AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

[Nas margens da filosofia (LXXVIII)]

” Quando uma amiga nos morre “

 

Quando algum familiar próximo nos morre o nosso desgosto exterioriza-se pelo luto visível que fazemos, geralmente vestindo-nos de preto durante algum tempo, consoante o grau de parentesco que nos unia ao falecido ou falecida. Quando nos morre um amigo ou uma amiga, o luto faz-se no nosso coração, não havendo sinais exteriores do mesmo.

Na idade que presentemente é a minha já tive muitas perdas de familiares que me provocaram grandes desgostos. E também sofri com a morte de amigas e de amigos que inesperadamente faleceram, algumas e alguns demasiado   cedo, deixando-me um sentimento de incompreensão e de revolta que me levava a   perguntar “como foi possível”?

O caso concreto que hoje menciono – a morte da Carmo Sennfelt – foi uma amizade feita na idade madura, numa época em que pensava não alterar a lista de grandes amigas com as quais até então contara na minha vida.     Conheci-a na Capela do Rato que ambas frequentávamos, e a nossa aproximação foi-se aprofundando nas viagens que fizemos juntas, orientadas pelo então Padre (hoje Cardeal) José Tolentino Mendonça.

A peregrinação feita à Holanda, há anos atrás, na senda de Etty Hillesum, foi a altura em que aprendi a conhecer melhor a Carmo e a admirar a sua força de vontade e a sua coragem. Nessa época esta minha nova amiga tinha dado uma queda grave e tinha dificuldade em mexer-se mas tal facto não a impediu de participar nessa viagem, que fez de cadeira de rodas, não falhando nenhum dos percursos, alguns deles bem difíceis como foi o da visita ao Campo de passagem de Ravensbruck, um local onde os judeus esperavam a sua saída para os campos de morte. E nunca ouvimos dela qualquer queixume ou lamentação pelo incómodo que certamente essas deslocações lhe provocaram. Ajudada pela Sofia Távora, uma auxiliar preciosa para que a participação da Carmo se processasse sem problemas, ela fez exactamente o mesmo caminho que o resto do grupo, e a sua cadeira de rodas seguia atrás de todos nós, sem nunca desistir de nenhuma das etapas percorridas.

Durante anos encontrávamo-nos para almoçar uma vez por semana, almoço ao qual se seguia uma ida à Livraria Francesa onde contactávamos com as novidades literárias entretanto publicadas. E a Carmo depois seguia a pé até casa, com a sua bengalinha, fazendo quilómetros sem nunca se queixar.

Poderia aplicar à Carmo as palavras que Valérie Perrin escreveu no seu livro A Breve Vida das Flores:  “Sempre lidei bem com a vida, vi sempre o lado belo das coisas, raramente a sua parte sombria”.[1]

Este ano o Curso de Filosofia, Literatura e Espiritualidade que costumo organizar na Capela do Rato é sobre A Alegria. E a escolha do tema que apresentei ao Grupo Responsável pelo mesmo, e que todos alegremente aceitaram, teve muito a ver com a imagem que a Carmo deixou na minha vida.

 

 [1] Valérie Perrin, A Breve Vida das Flores, Lisboa, Presença, 2025, pg. 73.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This