Ensaio

Quando Putin diz que a Rússia e a Ucrânia partilham a fé, está a deixar de fora boa parte da história

| 4 Abr 2022

Visão estilizada da bandeira e de Vladimir Putin. Foto © Pixabay

Visão estilizada da bandeira russa e de Vladimir Putin. Imagem © Pixabay

 

“Putin ignora uma herança religiosa exclusivamente ucraniana que transcende as instituições da Igreja e que há muito nutre o sentido de nacionalidade dos ucranianos.” É o que defende Kathryn David, especialista na história da Ucrânia soviética e da Rússia, neste artigo que autorizou fosse traduzido para o 7MARGENS.

 

O Presidente russo, Vladimir Putin, afirmou muitas vezes que russos e ucranianos são “um só povo”. E aponta alguns fatores: a língua russa falada amplamente nos dois países, a semelhança entre as suas culturas e as conexões políticas dos dois países, que remontam aos tempos medievais. Mas há mais um fator que une tudo isso: a religião.

O grão-príncipe Volodymyr, líder do reino de Kiev, converteu-se ao cristianismo no séc. X e forçou os súbditos a fazer o mesmo. Na visão de Putin, o cristianismo ortodoxo estabeleceu uma base religiosa e cultural que sobreviveu ao próprio reino, criando uma herança partilhada entre as pessoas que vivem nas atuais Rússia, Ucrânia e Bielorrússia.

Como historiadora da religião e do nacionalismo na Ucrânia e na Rússia, vejo a invasão da Rússia, em parte, como uma tentativa de restaurar esse “Mundo Russo imaginário”. Mais de sete em cada 10 ucranianos identificam-se como cristãos ortodoxos, uma percentagem semelhante à da Rússia.

Mas o que as alegações de Putin ignoram é uma herança religiosa exclusivamente ucraniana que transcende as instituições da Igreja e que há muito nutre o sentido de nacionalidade dos ucranianos. Muitos ucranianos, ao longo da história, viram a religião como algo que afirma a sua separação da Rússia, não aquilo que têm em comum.

Kiev vs. Moscovo

Sob a Rússia imperial, a Igreja Ortodoxa Russa foi muitas vezes um instrumento de assimilação, com funcionários empenhados em usar o poder da Igreja para tornar os povos recém-conquistados súbditos russos.

A partir de 1654, quando as terras ucranianas estavam a ser absorvidas pela Rússia imperial, o clero de Moscovo teve que decidir como conformar textos, práticas e ideias religiosas distintas de Kiev que diferiam das de Moscovo de maneiras subtis, mas significativas. Acreditando que algumas das práticas de Kiev estavam mais alinhadas com as raízes bizantinas da Igreja Ortodoxa, o clero russo decidiu integrar os rituais e sacerdotes ucranianos na Igreja Ortodoxa Russa.

Mais tarde, alguns membros do clero ajudaram a promover a ideia da unidade russa e ucraniana, enraizada na fé ortodoxa. No entanto, os ativistas ucranianos do séc. XIX tiveram uma visão diferente dessa história. Eles viam a Igreja Ortodoxa Russa como instrumento do império. Na visão desses ativistas, a Igreja adotou as tradições ucranianas em nome da unidade espiritual, enquanto na verdade negava a identidade própria dos ucranianos.

Esses ativistas nacionalistas não abandonaram o cristianismo ortodoxo, no entanto. Ao pressionar por uma Ucrânia autónoma, eles afirmavam que havia uma diferença entre a política da instituição da Igreja e a religião quotidiana, que colocava em primeiro plano a vida ucraniana.

 

À sombra do império

Nem todos os ucranianos viviam no reino espiritual de Moscovo. Um movimento nacional ucraniano também cresceu no oeste, nas antigas terras de Kiev que acabaram no Império Austro-Húngaro. Aqui, uma boa parte da população pertencia a uma instituição religiosa híbrida, a Igreja Greco-Católica, que praticava rituais ortodoxos, mas seguia o Papa.

Paróquias locais na Igreja Greco-Católica tornaram -se importantes no movimento nacional enquanto instituições religiosas que distinguiam os ucranianos não apenas dos vizinhos russos a leste, mas também da população polaca local na Áustria-Hungria. Mas os ativistas ucranianos lutaram por construir uma nação dividida entre essas duas principais correntes: a Igreja Ortodoxa Russa e a Igreja Greco-Católica.

Quando a Rússia imperial entrou em colapso em 1917, um dos primeiros atos do novo governo ucraniano formado em Kiev foi declarar a separação da sua própria Igreja Ortodoxa relativamente a Moscovo: a Igreja Autocéfala Ucraniana. A igreja pretendia usar a língua ucraniana e capacitar as paróquias locais mais do que a Igreja Ortodoxa Russa tinha permitido.

Com a derrocada do Império Austro-Húngaro [no fim da 1ª Guerra Mundial], o líder da Igreja Greco-Católica UcranianaAndrei Sheptytsky, apresentou um plano para uma Igreja Ucraniana unificada sob o Vaticano, mas baseada no ritual ortodoxo. Ele esperava que tal Igreja pudesse unir os ucranianos.

Mas esses planos nunca se concretizaram. O governo independente em Kiev foi derrotado pelos bolcheviques em 1921, e a Igreja Ortodoxa Ucraniana baseada em Kiev foi banida pela União Soviética.

 

Repressão das orações “nacionalistas”

Nas primeiras décadas da União Soviética, os bolcheviques montaram uma campanha contra as instituições religiosas, especialmente a Igreja Ortodoxa Russa. Eles viam a ortodoxia russa, em particular, como um instrumento do antigo regime e uma fonte potencial de oposição.

Durante a Segunda Guerra Mundial, no entanto, a União Soviética deu novo fôlego à Igreja Ortodoxa Russa, na esperança de a usar como instrumento de promoção do nacionalismo russo, internamente e no exterior .

Na Ucrânia ocidental, que a União Soviética anexou da Polónia em 1939, isso significou a conversão forçada de três milhões de greco-católicos ucranianos à ortodoxia russa.

Muitos ucranianos mostraram-se renitentes a adaptar a vida religiosa a essas circunstâncias. Alguns formaram uma Igreja Greco-Católica clandestina, enquanto outros encontraram maneiras de manter as suas tradições apesar de participarem na Igreja Ortodoxa Russa sancionada pelos soviéticos.

Nos registos da polícia secreta soviética, os funcionários documentaram aquilo que designaram por práticas “nacionalistas” na igreja: crentes que ficavam em silêncio quando o nome do patriarca de Moscovo devia ser evocado, por exemplo, ou que usavam livros de orações anteriores ao domínio soviético.

 

Esperanças de mudança
O Patriarca Ecuménico Bartolomeu entrega o Thomos de autocefalia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia ao metropolita Epifânio, primaz da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, em 6 de Janeiro 2019. Foto © President.gov.ua, CC BY 4.0 , via Wikimedia Commons

O Patriarca Ecuménico Bartolomeu entrega o Thomos de autocefalia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia ao metropolita Epifânio, primaz da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, em 6 de Janeiro 2019. Foto © President.gov.ua, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

 

Quando a União Soviética entrou em colapso, a Ucrânia viu-se na posição de redefinir o cenário religioso. Alguns cristãos tornaram-se parte da Igreja Greco-Católica depois de ela ter sido legalizada de novo. Outros cristãos viram este como o momento adequado para declarar uma Igreja Ucraniana “autocéfala”, o que significa que continuariam em comunhão com outras igrejas ortodoxas ao redor do mundo, mas já não sob o controlo de Moscovo. Outros, ainda, quiseram continuar a fazer parte da Igreja Ortodoxa Russa com sede em Moscovo.

Em 2019, uma Igreja Ortodoxa Ucraniana foi reconhecida como autocéfala pelo Patriarca Ecuménico Bartolomeu, chefe espiritual da Ortodoxia em todo o mundo, formando a Igreja Ortodoxa da Ucrânia.

Na Ucrânia, hoje, apenas 3% das pessoas se dizem filiadas na Igreja Ortodoxa com sede em Moscovo, enquanto 24% seguem a Igreja Ortodoxa com sede na Ucrânia, e uma percentagem semelhante se autodenomina “simplesmente ortodoxa”.

Alguns ucranianos têm tratado a igreja sediada em Moscovo com suspeita, reconhecendo os seus laços estreitos com o governo de Putin. No entanto, seria um erro supor que todos os que frequentam esta igreja concordam com a sua política.

Putin e outros líderes em Moscovo têm as suas próprias ideias sobre a ortodoxia. Mas, na Ucrânia, foi nos espaços sagrados que muitos ucranianos lutaram e conquistaram o seu direito à autodeterminação.

 

Kathryn David é professora assistente (Mellon) de Estudos Russos e do Leste Europeu, na Vanderbilt University. Este artigo é reproduzido de The Conversation, ao abrigo de uma licença Creative Commons.

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Testemunho de uma mulher vítima

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This