
“Se eu pudesse (re)colocar um título a este congresso, ele seria ‘Incomoda-nos, Senhor’. Sim, precisamos verdadeiramente de ser incomodados. As pessoas que se sentem incomodadas tendem a reagir mais rápido.” Foto reproduzida do Facebook da Aliança Evangélica Portuguesa.
“Que a igreja unida anuncie e testemunhe Cristo” foi o lema do IV Congresso Lausanne (L4) que decorreu em Incheon (Seul, Coreia do Sul), entre 22 e 28 de Setembro de 2024. O evento aconteceu 50 anos depois do Movimento Lausanne surgir, na cidade com o mesmo nome, a partir do Congresso Internacional de Evangelização Mundial. Os nomes de Billy Graham e John Stott ficarão para sempre ligados ao impulso inicial do Movimento.
Nas palavras do diretor executivo global do Movimento Lausanne, Michael Oh, L4 é um processo global, policêntrico, que vem sendo preparado há vários anos, facilitado pela plataforma Lausanne, e que visa a colaboração catalisadora da igreja global, para fazer discípulos em todas as nações e modelar o mundo até 2050.
A palavra de ordem foi mesmo “ação colaborativa” ao redor de vários temas que nos anos anteriores, fruto de diversas consultas globais a líderes das várias esferas da igreja, foram listados como prioritários para o cumprimento da Grande Comissão (Mateus 28:16-20). Se L4 fosse uma tribo de Israel, seria com certeza Issacar (I Crónicas 12:32). Existem uma série de várias outras redes no meio evangélico potencializadas para atividades missionárias, de desenvolvimento comunitário ou ajuda humanitária. A vantagem de Lausanne é que tem a capacidade de, em todo o mundo, colocar as redes a funcionar todas juntas com um suporte teológico forte e consistente.
O Movimento Lausanne dá ainda oportunidade aos seus participantes de fazer parte do processo de construção e contínua reformulação das configurações dos movimentos reflexivos, dialógicos e estratégicos de planeamento da ação colaborativa e conjunta da igreja global.
Se eu pudesse (re)colocar um título a este congresso, ele seria “Incomoda-nos, Senhor”. Sim, precisamos verdadeiramente de ser incomodados. As pessoas que se sentem incomodadas tendem a reagir mais rápido. Somos incomodados quando nos é mostrado que não amamos o suficiente o nosso próximo que precisa de Cristo; precisamos de sentir-nos perturbados ao conhecer todo o sofrimento da igreja perseguida.
Nós estamos muito confortáveis no Norte Global, e precisamos de ser incomodados. Incomodados sabendo o que a Igreja do Sul Global está a fazer com a ajuda do Senhor; incomodados ao saber do sofrimento das pessoas que vivem em situação de guerra, fome ou violência e ainda assim guardam e demonstram a sua fé.
Foi a decisão certa começar as sessões a falar sobre o trabalho do Espírito Santo nas missões. Se Ele não está em nós, em vão trabalhamos. Nestas sessões, quase 5.400 participantes (dos quais 10 portugueses) sentaram-se ao redor de mais de 900 mesas com a oportunidade de dialogar em grupo os temas apresentados: a Igreja perseguida e as missões, missão no local de trabalho, intergeracionalidade e missão, a missão da igreja em regiões de conflito, e migrações e missão.
À tarde, os participantes podiam escolher sessões práticas sobre os seus interesses, e que versavam desde artes e missão, religiões mundiais, mulheres e missão, ferramentas digitais e missão, trabalhos com crianças, diásporas, liderança, intervenção social, pesquisa, pessoas com deficiência etc.; e posteriormente, durante quatro tardes na semana, os conferencistas integravam um dos 25 gaps – ou seja, uma das áreas a trabalhar para o cumprimento integral da Grande Comissão. Os 25 gaps indicados por L4 depois de um trabalho de pesquisa e de consulta global de vários anos, constam no Relatório “O estado da Grande Comissão”. São eles: 1) o envelhecimento da população global; 2) A nova classe média; 3) A próxima geração; 4) O islão; 5) O secularismo; 6) Os povos menos alcançados; 7) As Escrituras Sagradas numa era digital; 8) Formatos da Igreja numa era digital; 9) Discipulado numa era digital; 10) Evangelismo numa era digital; 11) IA e transumanismo; 12) Sexualidade e género; 13) Saúde holística; 14) Missões policêntricas; 15) Mobilização policêntrica de recursos; 16) Integridade e anticorrupção; 17) Integrar espiritualidade e missão; 18) Desenvolver líderes de caráter; 19) Pessoas em movimento – migrações; 20) Comunidades urbanas; 21) Comunidades digitais; 22) Etnicismo e racismo; 23) Cristianismo, radicalismo político e liberdade religiosa; 24) Cuidar da criação e dos vulneráveis; 25) Confiança societal e influência do cristianismo.
E o que tem de fazer a igreja global com toda esta informação e ações colaborativas? Tem de continuar a escrever o livro dos Atos dos Apóstolos, capítulos 29, 30, 31… Assim seja.
Para mim foi muito especial estar neste quarto Congresso: para a minha geração, e no que respeita a missões, estamos sobre os “ombros de gigantes”, e temos um legado para continuar. Temos muito mais recursos do que as gerações anteriores, e, contudo, outros desafios, diferentes daqueles que os cristãos do passado tiveram de enfrentar. Que eles não nos desviem do foco que é Cristo, fonte de vida. Que continuemos a ser cidades edificadas sobre os montes (Mateus 5:14).
Lausanne IV em números
- Participantes do Congresso Presencialmente: 5.394 de 200 países e territórios
- Participantes do Congresso Virtual: 2.000 pessoas de mais de 100 países
- Equipa/staff do congresso: 494 pessoas
- Equipa de voluntários da igreja coreana: mais de 1.600 pessoas
- Pessoas em oração durante o congresso numa igreja coreana próxima: 6.888 pessoas
- Tansmissão ao vivo: mais de 30.000 visualizações de 161 países
- Emails: mais de 500 emails em 7 idiomas nos últimos 18 meses, totalizando 750.000 emails
- Expositores do DDC (Centro de Descoberta Digital – Recursos digitais para evangelismo): 40 organizações
- Relatório do Estado da Grande Comissão: 6.000 downloads Formação de mais de 400 equipas globais de colaboração Mais novo: 18 anos, mais velho: 89 anos
Elsa Correia Pereira é bolseira de investigação em Sociologia da Religião e Membro do Comité Lausanne Portugal










