Este texto surge a partir da reforma do altar, do ambão e da cadeira do presidente na Paróquia de Argivai São Miguel-o-Anjo (Arquidiocese de Braga, Arciprestado de Vila do Conde – Póvoa de Varzim), cuja bênção e dedicação se realizaram no passado 28 de setembro de 2025. A celebração foi presidida por Dom José Cordeiro, sendo as peças da autoria do Abade Bernardino Costa.
“Noli me tangere”. Eis a expressão dita pelo Ressuscitado aquando da sua aparição a Maria Madalena. Todavia, porquê esta proibição? Será o seu corpo intangível? Será a sua condição algo mítica, que não possa ser um lugar em nós?
Jean-Luc Nancy, filósofo francês, dedicou uma obra à explicação deste episódio do Evangelho de João, na qual afirmava “que o mais importante não está na impossibilidade do toque de Maria Madalena, mas no deixar-se tocar”.[1]

“A celebração foi presidida por Dom José Cordeiro”. Foto © Pedro Fraga.
Que tradição queremos manter viva? Que festa da insignificância (Milan Kundera) queremos cultivar? Nietzsche escreveu: «Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar».
O novo torna-se sempre estranho quando o familiar desaparece. Entrando no sonho desfeito, não poderemos romper os lugares comuns para lhe oferecer um outro rosto. Que relação cuidar entre a Igreja e arquitetura? [2]
Talvez esta interrogação nos mova para dar um outro passo. Será necessário manter a hierarquia oculta ou óbvia? Que possibilidade teremos ao criar um espaço de comunhão que concilie o fundamento cristológico? Que barreiras são necessários transpor?[3]
Cada época tem a sua expressão arquitetónica, pois há fisionomias que são trabalhadas com o tempo. Como observarmos, a Igreja na sua história tem perspetivas e adquire diferentes modelos. A Igreja dos apóstolos não é a Igreja dos séculos I e II, a Igreja imperial não é a mesma que se assenta na reforma tridentina.
Na realidade, nós vivemos ainda da inculturação profética do Concílio Vaticano II. Embora os documentos conciliares descrevam pouco acerca da arquitetura da igreja, dizem muito acerca do novo modo como a Igreja se compreende a si mesma: «uma Igreja de “comunhão”, mais sinodal, menos hierarquia, menos clerical”».[4]
A recente reformulação implica uma forma de pensar a liturgia, porque o que celebramos mostra a forma como vivemos e acreditamos. A questão não se restringe apenas a uma questão arquitetural, uma vez que também se tece pela responsabilidade para fazer da distância proximidade e do limite relação, visto que arte e arquitetura procedem da liturgia.

“A recente reformulação implica uma forma de pensar a liturgia, porque o que celebramos mostra a forma como vivemos e acreditamos.” Altar. Foto © Pedro Fraga.
Ao atribuir à assembleia um lugar principal, e fazendo-a sujeito da liturgia, já não é possível sustentar uma divisão entre o clero e o povo, presbitério e assembleia. Conseguiremos confirmar as expectativas geradas pela reforma mediante participação consciente da comunidade?[5] Na verdade, esta obriga-nos à modificação da disposição e da construção da igreja. Por isso, o Altar não é um espaço especial de autoengrandecimento mas “insere-se no lugar da Assembleia Santa, que é o Corpo de Cristo, e o Ambão torna-se um lugar vivo, para que se torne mais qualitativo o nosso envolvimento e, deste modo, possa existir maior qualidade de comunicação, de proximidade, e distribuição dos diversos ministérios”.[6] O que transforma uma celebração é ouvir ativa e passivamente; é experimentar conscientemente o silêncio, pois sem uma atitude-interior, a liturgia inclina-se subitamente para estagnação. Sem o poder do espírito, perde-se espontaneidade, o encontro e o movimento.[7]

“(…) a beleza da liturgia está na sua arte, que se faz como um todo.” Altar, ambão e cadeira do presidente. Foto © Pedro Fraga.
Com esta disposição, este âmago gera centralidade que permite a Cristo abrir as Escrituras e apresentar invocação do seu corpo e do seu sangue como uma narrativa viva. “A beleza principal da igreja são as suas pedras vivas que são as pessoas. Há uma beleza própria na comunidade.” [8] Ou seja, a possibilidade da palavra ser lida em rostos, e sermos reconhecidos à mesa num pão e num vinho, desperta os sentidos, o corpo, e permite que a comunhão floresça num pé de igualdade, à altura dos olhos.
“Noli me tangere”. Será o nosso trabalho conservar uma verdade, e ditá-la sem querer juntá-la a um hábito criativo? Não poderemos ler os sinais dos tempos?
Que rubicão teremos de passar para que o cristianismo se torne um lugar de comunicação, um lugar de encontro no qual é capaz de uma hermenêutica sapiencial da existência dos humanos e do seu tempo, tal como escreve Mirones: «A desgraça da Igreja moderna é que durante demasiado tempo acabou por confundir a beleza com o tranquilizado ou o bonito, com o sentimental; acabou por fazer da sua iconografia e liturgia algo afastado dos problemas, dúvidas, inseguranças, sofrimentos e desejos profundos da humanidade. Deixou de falar do profundo da pessoa, para “provocar a emoção fácil” ou o “calorzito do coração”. Contudo, o belo, o significativo, o representativo da alma humana e do devir da história não tem que ser bonito; e muito menos tranquilizador e sentimental. A beleza está noutra coisa: no Autêntico».
Assim, a beleza da liturgia está na sua arte, que se faz como um todo, tal como Bento XVI nos disse em Portugal: “Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza”.
Deus não é um contraponto, mas Alguém que se aprofunda na nossa humanidade, e nos permite que “o visível tenha sabor e consistência”. Ou seja, o invisível a que chamamos Deus é sempre uma “transparência, que está sempre a ver-se, a mostrar-se, sem nunca O poderemos alcançar, ao mesmo tempo que se torna a profundidade pelo modo como esse mistério é tocado, evocado, e pela disposição afetiva que abre o ver, crer e o tocar”.[9]
Kant, filósofo do iluminismo, dizia que o mais importante era termos imaginação! Ousar pensar! Que beleza nos salvará? Que germinação inaugural nos atravessa? Dentro deste íntimo, eis o eco do lugar, do espaço onde Deus se faz passagem, vestígio, tal como Rui Chafes reforça: “Numa obra de arte é tão importante aquilo que se vê como aquilo que não se vê. Às vezes, até é mais importante aquilo que não se vê, porque uma obra de arte é apenas um fragmento de uma multidão de coisas que estão lá para trás e que não estão visíveis.”

“A beleza principal da igreja são as suas pedras vivas que são as pessoas. Há uma beleza própria na comunidade.” Foto © Pedro Fraga.
[1] Jean-Luc Nancy, Noli Me Tangere, ( Madrid: Editorial Trotta, 2006), 20.
[2]Joaquim Felix, “Arquitetura religiosa e esplendor na lentidão”, acedido a 20 de Agosto de 2025
[3] Cf. Andreas Odenthal, «”Por favor, não toque”. Reflexões críticas sobre o redesenho da Catedral de Santa Edwiges, em Berlim», acedido a 20 de agosto de 2025.
[4] João Norton Matos, “Cada época tem a sua expressão na arquitetura religiosa“, acedido a 18 de Maio de 2025.
[5] Cf. Odenthal, «”Por favor, não toque.” Reflexões críticas sobre o redesenho da Catedral de Santa Edwiges, em Berlim.»
[6] Romano Guaridini, Sinais Sagrado, (Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2017), 52-60.
[7] Cf. Andreas Odenthal, «“Por favor, não toque.” Reflexões críticas sobre o redesenho da Catedral de Santa Edwiges, em Berlim ».
[8] Matos, «Cada época tem a sua expressão na arquitetura religiosa».
[9] Cf. Odenthal, « “Por favor, não toque.” Reflexões críticas sobre o redesenho da Catedral de Santa Edwiges, em Berlim ».
Ler texto de Joaquim Félix sobre a capela de S. Brás, Antime, Fafe.
Pedro Fraga é sacerdote da arquidiocese de Braga.




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