50 anos do Instituto Justiça e Paz

Quando parecia difícil encontrar espaços de discussão e tertúlia

| 22 Set 2023

Instituto Universitário Justitia et Pax

 

O livro 50 ANOS, 50 HISTÓRIAS – Instituto Universitário Iustitia et Pax, 1971-2021 será apresentado neste sábado, 23, em Coimbra, para assinalar o meio século daquele que é porventura a instituição católica mais importantes do país, no âmbito da pastoral universitária. A sessão decorre a partir das 15h no auditório do Instituto, e o livro será apresentado pelo padre Peter Stilwell, professor da Faculdade de Teologia e que foi assistente nacional do Movimento Católico de Estudantes.

“No final de 1971, numa altura em que a Igreja Católica dava os primeiros passos pós-conciliares e em que Portugal entrava no período final do Estado Novo, a Diocese de Coimbra decidiu dar corpo a um projeto novo e diferente de presença da Igreja e evangelização na comunidade académica de Coimbra: o Instituto Universitário Iustitia et Pax (IUJP)”, explica João Paulo Barbosa de Melo num texto de apresentação do livro.

O “Instituto”, como é carinhosamente referido por quem por lá passou ou passa, “atravessou cinco décadas de história da academia, da cidade e da Igreja, ao longo das quais acolheu muitas gerações de estudantes do ensino superior e desenvolveu incontáveis iniciativas pastorais, sociais e solidárias com foco na comunidade do Ensino Superior de Coimbra, que integra a Universidade e o Instituto Politécnico”, acrescenta o autor.

O livro recolhe testemunhos diretos de muitos dos que estiveram na fundação do IUJP e que “definiram a arquitetura desta obra original na Igreja” em Portugal e inclui ainda vários contributos e histórias de pessoas que, “entre 1971 e 2021, passaram pelo Instituto e nele deixaram marca, através da Juventude Universitária Católica, do Movimento Católico de Estudantes, do Serviço Pastoral do Ensino Superior, do Coro D. Pedro de Cristo e do Coro da Capela da Universidade, do Movimento de Campos de Férias e da organização de tantos acampamentos e ocasiões de festa para estudantes universitários, do Fundo Solidário NEXT, dos Grupos de Jesus”, bem como de equipas de preparação da Jornada Mundial da Juventude, do Centro de Estudos de Bioética, das Jornadas de Pastoral Universitária, etc…

A obra conta ainda com um “ensaio visual” coordenado por José Maçãs de Carvalho, produzido por João Marujo e realizado por dois jovens fotógrafos, Sofia Martins e João Neves. A capa é do designer Manuel B. Melo. As fotos estão neste momento patentes em exposição no IUJP. O livro foi coordenado pelo padre Idalino Simões e teve ainda Adriana Santos, Ilídio Barbosa Pereira, João Marujo, João Paulo Barbosa de Melo, José Ribeiro e Raimundo Mendes da Silva na equipa que organizou a sua edição.

O 7MARGENS publica a seguir o texto do padre Idalino Simões, assistente diocesano da Juventude Escolar Católica Feminina onde se contextualiza o tempo político e eclesial em que nasceu o Instituto e se faz também uma revisão do que foram alguns momentos importantes ao longo dos últimos 50 anos e que corresponde à comunicação apresentada no colóquio inaugural das comemorações dos 50 anos do Instituto que decorreu em 6 de dezembro de 2021.

 

Cinquenta anos do Instituto Universitário Iustitia et Pax – contestação, criatividade, imaginação

Ensaio visual a propósito dos 50 anos do Instituto Universitário Iustitia et Pax. Foto © Sofia Martins

 

É uma grande alegria poder encontrar-me e encontrar-vos nesta comemoração dos cinquenta anos do Instituto Universitário Iustitia et Pax. Agradeço a honra de iniciar este tempo de festa celebrativa. Não é minha tarefa contar a história do que foram estes cinquenta anos, nem também a história dos seus começos. A minha palavra é apenas para iniciar esta celebração de memória e reencontrar-me convosco nesta caminhada de cinquenta anos. Mais importante que recordar o passado é olhar o presente para construir, com os desafios de hoje, os tempos que se aproximam. O começo não é senão uma foto parada no tempo. Importante é a dinâmica gerada por esse começo. Faço-o como muito gosto pois esta é uma dupla celebração: só há bodas de ouro. Das bodas de prata nem uma palavra nos registos do Correio de Coimbra.

Optei, por isso, testemunhar esta enorme oportunidade que me foi dada de viver uma época singular como foi o tempo do nascimento do Instituto Universitário Iustitia et Pax. Num breve olhar sobre esse tempo da sua gestação há alguns dados que gostaria de salientar:

– O encerramento do Concílio Vaticano II em 1965,
– A contestação estudantil de maio de 1968,
– A morte de Luther King em 4 de abril de 1968,
– Comunicação apresentada no Colóquio Inaugural das Comemorações dos 50 anos do Instituto Universitário Justiça e Paz, que se realizou em 06.12.2021 pelas 21:00 horas, no Auditório do IUJP. – A primavera de Praga esmagada na noite de 20 para 21 de agosto de 1968 quando mais de 500 mil soldados soviéticos invadiram a Checoslováquia. A intervenção soviética também contou com milhares de blindados e centenas de aeronaves,
– De 26 de agosto a 6 de setembro de 1968 a Conferência dos Bispos da América Latina reunia-se em Medelin para assumir a receção do Concílio na Igreja sul-americana. Os documentos deste encontro vão ter especial importância na programação pastoral do Instituto Universitário Justiça e Paz,
– Crise Académica de Coimbra em abril de 1969,
– Sínodo dos Bispos sobre a justiça no mundo em novembro de 1971.

 

Sublinhar estes acontecimentos tem a ver com o caldo cultural e religioso em que germina o Instituto Universitário Iustitia et Pax. Tempos de contestação, mas também de criatividade e de imaginação. Tempos de escolha entre a incerteza da novidade e a rotina do já experimentado… O nascimento do Instituto Universitário Iustitia et Pax acontece como uma opção de assumir, na prática pastoral, os grandes desafios do Vaticano II. Assumir a leitura dos sinais dos tempos e ensaiar respostas operativas num meio atravessado pelo furacão das lutas estudantis. Participar nessa missão foi para mim uma tarefa entusiasmante. Quando, em outubro de 1969, fui nomeado Assistente diocesano da JUCF iniciava um dos tempos mais significativos e gratificantes da minha vida de padre. As dificuldades eram assumidas como desafios. A vertigem dos acontecimentos, um estímulo para respostas encontradas no debate, por vezes duro, entre os vários grupos de trabalho. Recordo que na primeira reunião geral da JUC em Coimbra estavam apenas 4 ou 5 militantes. A crise académica e as crises das respostas eclesiais tinham reduzido a um pequeno resto, ou melhor, a um pequeno fermento, um movimento que, na crise académica de 1962, reunia, em Coimbra, manifestações massivas de estudantes em luta contra o Movimento Estudantil…

Alguém dizia que a grande distinção não é entre revolucionários e conservadores, mas entre os que tinham imaginação e os que limitavam a copiar…

Ensaio visual a propósito dos 50 anos do Instituto Universitário Iustitia et Pax. Foto ©João Neves

 

Quando, no dia 28 de outubro de 1971, foi publicado a nota da Secretaria Diocesana de Coimbra anunciando a criação o Instituto Universitário Iustitia et Pax, havia muitas horas de encontro e de reflexão do grupo que assinou a proposta. Era um pequeno grupo de pessoas ligadas a diferentes experiências da vida da Igreja, sobretudo na Ação Católica, e que tinha sido designado para o estudo e reforma do CADC:

Presidente Diocesano da Ação Católica – Dr. José Manuel Cardoso da Costa,
Assistente do CADC – Dr. José d’ Oliveira Branco,
Assistente Diocesano da Ação Católica e Responsável do Centro de Estudos Teológicos – Dr. José Antunes,
Assistente Diocesano da JUCF – P. Idalino Simões,
um antigo Presidente do CADC – Dr. António Barbosa de Melo,
um antigo Membro do Lactário – Dr. José Pinto Mendes .

Não venho falar dos trabalhos da Comissão. Queria antes falar do significado da proposta então apresentada.

Face à crise dos movimentos na era pós conciliar e às tempestades por que passava a comunidade universitária e estudantil optou-se por não construir um porto de abrigo no mar açoitado pelos ventos. Também não se construiu uma torre, um reduto para acolher os navegantes perdidos. A opção foi abrir um poço, um poço de Jacob. Local de passagem e de encontro, local de descanso, mas também local para matar a sede de mistério e de sentido. Um poço onde, como no poço de Jacob, se cruzam as duas sedes: a de Jesus que pede de beber e a da samaritana que se deixa seduzir pela água viva e se torna anunciadora e seguidora do projeto de Reino.

A primeira iniciativa do Instituto Universitário Iustitia et Pax criança foi um Encontro do Mundo Melhor com cerca a de 150 participantes: cito uma nota do Correio de Coimbra nos “Sintomas”, do Dr. Urbano Duarte, ao descrever o clima do encontro: Isto alegra. Sim, tristeza é a casa vazia. Tristeza é existirem salas sem ninguém que as encha, com as suas ideias e discussões, os seus sonhos e iniciativas.

Anoto ainda a opinião do responsável pela Pastoral na Diocese, o P. João Cardoso:

Saúde: “Parece-nos que o serviço de acolhimento (aos estudantes vindos das paróquias) poderia ser organizado e garantido pelo novo Instituto Justitia et Pax, em boa hora criado pela competente autoridade diocesana e anunciado no documento de 28 de outubro passado e que, em nosso entender, é um dos mais felizes na sua redação, sentido sociológico, teológico e pastoral. O referido Instituto virá preencher uma lacuna em vários aspetos da vida eclesial.”

Deixo estes dois apontamentos e termino com o agradecimento a todos os que deram e continua a dar corpo e a este projeto. Aos que aqui viveram e participaram como militantes cristãos. Aos que, não sendo crentes, aqui encontraram acolhimento e espaço de vida.

Quero neste momento prestar a minha homenagem sentida a quatro pessoas que foram muito importantes no desenvolver da vida deste Instituto: Dr. António Barbosa de Melo, membro da redação dos Estatuto do Instituto Universitário Justiça e Paz, Dr. José Bernardo Keating, membro do primeiro Conselho Diretivo do Instituto, o Dr. José Dias da Silva e o Dr. Carlos José Rodrigues de Paiva. Que possam celebrar este acontecimento na Alegria perene na Casa do Pai.

Recordo também a ousadia do P. Nuno Santo de avançar, em momentos difíceis, com uma atualização dos Estatutos do Instituto, com assinatura de D. Albino Cleto em janeiro de 2010.

Resta-me uma palavra para os que hoje têm a responsabilidade deste projeto. Há cinquenta anos eram palavras-chaves no projeto: Compromisso, Opção pelos pobres e Ecumenismo. O Papa Francisco vai dando novos conteúdo a estas palavras. Que uma Igreja Samaritana, em saída, capaz de um diálogo não só ecuménico mas inter-religioso e intercultural, cuidando da casa comum e substituindo uma economia que mata por uma nova ordem que nos ajude a viver como irmãos possam ser desafios para uma trajetória renovada.

06 de dezembro de 2021

 

Padre Idalino Simões, assistente diocesano da Juventude Escolar Católica Feminina.

 

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