[Segunda leitura]

Que fazer com este título?

| 18 Ago 2021

covid, vacina, foto © Helena Araújo

Painel na Alemanha contra a desinformação sobre as vacinas e os “covidiotas”. Foto © Helena Araújo

 

A notícia era forte, nenhum jornal passou ao lado dela.

Um jornal escreveu em título:

“Jovem morre em parque de campismo em Vieira do Minho”

Outro jornal titulou assim:

“Jovem de 18 anos morre em parque de campismo em Vieira do Minho”

Outro jornal optou por:

“Morte polémica de Inês de 18 anos em parque de campismo continua envolta em mistério”

Outro jornal foi pela formulação mais simples:

“Rapariga de 18 anos morre em parque de campismo em Vieira do Minho”

Outro jornal escolheu para título:

“PJ investiga morte misteriosa em parque de campismo. Rapariga de 18 anos encontrada morta”

Outro jornal optou por:

“Jovem encontrada sem vida no Parque de Campismo de Vieira do Minho”

Outro jornal preferiu:

“Rapariga de 18 anos morre em parque de campismo de Vieira do Minho – Caso foi entregue à Polícia Judiciária”

Variações sobre um mesmo tema. Títulos todos praticamente iguais, simples, diretos. Era notícia muito recente, da véspera, não se sabia mais do que aquilo…

Não se sabia mais do que aquilo?!… Ai não que não se sabia!… Porque nesse mesmo dia, exatamente com os mesmos dados de todos os outros, houve um jornal que descobriu tudo o que ainda ninguém tinha descoberto:

“Jovem universitária morre em Vieira do Minho dias após toma da vacina da covid-19”

Exatamente assim. Repito o título:

“Jovem universitária morre em Vieira do Minho dias após toma da vacina da covid-19”

O jornal era o Correio da Manhã.

E lia-se a notícia por ali abaixo e ficava-se a não saber coisa nenhuma. Claro, o trágico acidente tinha ocorrido horas antes, como saber qualquer coisa com o mínimo de segurança?… Havia que investigar, que falar com quem lá estivera, que fazer exames periciais, isso tudo. Mas alguém, pelos vistos, mandou para o ar a boca de que a jovem tinha sido vacinada contra a covid uns dias antes, e quem sabe… talvez… BINGO! Já temos um título diferente dos outros, um título só nosso, uma revelação, uma história! Vamos avançar com isto, que até pode ser, sabe-se lá… E se não for, não é, também não vem daí muito mal ao mundo, as pessoas entretanto esquecem-se…

O insidioso da história é que o Correio da Manhã em nenhum momento diz, ou sequer sugere, que a vacina pode ter sido causa da morte da jovem. O quê?!… Nem pensar, seria uma irresponsabilidade total!… Mas, assim como assim, e como quem não quer a coisa, assinala-se que ela, por acaso, dias antes tomou a vacina contra a covid. Estabelece-se uma sequência temporal (“aconteceu isto e depois aconteceu aquilo”), não uma relação causa-consequência (“isto aconteceu por causa daquilo”), por amor de Deus, nunca diríamos tal, por quem nos tomam?!… Lavamos as nossas mãos.

(E depois vamos ver os comentários a esta notícia, e depois vamos ver os ecos dela nas redes sociais, estão a ver, a vacina, pois é… eu até acho que, mas… pois é… eles bem dizem que pode ter uns efeitos perigosos… pois é… E de repente caem mais umas achas para a fogueira da desinformação sobre as vacinas e mais uns acenos aos negacionistas…)

Siga, que amanhã há outras notícias para dar.

Entretanto, não acontece nada. Pode acontecer mais uma reprimenda da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) – e era bom que elas fossem mais publicitadas –, mas gente que faz coisas deste jaez liga pouco ou nada a reprimendas da entidade reguladora, às vezes até parece que se orgulha delas. Tenho sentimentos divididos relativamente a como devem as sociedades democráticas lidar com abusos da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa na generalidade dos meios de comunicação (incluindo os média sociais). Mas sinto algum desconforto por ver que esses abusos se repetem, muitas vezes nos mesmos órgãos informativos, e aparentemente com total impunidade. Sempre que há alguma tentativa de regular as coisas, logo surge a acusação de que o que se pretende é censurar. O que não é necessariamente verdade, como sabemos. Mas ajuda a que continue a fazer-se pouco ou nada.  Eles, os que gostam de abusar e não prestar contas a ninguém, bem sabem fazê-las… Os outros, nem por isso. Até porque o tema não é fácil. Mas que merece conversa, lá isso merece.

 

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