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Marko Ivan Rupnik, Arte, Cordeiro, Crucifixo, Fátima, Basílica da Santíssima Trindade

Que fazer com as obras de arte de Rupnik? Nem o Vaticano se entende

| 01/07/2024

Marko Ivan Rupnik, Arte, Cordeiro, Crucifixo, Fátima, Basílica da Santíssima Trindade

Painel do altar da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, da autoria do padre Marko Ivan Rupnik, que está a ser acusado de abusos. Foto © António Marujo/7MARGENS

Enquanto o Dicastério para a Doutrina da Fé estuda as acusações de abuso de poder e abuso sexual de Marko Rupnik sobre várias religiosas, por indicação do Papa Francisco, as obras do padre artista esloveno suscitam atitudes e posições bastante distintas no interior do Vaticano.

Espalhados pelos quatro cantos do mundo, os painéis de mosaicos, de pequena, média e muito grande dimensão começaram por suscitar problemas mal eclodiram os testemunhos sobre os abusos desta figura grada dos círculos da Cúria Romana, em finais de 2022. Em Cracóvia, no santuário dedicado ao Papa e Santo João Paulo II, profusamente decorado pelo atelier de Rupnik, um grupo de vítimas de abusos reunia-se regularmente para rezar. Ao tomar conhecimento das notícias, o incómodo surgiu para vários membros do grupo, obrigando-os a procurar outro local.

Em vários outros espaços se levantaram questões e debates sobre a conveniência ou justificação de destruir uma obra de arte por causa de comportamentos do seu autor. E davam-se exemplos de artistas famosos, hoje muito apreciados, cujos trabalhos não existiriam se se tivesse seguido o ‘cancelamento’ daquilo que criaram.

O caso mais marcante e dramático, ainda sem decisão final, desencadeou-o o bispo de Lourdes, em França, num santuário que tem uma parte do rosário (os mistérios gloriosos) tematizado em painéis concebidos e realizados pela escola de Rupnik. Quer pela transmissão do terço através da televisão do episcopado francês quer diretamente, a diocese apercebeu-se de que os painéis estavam a perturbar profundamente alguns devotos do local, o que levou o prelado a criar uma comissão multidisciplinar para refletir sobre o assunto e propor uma solução. Anunciada para a ‘primavera de 2024’, continua-se a aguardar pelos resultados dessa comissão. Não é improvável que o atraso também se fique a dever ao reacender das posições sobre o tema, nas últimas semanas, envolvendo personalidades da Cúria Romana, posições essas bastante distintas.

Em junho último, o prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, em viagem nos Estados Unidos da América, disse a uma assembleia de profissionais dos média que “remover, apagar, destruir a arte nunca foi uma boa escolha”, aludindo ao caso do artista italiano Caravaggio. Sobre o caso das obras de arte do padre Rupnik, considerou que fazê-lo não seria “uma resposta cristã”. E exemplificou, observando que mesmo a Companhia de Jesus, que expulsou Rupnik por desobediência, não retirou a arte dele da capela da Cúria geral em Roma.

Para Ruffini, citado pelo site católico OSV News, remover ou destruir seria precipitado, dado que a investigação sobre o caso ainda decorre e a “a antecipação de uma decisão é algo que, na nossa opinião, não é bom”. Com isso justificou também que o seu e outros dicastérios continuem a usar imagens de obras de Rupnik: usam as que tinham, segundo ele. “Não decidimos o que não nos competia decidir”, disse.

Por outro lado, introduziu um velho argumento que tem sido usado para menosprezar o abuso de adultos vulneráveis: “Não estamos a falar de abuso de menores”, disse Ruffini. “Estamos a falar (de) uma história que não conhecemos”.

Fosse ou não em reação a estas posições, as vítimas de Marko Rupnik puseram-se em campo. Segundo refere a agência Ansa, a advogada Laura Sgrò, que representa cinco das ex-religiosas que se assumem como vítimas do padre, dirigiu recentemente uma carta a vários bispos de diferentes partes do mundo, considerando que a exposição dos mosaicos em locais de culto é “inadequada”, e “traumatizante” para as vítimas que “diariamente têm que lidar com as consequências psicológicas que os abusos lhes causaram”.

Além disso, acrescenta, há testemunhos que mostram que parte dos alegados abusos estiveram diretamente associados ao processo de produção de algumas obras de arte.

“Independentemente de qualquer processo em curso contra o autor, e independentemente do resultado, o que se pede é que prevaleçam razões de bom senso para não utilizar estes mosaicos em ambientes eclesiais, independentemente do valor artístico”, escreve Laura Sgrò.

Acolhendo esta posição das vítimas, o cardeal e arcebispo de Boston Sean O’Malley acaba de vir ao debate, defendendo que as estruturas da Igreja não devem criar a ideia de que a Santa Sé “é alheia ao sofrimento psicológico que tantos estão a sofrer”.

Intervindo na qualidade de presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis, o cardeal dirigiu uma carta aos dicastérios da Cúria Romana para expressar a esperança de que, durante este tempo, “a prudência pastoral impediria a exibição de obras de arte de uma forma que pudesse implicar ou exoneração ou uma defesa subtil” de supostos perpetradores de abuso “ou indicar indiferença à dor e ao sofrimento de tantas vítimas de abuso”.

Na missiva, O’Malley fez notar que, embora a presunção de inocência durante a investigação de Rupnik deva ser respeitada, a Santa Sé e os seus departamentos devem “exercer sábia prudência pastoral e compaixão para com as pessoas prejudicadas pelo abuso sexual clerical”.

 

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