[Nas margens da filosofia (LXI)]

Quando os amigos nos morrem

| 14 Fev 2024

AMIZADE

“Há grupos de amigos que nos acompanham ao longo da vida mas há também outros que vão surgindo nas diferentes etapas da mesma – os primeiros vieram das relações familiares e da escola; os outros foram conquistas nossas, fruto das vicissitudes da vida, com os seus diferentes encontros e actividades.” Foto © Tyler Nix / Unsplash

 

Todo o estudante de filosofia mais cedo ou mais tarde se apercebe da estreita ligação existente entre esta e a amizade. De facto, um modo bastante comum de se iniciar o estudo desta disciplina passa pela análise etimológica do seu nome para depois concluir que o filósofo (sóphos) é o amigo da sabedoria (sophia). Talvez por isso Giorgio Agamben ao falar de filosofia nos informe que ela é impossível sem a amizade, ou antes, que aquele que não teve amigos na infância e na juventude dificilmente estabelecerá relações profundas na sua maturidade e velhice e, consequentemente, poucas hipóteses terá de ser filósofo.

É-nos possível estabelecer relações de amizade com pessoas diferentes de nós. Há amizades fugazes, há amizades profundas, há amizades que nos remetem para a infância e que, como tal, nos trazem estabilidade; outras há que resultam de encontros ocasionais, mas que nos marcaram para sempre. Há amigos que se fizeram pela atracção do diferente e há aqueles com quem descobrimos afinidades e, consequentemente, nos trouxeram estabilidade e nos fizeram sentir tranquilos e felizes. Há grupos de amigos que nos acompanham ao longo da vida mas há também outros que vão surgindo nas diferentes etapas da mesma – os primeiros vieram das relações familiares e da escola; os outros foram conquistas nossas, fruto das vicissitudes da vida, com os seus diferentes encontros e actividades. Há amigos que herdámos dos pais e que mantivemos ao longo da infância; há amizades que se fizeram no estrangeiro, em viagem, em situações insólitas. Mas seja qual for o tipo de amigos que tivemos (ou que ainda temos), eles são sempre essenciais para o nosso equilíbrio psíquico e emotivo pois é com eles que partilhamos contentamentos e desgostos, é deles que esperamos consolo e apoio, é a eles que recorremos em situações de aflição. A morte de um amigo não nos exige ritualidades nem cerimónias. Geralmente participamos nelas, mas deixamo-las a cargo dos seus familiares. É verdade que os acompanhamos no seu desgosto mas vivemo-lo diferentemente consoante o grau de amizade que partilhávamos. E o luto que então fazemos não se exterioriza em gestos, é puramente interior. A morte dos amigos é uma brecha que marca as nossas vidas. Senti-o pela primeira vez no início da idade adulta com a morte inesperada de uma das minhas melhores amigas com quem partilhara estudos e projectos. E, seguindo a lei da vida – neste caso da morte – hoje são já muitas as baixas ocorridas entre amigos e amigas, algumas delas esperadas mas nem por isso menos dolorosas.

A falta de um amigo é a perda de alguém com quem podemos dialogar, com quem por vezes discordamos e discutimos sabendo de antemão que não haverá perigo de ruptura. A um amigo podemos fazer confidências e mostrar facetas que não revelaríamos a mais ninguém. Com um amigo temos uma linguagem comum mas também podemos estar calados porque ele compreende e respeita os nossos silêncios. Como nos diz André Comte Sponville “A amizade é o espaço relacional em que a palavra, a acção e o silêncio são igualmente partilháveis e preciosos.”[1]

Há dias perdi dois grandes amigos da infância. E nas celebrações juntou-se gente que não via há muitos anos. Surpreendeu-me ver tantas rugas e tantos cabelos brancos e por vezes foi difícil ligar o nome à pessoa que há anos me fora tão familiar. Mas foi consolador revisitar o passado e encontrar nas novas gerações sinais dos pais e dos avós. Foi sobretudo gratificante perceber que algumas dessas amizades continuaram nos nossos filhos e, mesmo nalguns casos, nos netos.

Há pessoas que têm dezenas de amigos com os quais estabelecem relações cordiais e de sociabilidade. Mas há que diferenciar os amigos dos meros conhecidos, ou daqueles que nos são simpáticos e com os quais nos é fácil lidar. Há gente com quem empatizamos partilhando dos seus desgostos bem como dos seus momentos felizes. Há gente que admiramos mas a admiração não basta para que se estabeleça uma relação de amizade. O amigo (ou a amiga) é aquela pessoa com quem se conta e a quem não se pedem contas. Daí o recurso ao termo grego “philia” como aquele que melhor define a amizade pois nele é central a alegria que nasce da mera presença do outro, com o qual nos identificamos. E por isso podemos dizer que também morremos um pouco quando nos morre um amigo.

 

[1] “Un ami, dit ont à juste titre, ce n’est pas quelq´un avec qui on peut parler; c’est quelq’un avec qui on peut se taire.” André Comte Sponville, “Qu’est-ce qu’un ami véritable?” in Philosophie Magazine, Hors Série, nº 50, pg. 21.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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