“Quatro Contos Dispersos”, de Sophia: a desordem da ordem estabelecida

| 5 Jan 20

Ilustração de João Caetano para o conto “Leitura no Comboio”, um dos “Quatro Contos Dispersos”, de Sophia de Mello Breyner Andresen (imagem cedida pela Porto Editora)

 

Um réu condenado à morte provocou uma grande desordem: aquele jovem era a encarnação do mal a abater embora as pessoas da terra se revestissem da mesma crueldade. O peso da responsabilidade desta condenação, que ninguém queria assumir, estaria nas mãos do carrasco, o único a condená-lo e também ele muito excluído.

A vida de um jovem é da responsabilidade de todos e a sua condenação à morte pesa nos ombros de cada um. É uma morte prematura de alguém que jamais terá a oportunidade de experimentar o que ninguém quer perder, a vida. Provavelmente, a autora não se refere à morte física, mas a outro tipo de morte que retira o ânimo, a fé e a esperança necessárias à vida. O conto O Carrasco, o primeiro dos quatro que são reunidos neste livro (conto incompleto, que a autora nunca concluiu) termina com a frase: “Mas um dia aconteceu uma coisa estranha…” Teria começado uma nova ordem? Teria sido a ordem estabelecida a causadora da desordem no coração do jovem?

Todos os contos que se seguem neste livro, apresentados como memórias autobiográficas, são exemplos dessa desordem da ordem estabelecida.

 

Os compartimentos da vida

É o caso de Leitura no Comboio: quando o comboio iniciou a sua marcha, a autora fechou a janela do compartimento, instalou-se, encostou-se e começou a ler um livro de bolso sobre a educação na Grécia antiga; estava feliz de saber que ia ter cerca de três horas de leitura, até que alguém avançou pelo corredor e, perplexo, perguntou se ela estava a ler.

Sophia descreve esta perplexidade de forma brilhante, realçando a surpresa genuína de quem não entende uma perspetiva de vida diferente.

O espanto deste homem representa o de muita gente, que não consegue entender alguém que passa tantas horas a ler. O sentido prático da vida fecha muitas vezes as portas de acesso à dimensão mais espiritual e uma multidão fica à porta estupefacta com a inutilidade da vida de uns quantos, que se fecham em compartimentos para se dedicarem a perceber, a explicar e a dizer a vida, em vez de simplesmente a viverem.

Na viagem da vida há muitos compartimentos e é surpreendente como se vive em alguns. Por isso, a autora diz ter aprendido que os comboios deveriam ter dois tipos de carruagem: uma ou mais dedicada ao convívio e uma ou mais carruagens para leitores e cismadores.

 

O desespero que devasta excluídos

O Cego era alguém que insistia em tocar músicas de forma triste e, todas as manhãs, deixava um rasto de melancolia. Quando chegamos ao 25 de abril de 1974, ele passa a tocar as músicas com confiança e alegria.

Algum tempo depois, a sua música retomou a habitual melancolia, talvez ainda mais triste. O surgimento de uma nova ordem revitaliza sempre os mais desfavorecidos, mas o desespero gerado pela desilusão é bem mais devastador para os excluídos.

A surpresa do cego deste conto e a do passageiro do comboio do conto anterior são igualmente genuínas e intrínsecas à sua vida. Aquele passageiro nunca iria compreender quem “perde o seu tempo” a ler, porque a sua vida estava fundamentalmente ligada ao real vivido através das rotinas, das tarefas, numa lógica de produção e utilidade. O Cego, habituado à tristeza, também nunca iria perceber porque lhe seria retirada a esperança, que já nem esperava sentir.

 

Desfigurada toda a linha da costa

Quando se instalou a desordem, Ana refugiou-se na sua casa em frente ao mar onde tudo recuperava o sentido, mas não conseguiu “manter intacta a ordem do mundo, tal como ela a imaginava”. O sentido da sua vida estava ancorado nessa ordem e, por isso, depois de perder o marido, com a desilusão perante a desordem do mundo, Ana perdeu “a fé na justiça imanente” e deixou-se morrer.

Enquanto em O Carrasco, a autora se debruça sobre a perspetiva dos que condenam, neste conto a perspetiva é a dos que são vítimas da condenação. Nos dois contos percebe-se que a preocupação em fazer justiça, de uma forma muito ordenada, parece querer repor uma ordem perturbada.

Neste último conto, Era uma vez uma Praia Atlântica, a desordem é a que acontece na vida de Ana Bote e que abala a sua estrutura interna, de forma a impedi-la de viver. Mas fazer justiça significaria a compreensão da ordem que sustentava aquela vida, para que o sentido da vida lhe fosse restituído e ninguém se interessa.

No final deste conto, a desarmonia detetada na mudança da paisagem física revela a desadequação da justiça em relação à questão colocada. A forma como este desequilíbrio estético se prolonga no espaço, “desfigurando toda a linha da costa até aos últimos confins do horizonte”, revela como a injustiça da destruição da beleza da ordem que sustenta a vida dos mais simples permanece através do tempo.

 

Maria Manuela Carneiro de Sousa é professora na Escola Básica do Bom Pastor (Porto)

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