AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Um homem em oração numa pequena aldeia tribal no estado de Jharkhand, na Índia. Foto ACN
Um homem em oração numa pequena aldeia tribal no estado de Jharkhand, na Índia. Foto © ACN

Relatório da Fundação AIS 2025

Quase dois terços da humanidade vivem em países onde há “graves violações da liberdade religiosa”

De todos os relatórios sobre a liberdade religiosa no mundo que a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) publicou ao longo dos últimos 25 anos, a edição 2025 — que acaba de ser divulgada — , é claramente a mais volumosa. Um volume que revela, logo à primeira vista, que a situação continuou a agravar-se nos últimos dois anos. Depois, ao abrir e ler o vasto documento, os números confirmam: quase dois terços da humanidade — mais de 5,4 mil milhões de pessoas — vivem atualmente em países onde ocorrem “graves violações da liberdade religiosa”.

Durante a apresentação do relatório, que decorreu na manhã desta terça-feira, 21 de outubro, em Roma, e foi mais tarde replicada em diversas capitais europeias (incluindo Lisboa), a coordenadora editorial do relatório, Marta Petrosillo, destacou esse e outros números.

Efetivamente, o documento revela que houve graves violações da liberdade religiosa em 62 dos 196 países analisados (e que em 24 deles essas violações foram classificadas como “perseguição” e em 38 como “discriminação”), sendo que estes países albergam quase 64,7% da população global.

Além destes, há ainda 24 países classificados como estando “sob observação”, devido a uma “onda de sinais de alerta que ameaçam a liberdade religiosa”. Entre elas contam-se o aumento da intolerância, a erosão das proteções legais, o extremismo religioso e a crescente interferência estatal na vida religiosa. Isto significa que outras 750 milhões de pessoas correm neste momento o risco de discriminação religiosa.

Durante o período abrangido pelo relatório (1 de janeiro de 2023 a 31 de dezembro de 2024), apenas duas nações, o Cazaquistão e o Sri Lanka, apresentaram melhorias em comparação com a edição anterior.

 

Os motivos por trás da discriminação e perseguição

Países onde há violações da liberdade religiosa, de acordo com o relatório da Fundação AIS.

Mapa que assinala os países onde há violações significativas da liberdade religiosa, incluído no relatório da Fundação AIS.

Mas o que está na origem desta crescente repressão religiosa? O relatório identifica o “autoritarismo” como o principal motor das violações. Em 19 dos 24 países na categoria de perseguição e em 33 dos 38 países com discriminação, os Governos aplicam “estratégias sistemáticas para controlar ou silenciar a vida religiosa”, pode ler-se no documento. É o caso da China, Irão, Eritreia e Nicarágua, onde as autoridades utilizam tecnologias de vigilância em massa, censura digital, legislação restritiva e detenções arbitrárias para suprimir comunidades religiosas independentes. “O controlo da fé tornou-se uma ferramenta do poder político”, afirma o resumo executivo, que denuncia uma “burocratização da repressão religiosa” cada vez mais sofisticada.

A seguir ao autoritarismo, o relatório alerta para a expansão do extremismo religioso, em particular em África e na Ásia. Em 15 países destes continentes, essa é mesmo apontada como a principal causa de perseguição e, em outros dez, como contribuindo para a discriminação.

Marta Petrosillo deu o exemplo da região do Sahel, em África, onde grupos como o JNIM (Jama’at Nusrat ul-Islam wa al-Muslimin) e o ISSP (autoproclamado Estado Islâmico da Província do Sahel) alargam o seu controlo e têm provocado a morte de centenas de milhares de pessoas, o deslocamento de milhões e a destruição de centenas de igrejas e de escolas cristãs. O relatório refere ainda o Ansar al-Sunna ou ISCAP (autoproclamado Estado islâmico da Província da África Central) em Moçambique e as ADF (Forças Democráticas Aliadas) na República Democrática do Congo, que procuram estabelecer um “califado” para legitimar a sua autoridade e ideologia.

Em diversas partes da Ásia, é sobretudo o nacionalismo étnico-religioso que impulsiona a repressão das minoria, assinala o relatório. Na Índia e em Myanmar, isto impulsiona a perseguição. Na Palestina, em Israel, no Sri Lanka e no Nepal, alimenta a discriminação. A Índia exemplifica a “perseguição híbrida”, ou seja, a repressão legal combinada com a violência das multidões. As narrativas maioritárias são instrumentalizadas para consolidar o poder, enquanto os sistemas jurídicos e administrativos consolidam frequentemente o estatuto de segunda classe para as minorias.

 

Perseguição religiosa leva ao deslocamento de “comunidades inteiras”

Pastor fulani, Nigéria. Foto © ACN

Pastor fulani na Nigéria. Os ataques destes militantes radicalizados devastaram igrejas, aldeias e clérigos, desencadeando deslocações em massa Foto © ACN

Uma das principais conclusões do relatório, também destacada por Petrosillo durante a sua apresentação, é a de que esta perseguição religiosa é “um fator importante, e frequentemente ignorado, da atual crise global das deslocações”.

O relatório sustenta como, por exemplo, na Nigéria, os ataques de militantes fulani radicalizados devastaram igrejas, aldeias e clérigos, desencadeando deslocações em massa. E por todo o Sahel (Burquina Fasso, Níger, Mali) e em plena guerra civil no Sudão, “comunidades religiosas inteiras foram desenraizadas, os seus locais de culto destruídos e o património religioso eliminado”.

Ao mesmo tempo, “tem-se assistido a um crescimento exponencial de comunidades religiosas a sofrer as consequências da guerra perante uma onda de conflitos em todo o mundo: guerras civis, guerras entre países e conflitos regionais”, alerta o relatório.

O documento refere concretamente os conflitos armados na Ucrânia, Sudão, Myanmar, Gaza e Nagorno-Karabakh como tendo resultado em “deslocações em massa, encerramento de igrejas e ataques dirigidos a comunidades religiosas”.

Também o crime organizado tem tido “sistematicamente como alvo os líderes e as comunidades religiosas” em Estados enfraquecidos ou falhados e em zonas de conflito, onde os grupos criminosos os visam para afirmar o seu controlo, acrescenta o documento. É o que acontece na Nigéria, Haiti e México, onde o crime organizado é um dos principais impulsionadores da perseguição ou discriminação.

 

Cresceram incidentes antissemitas, antimuçulmanos… e anticristãos

manifestação contra o aumento de atos de antissemitismo em Lille, a 27 junho 2024. Foto Audrey LINKENHELD

Manifestação contra o aumento de atos de antissemitismo em Lille, a 27 de junho de 2024. Foto © Audrey Linkenheld

Como não podia deixar de ser, o relatório da Fundação AIS dá ainda conta do “aumento acentuado dos crimes de ódio antissemitas e antimuçulmanos” nos últimos dois anos, sobretudo após o ataque do Hamas em Israel, a 7 de outubro de 2023, e a subsequente guerra em Gaza.

“Os incidentes antissemitas e antimuçulmanos aumentaram em toda a Europa, América do Norte e América Latina”, refere o resumo executivo do documento, e dá exemplos: em França, os atos antissemitas aumentaram 1.000%, enquanto os crimes de ódio contra muçulmanos aumentaram 29%; a Alemanha registou 4.369 crimes associados ao conflito, um aumento enorme face aos apenas 61 que haviam sido registados em 2022. Foram atacadas sinagogas e mesquitas, assediados indivíduos e o discurso de ódio proliferou online. Face a isto, “em muitos casos, as respostas governamentais revelaram-se inadequadas, alimentando o medo e a insegurança entre as comunidades religiosas”.

E não foram apenas os incidentes antissemitas e antimuçulmanos a aumentar nos países ocidentais, mas também os incidentes anticristãos, assinala o documento. Só em 2023, a França registou aproximadamente 1.000 incidentes anticristãos, enquanto a Grécia reportou mais de 600 casos de vandalismo em igrejas. No Canadá, 24 igrejas foram alvo de fogo posto entre 2021 e o início de 2024. Aumentos semelhantes foram observados em Espanha, Itália, Estados Unidos e Croácia, incluindo profanação de locais de culto, agressões físicas a clérigos e interrupção de serviços religiosos, frequentemente motivados por hostilidade ideológica, ativismo militante ou extremismo antirreligioso.

O relatório dedica ainda um capítulo às novas formas de “perseguição digital” na “era da inteligência artificial”, alertando que, em muitos países, o conteúdo religioso é censurado online, e os indivíduos podem ser presos pelas suas publicações nas redes sociais. Os grupos extremistas também exploram ferramentas digitais para incitar à violência e difundir propaganda e as redes sociais são utilizadas como armas para silenciar as minorias, difundir o discurso de  ódio e alimentar a polarização.

Na China e na Rússia, por exemplo, a “dissidência online” é filtrada e punida, enquanto as plataformas religiosas são bloqueadas. No Paquistão, as acusações de blasfémia, muitas vezes infundadas, estão cada vez mais ligadas a publicações online. E na Coreia do Norte, os relatos citados no documento indicam que as autoridades aplicam um sistema de vigilância que faz uma captura de ecrã de cada telefone a cada cinco minutos, armazenando as imagens para monitorização estatal.

 

É preciso um compromisso coletivo… e assinar uma petição inédita

Relatório Liberdade Religiosa no Mundo 2025, Fundação AIS

Relatório Liberdade Religiosa no Mundo 2025, Fundação AIS

Reconhecendo que o cenário apresentado é muito preocupante, Marta Petrosillo assinalou que “este relatório é muito mais do que um simples relatório: é um apelo a acordarmos, é um testemunho para dar voz àqueles que não têm voz e também é um convite a envolvermos outras pessoas na defesa da liberdade religiosa”. Porque a liberdade religiosa “não é apenas um direito, é também uma responsabilidade partilhada”, lembrou a coordenadora editorial.

De resto, o próprio relatório refere como, apesar das crescentes ameaças, as comunidades religiosas continuam a desempenhar “um papel vital na promoção da paz, do diálogo e da dignidade humana”. De acordo com a Fundação AIS, as organizações religiosas lideram frequentemente respostas humanitárias, defendem os direitos humanos e apoiam as populações deslocadas, e os líderes religiosos oferecem muitas vezes orientação moral e assistência concreta.

Em Cabo Delgado, Moçambique, “a Igreja tornou-se um pilar de apoio e diálogo inter-religioso no meio da violência jihadista”, e em países como o Burquina Fasso, “as iniciativas locais estão a fomentar o diálogo inter-religioso mesmo perante ameaças extremistas”, afirma o documento, que recorda ainda o papel determinante do Papa Francisco, como “uma das vozes mais influentes a nível global na defesa do diálogo e da liberdade religiosa” nos últimos anos.

Papa Francisco lança uma pomba pela Paz no Iraque, em Mossul. Foto © Vatican Media

Papa Francisco lança uma pomba pela Paz no Iraque, em Mossul, março de 2021. Foto © Vatican Media

Mas é necessário que estes “sinais de esperança” se traduzam em “mudanças duradouras” e para isso “é essencial um compromisso coletivo e sustentado”, defende a AIS. Nesse sentido, a organização decidiu avançar com uma iniciativa inédita, anunciada no final da apresentação: “Precisamos de uma mudança real, por isso, pela primeira vez na nossa história, lançamos uma petição global pela liberdade religiosa”, disse a presidente executiva da Fundação AIS Internacional, Regina Lynch. A petição visa apelar a “ações concretas para políticas e leis que protejam efetivamente este direito [à liberdade religiosa] e um compromisso renovado da comunidade internacional para defender este direito onde quer que ele esteja sob ameaça”, acrescentou, deixando um apelo: “Convidamos todos os governos, instituições civis, universidades, média e acima de tudo todos os homens e mulheres de boa vontade a unir-se a esta iniciativa. A sua assinatura pode ser uma voz para aqueles que não podem falar”.

A petição ficará aberta a subscrições até 26 de novembro e depois será apresentada formalmente diante das Nações Unidas, União Europeia e diversos representantes de governos democráticos e da comunidade diplomática global.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This