Encontro “Cuidar” em Lisboa

Quando os padres não abusadores são as vítimas colaterais dos abusos do clero

| 29 Jun 2022

abuso menores igreja Ilustracao Churchandstate.org

O facto de a Igreja encobrir casos de abuso leva muitos clérigos a não confiar na hierarquia. Ilustração © Churchandstate.org.

 

“O que encontramos assusta-me: desilusão, depressão, crise existencial, perda de identidade, fim da relação entre presbíteros, perda de confiança na instituição e na hierarquia.” O diagnóstico cáustico é feito ao 7MARGENS pelo padre inglês Barry O’Sullivan, 61 anos, da diocese de Manchester, que estudou o impacto dos abusos sexuais entre os padres não abusadores.

No encontro Cuidar, do projecto com o mesmo nome, que decorreu nesta quarta-feira, 29, todo o dia, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, o padre inglês falou de algumas das conclusões da sua tese de doutoramento, na Universidade de Manchester. “Procurei estudar a desconexão entre a Igreja e a sua hierarquia [bispos] e os padres que dela fazem parte”, diz.

Esta desarticulação ou incoerência afecta o modo como se anuncia o Evangelho, acrescenta O’Sullivan, padre há 35 anos. “Apesar disso, a maior parte deles mantém-se no seu lugar, com resiliência. Mas a sua fé pessoal e a confiança na instituição ficam afectadas.”

Tudo isto devido às duas crises, aos dois escândalos subjacentes ao problema: “A primeira crise, o primeiro escândalo é o que aconteceu”, que poderia ser perdoado ou entendido. “O segundo escândalo é o que a hierarquia fez”, ao encobrir os casos de abuso, e que leva muitos clérigos a não confiar na hierarquia.

Em alguns casos, a crise já levou a situações extremas: Barry O’Sullivan contabilizou dois casos no Reino Unido, quatro na Irlanda e 15 no Brasil de padres que se suicidaram depois de terem sido acusados de abusos (no Brasil, só em 2021, foram nove).

O episódio mais recente, embora não se conheçam detalhes, foi o do padre alemão Christof May, 49 anos, responsável do seminário católico em Limburgo, Alemanha, que as autoridades acreditam ter posto termo à sua vida, há três semanas.

A crise é profunda, diz o padre inglês, que cita o exemplo do país seu vizinho: na Irlanda, em 2021, e em todo o país, foi ordenado um bispo e nenhum padre.

Para investigar a dimensão da crise, Barry O’Sullivan considera “essencial” que haja comissões independentes como a constituída em Portugal no início deste ano. Se não forem independentes da instituição católica, não serão credíveis, afirma.

 

Uma doença do sistema
Uma Anatomia do Poder Eclesiástico

João Eleutério, coordenador da obra “Uma anatomia do poder eclesiástico”, afirmou durante o encontro que a intenção era fazer uma obra “autocrítica”.

Esta crise na Igreja Católica provocada pelos abusos sexuais do clero tem de ser vista não “como resultado de comportamentos individuais”, mas como “uma doença do sistema”, como afirmou Alfredo Teixeira, antropólogo e professor na Faculdade de Teologia da UCP.

“A dimensão tem escala geográfica e uma regularidade que nos leva a olhar para o problema como sistémico. Não podemos falar apenas de comportamentos individuais. Na expressão do teólogo checo Tomáš Halík, trata-se de uma doença do sistema”, afirmou este investigador, um dos autores do livro Uma Anatomia do Poder Eclesiástico, coordenado por João Eleutério, apresentado também durante o encontro na UCP e de cuja introdução o 7MARGENS fez uma pré-publicação.

O coordenador da obra afirmou durante o encontro que a intenção era fazer uma obra “autocrítica”: “Quando se fala do abuso ouço muitas coisas de quem está fora do edifício, de quem não entra. Queríamos ouvir várias vozes, que reflectissem também a partir da teologia, para perceber o que está em jogo, as causas, para enfrentar o problema”, afirmou, citado pela Ecclesia.

O padre João Eleutério considerou ainda que a “figura de poder” ganha “diferentes contornos” consoante os lugares, encontrando “igrejas locais sem maturidade para perder a figura do padre, associada ao poder”, com consequências na incapacidade de fazer autocrítica e no clericalismo não exclusivo dos clérigos.

“A expressão poder eclesiástico deveria ser substituída na Igreja por expressões de serviço. Essas expressões de serviço têm história, contextos particulares em que se desenvolvem. Fruto do desejo da reforma que a Igreja vive, o que se percebe é a busca de novas formas de serviço que privilegiem a consciência de que somos todos baptizados.”

Rita Mendonça Leite, autora do estudo sobre “Clericalismo e anticlericalismo como ‘agentes de mudança’: uma perspectiva histórica a partir da Carta do Papa Francisco ao Povo de Deus”, referiu-se aos movimentos “de reforma e contrarreforma permanente na Igreja, de clericalização e anticlericalização”. E explicou: “Os abusos sexuais na Igreja resultam de um desvio, que constitui uma cultura, e trata-se de uma questão sistémica que remonta aos séculos II e III.”

 

Fazer simulacros sobre os abusos
Rodrigo Queiroz e Melo, da UCP

Rodrigo Queiroz e Melo, coordenador do projecto Cuidar. Foto © António Marujo

 

Este primeiro encontro do projecto Cuidar é o culminar de um trabalho de mais de dois anos desde que, em 2019, a fundação Porticus, que trabalha também na área da protecção e cuidado, pediu à UCP e á Universidade Pontifícia de Comillas (Espanha) que fizessem um ponto de situação sobre a protecção e o cuidado de vítimas de abusos nos dois países ibéricos. Investigação (consubstanciada no livro), formação, consultoria e a elaboração de mapas de risco e códigos de conduta e procedimentos foram alguns modos de concretizar o projecto.

A equipa do projecto já desenvolveu várias acções de formação em todas as ilhas dos Açores, nas dioceses de Braga, Lisboa e Setúbal, numa paróquia do Algarve, em vários colégios católicos, dedicadas a padres, seminaristas e outros responsáveis, incluindo as comissões diocesanas que trabalham com questão dos abusos.

“Este é um tema com o qual a Igreja ainda tem muita dificuldade em lidar”, diz Rodrigo Queiroz e Melo, da UCP, coordenador do projecto, ao 7MARGENS. “Porque é horrível de falar em abstracto, é horrível de falar em concreto e de viver a suspeita”, tendo em conta a temática envolvida, que remete para a intimidade da pessoa, e para a intimidade desviada ou que chega a ser criminosa, quando há abusos. Numa sociedade “púdica e conservadora” como a portuguesa”, mais difícil ainda se torna, mas o projecto pretende “ajudar a ultrapassar” essas dificuldades, acrescenta Queiroz e Melo, 52 anos.

Um dos projectos já postos em prática envolveu a criação de um sistema interno de protecção numa escola pública (Agrupamento de Escolas José Afonso, em Alhos Vedros, Moita) e noutra privada (Externato da Quintinha, em Santo António dos Cavaleiros, Loures), que apresentaram também o seu testemunho durante o encontro.

Na iniciativa desta quarta-feira, na Católica, a psicóloga Rute Agulhas falou sobre como compreender a vítima e cuidar dela no momento da denúncia. “Não há um estereótipo de vítima nem dos modos de reagir das vítimas”, afirmou. Estas podem reagir com choro, tremores, ansiedade ou tranquilidade, por exemplo. As vítimas – de abuso ou de maus-tratos – precisam antes de mais de expressar-se de forma emocional, de ter uma pessoa de confiança, e de quebrar o ciclo de culpa e vergonha.

Rute Agulhas destacou ainda a importância de as crianças fazerem simulacros para aprender a lidar com situações potenciadoras de abuso. “Andamos a preparar as pessoas para aprender a lidar com sismos e não preparamos para coisas importantes – como na praia, por exemplo, falando do corpo e das partes privadas.”

 

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