Eleições europeias

Quase metade dos católicos franceses votaram na extrema-direita

| 11 Jun 2024

Jordan Bardella, do partido Rassemblement National (RN), com Marine Le Pen. Foto X Alertes Infos

Quase um terço dos “católicos praticantes” optou pela lista liderada por Jordan Bardella, do partido Rassemblement National (RN), de Marine Le Pen. Foto reproduzida a partir da conta de X Alertes Infos.

Em França, 42% dos “católicos praticantes” votaram nos partidos de extrema-direita para ocupar os lugares do novo Parlamento Europeu, uma percentagem que mais do que duplicou face aos 18% que haviam sido registados nas eleições europeias anteriores, em 2019. Esta é uma das principais conclusões de um inquérito realizado no passado domingo, 9 de junho, para o La Croix, e divulgado esta segunda-feira pelo jornal francês.

Quase um terço (32%) destes “católicos praticantes” – assim qualificados pela empresa que realizou o inquérito por frequentarem a missa dominical pelo menos uma vez por mês – optou pela lista liderada por Jordan Bardella, do partido Rassemblement National (RN), de Marine Le Pen, depois de este ter feito uma campanha polémica contra a livre circulação de migrantes na União Europeia e a favor de controlos nas fronteiras nacionais. Um valor muito superior aos 14% obtidos entre os ditos católicos pelo mesmo Jordan Bardella durante as eleições europeias de 2019.

A mudança do eleitorado católico praticante para a extrema-direita verificou-se também na percentagem de 10% obtida pela lista do partido Reconquista!, liderado por Marion Maréchal, que “jogou resolutamente a carta da defesa da ‘identidade cristã’ durante a sua campanha”.

 

Católicos “fragmentados”, muçulmanos claramente à esquerda

Jacques Delors, president of the CEC, participating in the World Day to Overcome Extreme Poverty in Paris, France. 17 October 1993 Foto Christian Lambiotte European Communities, 1993 EC - Audiov (1)

Jacques Delors, em outubro de 1993. Os ideais do antigo presidente da Comissão Europeia estão a perder força entre os católicos. Foto © Christian Lambiotte European Communities

“Estamos a observar uma mudança muito forte no eleitorado católico, marcada por duas grandes tendências subjacentes que surgiram desde as eleições presidenciais de 2017 e se confirmaram em 2022 ”, analisa Jérôme Fourquet, diretor de opinião e estratégia do IFOP (Instituto Francês de Opinião Pública), que conduziu o estudo. “Notamos primeiro um arquipélago do voto católico, que se está a tornar cada vez mais fragmentado, e depois um crescimento do voto no RN. Já não há qualquer resistência à extrema direita”, acrescenta.

Entre as questões que determinam o seu voto, os “católicos praticantes”, cuja taxa de participação está mais de 20 pontos acima da média nacional, mencionaram temas como a luta contra o terrorismo, a imigração ilegal, a segurança, mas também a educação e o lugar na União Europeia.

“O apego à União Europeia, na esteira da democracia cristã ou de Jacques Delors, existe entre os católicos, mas estas correntes estão a perder força”, assegura Jérôme Fourquet, assinalando que houve 28% de católicos a votar em listas de esquerda. “Mas hoje as linhas divisórias são diferentes e dizem respeito a questões de segurança, identidade ou relação com o Islão”, afirma.

Ao contrário, entre os eleitores muçulmanos, quase dois terços (62%) votaram no partido de esquerda La France Insoumise (LFI). Os resultados são semelhantes aos das eleições presidenciais de 2022, onde 69% optaram pela lista deste partido. Entre as questões determinantes para o sentido da sua votação, 83% dos eleitores muçulmanos citaram o conflito israelo-palestiniano, em comparação com 25% de toda a população. Além disso, a luta contra o racismo e a discriminação foi considerada importante por 78% dos muçulmanos, em comparação com 41% da população em geral.

 

Save the Children pede que direitos das crianças sejam prioridade

Crianças brincam num abrigo em Dnipro. Foto

Crianças brincam num abrigo em Dnipro, Ucrânia. Foto © Oleksandr Khomenko

Preocupada com as possíveis consequências do reforço da extrema-direita no Parlamento Europeu, a organização não governamental Save the Children já veio pedir aos novos parlamentares que mantenham as necessidades específicas das crianças no centro de suas agendas políticas.

“Os direitos das crianças estão em risco devido a várias crises. As crianças estão entre as mais afetadas pela crise económica, conflitos, pelo recuo das políticas sociais e pelos atrasos nas ações climáticas”, disse Willy Bergogné, diretor de Save the Children Europa, citado num comunicado divulgado pela organização nesta segunda-feira.

“Trabalhando em mais de 100 países, vemos em primeira mão o impacto transformador das políticas e iniciativas da UE na vida das crianças, tanto na Europa quanto no resto do mundo. Os próximos líderes da UE devem ter em mente o seu papel único e a responsabilidade na proteção de todas as crianças. Os parlamentares europeus e a futura Comissão Europeia devem integrar os direitos das crianças na sua agenda, investir tempo e recursos para garantir uma participação significativa, inclusiva e segura das crianças e colaborar com as organizações da sociedade civil que trabalham para e com elas. A UE deve continuar o seu legado como doadora de ajuda humanitária, defensora dos direitos, do desenvolvimento sustentável e da ação para o clima, e apoiar o progresso em matéria de direitos das crianças no âmbito nacional e internacional”, acrescentou Willy Bergogné.

Para enfrentar esse novo cenário político, a Save the Children acaba de lançar um guia destinado aos responsáveis políticos da UE. Intitulado “The future is now” (O futuro é agora), a publicação explica porque é que é importante dar prioridade aos direitos das crianças, detalha as principais questões a serem debatidas e quais os marcos políticos a serem alcançados durante a próxima legislatura.

Comprometida em influenciar a agenda das instituições europeias de modo a garantir que os direitos das crianças estejam sempre no centro, a Save the Children assume querer “levar adiante o progresso feito nos últimos cinco anos, como a Estratégia da UE sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, a Garantia Europeia para a Infância e a Plataforma da UE para a Participação da Criança”, e estar “pronta para enfrentar os desafios futuros e garantir um mundo mais justo e mais verde para todas as crianças”.

 

Bispos saúdam “maioria pró-europeia” e lembram papel da Igreja

Arcebispo de Dijon, Hérouard, com Ursula von der Leyen, emTaizé, agosto 2022. Foto Diocèse de Dijon

Ursula von der Leyen e Antoine Hérouard, vice-presidente da Comece, juntos em Taizé, em agosto de 2022. Foto © Diocèse de Dijon

Da parte da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (Comece), a reação foi de saudação pela manutenção de uma “maioria pró-europeia” em Bruxelas. “Os resultados preliminares mostram que se mantém uma maioria pró-europeia no Parlamento Europeu. A maioria dos votantes manifestou o seu apoio ao projeto europeu e um forte desejo de mais Europa: esta é uma boa notícia e um dos pontos-chave que os bispos da Comece sublinharam, nos meses que antecederam as eleições”, indica o secretariado do organismo.

Quanto à taxa de participação, que rondou os 50% no total dos países (36,54% em Portugal), em linha com anteriores eleições europeias, os bispos da UE entendem que esta “continua a não ser suficiente, o que indica um desinteresse e uma falta de empenhamento persistentes entre os cidadãos”.

“Uma baixa taxa de participação, combinada com o forte aumento dos partidos nacionalistas e eurocéticos, especialmente nos países fundadores da União Europeia, manifesta uma forte insatisfação com o desempenho da UE”, adverte a Comece.

Antoine Hérouard, vice-presidente daquele organismo, interpreta o voto expresso dos cidadãos europeus como “descontentamento contra os governos em exercício em muitos países”. Na perspetiva do também arcebispo de Dijon, “o resultado não significa que devemos submeter-nos à lógica de um certo número de partidos” definidos como de extrema direita ou populistas”, mas sim  “que as insatisfações expressas nas eleições devem ser levadas em conta no exercício da maioria que surgirá por meio da escolha dos principais líderes”.

Diante de um Parlamento Europeu que nos últimos anos refletiu um processo de “forte descristianização” do continente europeu, o líder religioso considera que a Igreja deve lembrar que “as liberdades individuais não são sem limites”; que existem “deveres uns para com os outros e para a construção de uma sociedade e de uma Europa solidária, na qual há um lugar real para os menores, para os mais frágeis, para aqueles que estão em dificuldades de todos os tipos”; que a questão da migração deve ser abordada de maneira “sincera, verdadeira e também com uma certa abertura, porque não é suficiente dizer que a Europa não quer mais migrantes”.

A Europa cristã, defende, não é aquela que defende “apenas os direitos pessoais de cada indivíduo”, mas aquela que constrói “uma verdadeira solidariedade entre os países e entre os cidadãos”, porque “o projeto europeu é um projeto de solidariedade, de união, de comunhão num certo sentido” e isso nunca deve ser esquecido, conclui.

 

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“A D. Georgina e o Senhor Amaro comentam o trânsito dos jovens, ele irritado: isto é gente de fora, do karaté ou lá o que é, daquelas coisas chinesas de dar porrada. Ela, rancorosa: pois, deixam-nos vir para cá para aprenderem a fazer-nos mal, deviam era mandá-los a todos para a terra dele”. Um texto de Nuno Caiado, baseado num episódio real testemunhado em Lisboa.

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