, que significa «Deus ajuda».
Lázaro jazia junto do portão da casa do homem rico.
Os cães dos ricos comem das mãos sacudidas debaixo das mesas;
Lázaro, porém, sente que até as migalhas lhe são negadas.
Notemos: são-lhe mais carinhosos os cães ― de guarda ou vadios ―,
que, sem medo, se aproximam para lhe lamber as chagas.

6. Lázaro e o homem rico morreram.
E, conforme à plasticidade do imaginário judaico,
Lázaro foi colocado pelos anjos ao lado de Abraão;
o homem rico, depois de sepultado, é descido ao Hades.
Não deixa de ser significativo verificar que, entre eles,
existe um «grande abismo» (Lc 16,26),
embora se conserve a visibilidade de um lado para o outro.
Mergulhado nos tormentos das chamas,
o rico levanta a voz e insiste uma e outra vez.
Todavia, o abismo é intransponível.

Sky Mirror de Anish Kapoor

[Conserva-se a visibilidade de um lado para o outro. Sky Mirror de Anish Kapoor, Piazza Mignanelli, Roma © Joaquim Félix]

7. Enquanto Lázaro permanece em silêncio,
o rico dirige-se, em tom filial, a Abraão,
solicitando que Lázaro lhe molhe a língua com a ponta do dedo
e seja enviado aos seus cinco irmãos, para preveni-los.
Qual é a resposta de Abraão, que jamais o renega como filho?
«Eles têm Moisés e os profetas: que os oiçam» (Lc 16,29).
E mais: «Se não dão ouvidos a Moisés nem aos profetas,
também não se deixarão convencer,
se alguém ressuscitar dos mortos» (Lc 16,31).
Serve isto para dizer que, se não dermos ouvidos à Palavra de Deus
― contida na Sagrada Escritura ―,
continuaremos a levantar portões, muros e fossos,
que privam dos bens deste mundo multidões de pobres.
Lembremo-nos bem disto, como memento do cânone da vida:
o abismo intransponível no mundo futuro
começa junto à nossa porta, em cada gota ou migalha negadas.

Paula Rego. Fundação Cupertino de Miranda.

[Estudo para “Tempo – Passado e Presente”. 1990. Paula Rego. Exposição temporária na Fundação Cupertino de Miranda © Joaquim Félix]

8. Jesus ressuscitado dirigiu-nos esta Palavra
para que, como homens e mulheres de Deus,
possamos praticar «a justiça e a piedade,
a fé e a caridade, a perseverança e a mansidão» (cf. 1 Tim 6,11).
Celebrando hoje o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado,
recordemo-nos de tantos milhões de pessoas,
que, entre nós e em tantos outros países ricos,
procuram fugir da guerra e da pobreza.
Qual tem sido a nossa atitude perante as deportações forçadas em Gaza?
Em relação a este conflito,
o Papa Leão XIV tem apelado ao fim da vingança e do exílio forçado.
E a própria Amnistia Internacional tem denunciado
que a ordem de deslocação em Gaza «é ilegal e desumana»
e que, por isso, «deve ser imediatamente revogada».
Que apoio damos aos milhões de ucranianos deslocados
e aos residentes que, constantemente, são bombardeados pelos russos?
Que poderemos fazer pelos 13 milhões de crianças do Sudão
que, por causa da guerra, não podem frequentar a escola?

Escultura (detalhe) junto da Basílica de São Paulo Extramuros, Roma

[Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Escultura (detalhe) junto da Basílica de São Paulo Extramuros, Roma © Joaquim Félix]

9. Entre nós, tem-se debatido e aperfeiçoado a Lei dos Estrangeiros.
Seria ótimo que, com sentido de responsabilidade,
nos sentíssemos empenhados em melhorá-la.
Sabendo que somos um povo com milhões de imigrantes no estrangeiro,
haveremos de cuidar bem de todos os migrantes que nos procuram.
Com regulação, seguramente, e as garantias dos direitos básicos.
Em sintonia com a Caritas e os bispos da União Europeia,
proporcionemos, em relação aos migrantes não regularizados,
o seu «regresso voluntário», com total «respeito pela dignidade humana».

10. Os migrantes e os refugiados que acolhemos
são gente com nome próprio, a quem Deus ajuda.
Muitos deles fazem trabalhos que nós
nem com um dedo estaríamos dispostos a tocar.
Há que discernir todas as suas situações,
porque muitos deles são anjos (cf. Gen 18,1-15 e Hbr 13,2),
que nos permitem acolher o próprio Deus.

Escultura junto do Ospedale di Santo Spirito in Sassia, Roma

[Muitos deles são anjos que nos permitem acolher o próprio Deus. Escultura junto do Ospedale di Santo Spirito in Sassia, Roma © Joaquim Félix]

Há precisamente uma semana,
fomos ao Theatro Circo para fruir do concerto proporcionado
pela Jovem Orquestra Afegã (JOA),
formada por jovens que se encontram refugiados em Braga.
Foi um concerto memorável, jamais o esqueceremos.
Distinguida com o Polar Music Prize 2018,
conforme se pode ler na Folha de Sala,
«a orquestra afirma-se como símbolo de resistência cultural,
promovendo a diversidade e a igualdade de género,
causas que a tornaram alvo de perseguição no seu país de origem».
O lema da sua resistência face à opressão
foi colhido numa sentença atribuída a Pablo Neruda:
«Podem cortar todas as flores,
mas não impedirão a chegada da primavera».

https://sicnoticias.pt/especiais/afeganistao/2025-09-18-video-orquestra-de-jovens-afegaos-da-concerto-no-theatro-circo-de-braga-para-dar-a-conhecer-sonoridade-do-pais-f44ceebd

11. Ontem, celebrámos a memória de um profeta social,
Vicente de Paulo, que soube cuidar dos pobres.
Depois de ouvirmos o profeta Amós e Jesus,
não gostaria de concluir esta homilia
sem proporcionar uma passagem dos Ditirambos Dionisíacos
da autoria de um outro profeta da suspeita,
que parafraseia a parábola evangélica só narrada por S. Lucas:
«― Silêncio! A minha Verdade vai falar! ―
Ai de ti, Zaratustra!

Pareces-te a alguém
que engoliu ouro:
ainda hão-de abrir a tua barriga!…

Tu és rico de mais,
ó corruptor de muitos!
Fizeste invejosos de mais,
fizeste pobres de mais….
A mim mesma a tua luz me faz sombra ―,
tremo de frio: sai, ó rico,
sai, Zaratustra, sai do teu sol!…

Querias dar, esbanjar do teu supérfluo,
mas tu é que és de tudo o mais supérfluo!
Sê prudente, ó rico!
Dá-te primeiro a ti, ó Zaratustra!

Dez anos passaram ―
e nem uma só gota te alcançou?
nenhum vento húmido? nem orvalho de amor?
Mas quem é que havia de te amar,
ó super-rico?
A tua ventura espalha secura em volta,
faz pobre de amor
― uma terra sem chuva…

[E nem uma só gota te alcançou? © Joaquim Félix]

Ninguém já te agradece.
Mas tu agradeces a qualquer
que aceite da tua mão:
nisso te reconheço,
ó super-rico,
ó mais pobre de todos os ricos!

Tu dás-te em sacrifício, tua riqueza tortura-te ―,
tu dás-te,
não te poupas, não te amas:
a grande tortura obriga-te sempre,
a tortura dos celeiros repletos, do coração repleto ―
mas ninguém já te agradece…

Tens de te fazer mais pobre,
ó sábio Não-sábio!
se quiseres ser amado.
Só se ama a quem sofre,
só se dá amor a quem tem fome:
dá-te primeiro a ti, ó Zaratustra!
― Eu sou a tua Verdade…»

(Friedrich Nietzsche, Poemas.
Seleção, Tradução, Prefácio e Notas de Paulo Quintela,103-107).

[Tens de te fazer mais pobre, ó sábio Não-sábio! © Joaquim Félix]

12. Por fim, aquele que é a Verdade, Jesus de Nazaré,
aproxima-se de nós na semelhança de um pelicano branco,
para nos dar o seu corpo e sangue.
Abramos a nossa boca e saboreemo-los,
porque Ele, oferecendo-se integralmente, é bom.
Aprendamos d’Ele a darmo-nos primeiro a nós;
sim, a quem, jazendo junto do nosso portão,
tem fome, frio e chagas lambidas.
Ah! e cães: os vadios e os nossos.

[Jesus de Nazaré aproxima-se de nós na semelhança de um pelicano branco. Pintura «Rapariga engolindo pássaro. 1996» (detalhe) de Paula Rego. Exposição temporária na Fundação Cupertino de Miranda © Joaquim Félix]

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 28 de setembro, [domingo XXVI do tempo comum ― c ― 2025. Dia Mundial do Migrante e do Refugiado], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar de Braga.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Das cantigas de amigo à vinha

[Metáforas vivas]

Das cantigas de amigo à vinha novidade

Este texto corresponde à homilia de domingo, 4 de outubro, [domingo xxvii do tempo comum ― a ― 2026; 1º dia da semana da educação cristã; 800 anos da morte de S. Francisco], proferida pelo padre Joaquim Félix na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This