Quando algum familiar próximo nos morre o nosso desgosto exterioriza-se pelo luto visível que fazemos, geralmente vestindo-nos de preto durante algum tempo, consoante o grau de parentesco que nos unia ao falecido ou falecida. Quando nos morre um amigo ou uma amiga, o luto faz-se no nosso coração, não havendo sinais exteriores do mesmo.
Na idade que presentemente é a minha já tive muitas perdas de familiares que me provocaram grandes desgostos. E também sofri com a morte de amigas e de amigos que inesperadamente faleceram, algumas e alguns demasiado cedo, deixando-me um sentimento de incompreensão e de revolta que me levava a perguntar “como foi possível”?
O caso concreto que hoje menciono – a morte da Carmo Sennfelt – foi uma amizade feita na idade madura, numa época em que pensava não alterar a lista de grandes amigas com as quais até então contara na minha vida. Conheci-a na Capela do Rato que ambas frequentávamos, e a nossa aproximação foi-se aprofundando nas viagens que fizemos juntas, orientadas pelo então Padre (hoje Cardeal) José Tolentino Mendonça.
A peregrinação feita à Holanda, há anos atrás, na senda de Etty Hillesum, foi a altura em que aprendi a conhecer melhor a Carmo e a admirar a sua força de vontade e a sua coragem. Nessa época esta minha nova amiga tinha dado uma queda grave e tinha dificuldade em mexer-se mas tal facto não a impediu de participar nessa viagem, que fez de cadeira de rodas, não falhando nenhum dos percursos, alguns deles bem difíceis como foi o da visita ao Campo de passagem de Ravensbruck, um local onde os judeus esperavam a sua saída para os campos de morte. E nunca ouvimos dela qualquer queixume ou lamentação pelo incómodo que certamente essas deslocações lhe provocaram. Ajudada pela Sofia Távora, uma auxiliar preciosa para que a participação da Carmo se processasse sem problemas, ela fez exactamente o mesmo caminho que o resto do grupo, e a sua cadeira de rodas seguia atrás de todos nós, sem nunca desistir de nenhuma das etapas percorridas.
Durante anos encontrávamo-nos para almoçar uma vez por semana, almoço ao qual se seguia uma ida à Livraria Francesa onde contactávamos com as novidades literárias entretanto publicadas. E a Carmo depois seguia a pé até casa, com a sua bengalinha, fazendo quilómetros sem nunca se queixar.
Poderia aplicar à Carmo as palavras que Valérie Perrin escreveu no seu livro A Breve Vida das Flores: “Sempre lidei bem com a vida, vi sempre o lado belo das coisas, raramente a sua parte sombria”.[1]
Este ano o Curso de Filosofia, Literatura e Espiritualidade que costumo organizar na Capela do Rato é sobre A Alegria. E a escolha do tema que apresentei ao Grupo Responsável pelo mesmo, e que todos alegremente aceitaram, teve muito a ver com a imagem que a Carmo deixou na minha vida.
[1] Valérie Perrin, A Breve Vida das Flores, Lisboa, Presença, 2025, pg. 73.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










