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O Papa discursa na reunião do G7, 14 junho 2023. Foto Vatican Media

Papa Francisco ao G7

Que as máquinas não possam escolher matar o homem que as criou

| 14/06/2024

O Papa é recebido por Giorgia Meloni, à chegada à reunião do G7, 14 junho 2023. Foto Vatican Media

O Papa é recebido por Giorgia Meloni, à chegada ao local da reunião do G7, na região italiana da Puglia. Foto © Vatican Media

“Nenhuma máquina, em caso algum, deveria ter a possibilidade de optar por tirar a vida a um ser humano”, sublinhou o Papa no seu discurso perante os líderes do G7, reunidos na tarde desta sexta-feira, 14 de junho, na região italiana da Puglia. Naquela que foi a primeira participação de um pontífice neste encontro de líderes das principais potências mundiais, Francisco falou nas oportunidades, mas sobretudo perigos, da inteligência artificial, e deixou o alerta: “está em jogo a própria dignidade humana”.

Depois de uma manhã preenchida – que incluiu um encontro com humoristas de todo o mundo e uma audiência com o Presidente de Cabo Verde – o Papa chegou de helicóptero por volta das 13h e foi recebido pela primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni. Depois, teve quatro encontros bilaterais – com Kristalina Georgieva, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional; Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia; Emmanuel Macron, presidente francês; e Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá – antes de se deslocar, acompanhado por Meloni, que o havia convidado, para a Sala Arena, onde foi recebido por uma ovação dos líderes na sessão conjunta.

Sendo a Inteligência Artificial um dos principais temas desta reunião dos líderes do G7, foi a este “instrumento fascinante”, mas ao mesmo tempo “tremendo”, que Francisco dedicou o seu discurso.

Reconhecendo que “a máquina pode, sob algumas formas e com estes novos meios, produzir escolhas algorítmicas”, o Papa lembrou que “o que a máquina faz é uma escolha técnica entre várias possibilidades e baseia-se ou em critérios bem definidos ou em inferências estatísticas”. Pelo contrário, ” o ser humano não só escolhe como, no seu coração, é capaz de decidir”. E essa decisão, defendeu o Papa, “deve ser sempre deixada ao ser humano, mesmo sob os tons dramáticos e urgentes com que, às vezes, se apresenta na nossa vida”.

Para Francisco, a conclusão é clara: “condenaríamos a humanidade a um futuro sem esperança se retirássemos às pessoas a capacidade de decidir sobre si mesmas e sobre as suas vidas, obrigando-as a depender das escolhas das máquinas”. Por isso, deixou um apelo: “Precisamos de garantir e proteger um espaço de controle significativo do ser humano sobre o processo de escolha dos programas de inteligência artificial”.

 

O papel “urgente” da política

O Papa discursa na reunião do G7, 14 junho 2023. Foto Vatican Media

No seu discurso, Francisco esclareceu que não existe nenhum preconceito em relação aos progressos científicos e tecnológicos, mas sim o medo de um desvio. Foto © Vatican Media

Concretamente em relação à utilização das máquinas nos conflitos armados, o Papa pediu que seja repensado o desenvolvimento e o uso de dispositivos como as chamadas “armas autónomas letais”, a fim de banir a sua utilização, começando desde já pelo compromisso efetivo e concreto de introduzir um controlo humano cada vez mais significativo.

Francisco esclareceu que não existe nenhum preconceito em relação aos progressos científicos e tecnológicos, mas sim o medo de um desvio. “A ciência e a tecnologia são produtos extraordinários do potencial criativo, como seres humanos”, disse o Pontífice, reconhecendo que “é a partir do uso deste potencial criativo que Deus nos deu que a inteligência artificial vem à luz”. Mas se é verdade que a inteligência artificial poderá permitir a democratização do acesso ao conhecimento, o progresso exponencial da pesquisa científica, ou a possibilidade de delegar trabalhos árduos às máquinas, ao mesmo tempo também poderá trazer consigo “uma maior injustiça entre nações desenvolvidas e nações em vias de desenvolvimento, entre classes sociais dominantes e classes sociais oprimidas, colocando em perigo a possibilidade de uma ‘cultura do encontro’ em favor de uma ‘cultura do descarte'”, alertou o Papa.

Assim, sublinhou Francisco, “somente se for garantida a sua vocação ao serviço do homem, os instrumentos tecnológicos revelarão não apenas a grandeza e a dignidade única do ser humano, mas também o mandato que este recebeu de ‘cultivar e guardar’ o planeta e todos os seus habitantes”. Algo que é particularmente difícil no caso da inteligência artificial, devido à sua extrema complexidade e sofisticação. “O paradigma tecnológico incarnado pela inteligência artificial corre, pois, o risco de dar lugar a um paradigma muito mais perigoso, que identifiquei como ‘paradigma tecnocrático’ – continuou o Papa. Não podemos permitir que um instrumento tão poderoso e indispensável como a inteligência artificial reforce tal paradigma; pelo contrário, devemos fazer da inteligência artificial precisamente um baluarte contra a sua expansão”.

“E é exatamente aqui que a ação política é urgente”, concluiu o Papa. “Cabe a todos nós fazer um bom uso da inteligência artificial, e cabe à política criar as condições para que essa boa utilização seja possível e frutuosa.”

Novamente aplaudido, o Papa prosseguiu para uma nova sessão de encontros bilaterais, desta vez com William Samoei Ruto, presidente do Quénia; Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia; Joseph Biden, presidente dos Estados Unidos; Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil; Recep Tayyip Erdoğan, presidente da Turquia; e Abdelmadjid Tebboune, presidente da Argélia.

Como escreveu o vaticanista Iacopo Scaramuzzi em La Reppublica, esta participação do Papa na reunião do G7 foi para Meloni “um sucesso diplomático”. Já para Francisco, foi “a oportunidade de se dirigir diretamente aos grandes nomes do mundo. E tentar chamá-los às suas responsabilidades”.

 

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