
“O nome de Angoche voltaria em 1976, após a independência de Moçambique. Esta zona, na costa do Índico, foi habitada desde o séc. XVI, por árabes e suaílis.” Foto © Xanana2 | Wikimedia Commons
Tinha acabado de chegar da metrópole. Este nome indiciava que no país pairava um regime colonial, embora em agonia. Em final de curso vinha para estagiar numa missão do Índico, próxima de uma praia imensa de águas tranquilas. O colégio, em construção, seria o lugar da minha tarefa diária, por entre devaneios e responsabilidades escolares, assumidas, assim, tão precocemente. Chegava às portas do calor, a António Enes, vila desde 1934, com o nome do comissário régio em Moçambique, em finais do séc. XIX. A vila tinha sido elevada a cidade, dois anos antes, em 1970. O nome de Angoche voltaria em 1976, após a independência de Moçambique. Esta zona, na costa do Índico, foi habitada desde o séc. XVI, por árabes e suaílis.
Além do português eram faladas as línguas macua e koti (local). Há registo de comércio de escravos até 1910. O Estado Novo incentivaria o centro de produção de caju e arroz, servido por unidades fabris, bem como a pesca tradicional. Teve e tem relevância, ainda, a frota pesqueira do camarão. A construção de habitações em alvenaria, para os continentais, obrigou à saída dos habitantes locais do Puli para o bairro degradado do Inguri. Sob o ponto de vista religioso, havia edifícios para católicos, muçulmanos e hindus. A sete quilómetros da cidade estava instalada uma maternidade, na missão católica de Malatane, com o apoio de religiosas vitorianas madeirenses.
A guerra civil, após a independência, obrigou a população negra a complexas deslocações, enxameando a cidade de quase 200 mil habitantes. Há meio século, a densidade demográfica era bem menor: 2.000 continentais e 10.000 autóctones. A guerra colonial fazia-se sentir no norte de Moçambique. Por António Enes passeavam-se militares em descanso dos combates…
Sob o cacimbo nocturno
Tudo parecia de azimutes certos. Da política internacional chegavam notícias preocupantes: o massacre de Munique, um atentado terrorista, contra a delegação de Israel, nos Jogos Olímpicos. Mais tarde, em Dezembro, outro massacre explodiria em Wiriyamu, na província de Tete, em Moçambique, onde foram sacrificadas, pelas tropas lusas, mais de 150 pessoas – ao tempo, de nacionalidade portuguesa. Na residência que me foi indicada, no bairro do Puli, reinava uma aparente tranquilidade na simplicidade do edifício de alvenaria, cercado de plantas tropicais.
No meu olhar atento, reparei logo na primeira noite que alguém, de serviço da casa, dormia numa esteira, estendida ao luar, na companhia do cão da missão. Avisei a comunidade no dia seguinte, ao almoço, do insólito por mim verificado e que, se nada fosse mudado, quem dormiria ao relento com o cão seria eu, sendo a minha cama, a partir de então, ocupada pelo anterior companheiro das noites do canídeo. A verdade é que pela tarde houve imensa movimentação na residência para que um quarto de arrumos fosse esvaziado e ali se instalasse uma cama. E, de supetão, estava tudo resolvido, apenas um ser ficou a perder: o cão teve de arrostar sozinho com as insónias das noites…
Das conversações humilhantes com quem discordava das alterações, emergiam palavras azedas: Que vinham para aqui fazer estes miúdos (éramos dois estagiários, na mesma condição), que mal tinham largado os cueiros! Abespinhavam-se os habitantes antigos da missão, pela recusa de imberbes ao projecto nacionalizador. Como n’O Principezinho, há coisas que só se vêem com o coração…
Manuel Vilas Boas é padre e jornalista.










