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Que faz um homem com a sua consciência?

| 18/01/2020

Que faz um homem com a sua consciência?

by | 18 Jan 20 | Cinema, televisão e média, Cultura e artes - homepage, Últimas

 

Nem toda a gente gosta deste filme. Muitos críticos não viram nele mais do que uma obra demasiado longa, demasiado maçadora, redundante e cabotina. Como o realizador é Terrence Malick não se atreveram a excomungá-lo. Mas cortaram nas estrelas. E no entanto… é um filme de uma força absolutamente extraordinária. Absolutamente raro. Como o melhor de Mallick [A Árvore da Vida].

Que viu o realizador na história real do camponês austríaco objetor de consciência em tempos de guerra sob o nazismo? Uma oportunidade para contemplar a inquietante questão nunca formulada, mas sempre presente ao longo das três horas em que o filme se desenrola: “que fazer com a minha consciência?”. Que fazer quando os comportamentos que ela me dita são escândalo para os meus vizinhos, fazem sofrer os que me são queridos, me trazem preso e me levam à morte? Que fazer se vejo claramente visto que a minha obstinação não mudará a realidade, não impedirá a marcha imperiosa daquilo a que me oponho? Que fazer quando não tenho palavras para exprimir as minhas razões, nem vontade de convencer outros a aderirem à minha recusa? Por que razão manter uma atitude que não leva a nada, não vale nada e me condena à morte?

Entre o isolamento e a tortura de uma cela prisional e o formidável esplendor da natureza dos vales e montanhas austríacos move-se a câmara de Mallick sem resposta para as perguntas que sugere. Tão difícil é a luta de um homem com a sua consciência como é árdua a tarefa de remexer as entranhas da terra dela retirar o sustento da vida. Talvez a fidelidade a essa consciência seja também sustento de vida…

Explícita é a recitação de salmos e de outros trechos bíblicos, implícito é o paralelismo com a paixão de Cristo [o juiz-presidente do Tribunal Militar na figura de Pilatos]. Ténue, frágil, apenas sugerida é a ressurreição: uma mulher que pede perdão, outra que lho dá, um riso de criança, um gesto de afeto entre duas irmãs…

Para que serve um homem ser fiel ao que a consciência lhe dita?

Mallick não sabe. Limita-se a mostrar que basta a um homem ser visitado por um só olhar amoroso para que essa fidelidade ao que não tem aparente razão e nenhum proveito resuma toda a razão de ser de uma vida.

 

Uma Vida Escondida, de Terrence Mallick

Drama, M/ 14 anos, EUA/Alemanha, 2019; 174 min

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