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Que filosofia pretendemos ensinar aos adolescentes?

Que filosofia pretendemos ensinar aos adolescentes?

by | 10 Ago 20 | Educação / Família, Entre Margens, Sociedade, Últimas

Nas margens da filosofia (XXIII)

Ao longo da minha carreira docente, a filosofia e o seu ensino ocuparam um lugar central. Nos primeiros tempos, dei aulas em diferentes liceus e integrei a equipa que elaborou os novos programas pós 25 de Abril de 1974. Durante alguns anos orientei estágios e preparei professores(a)s para a carreira docente. Na Universidade, para além das várias cadeiras que leccionei, integrei o grupo de estudos que introduziu o Ramo Educacional na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Neste âmbito regi diferentes disciplinas no Mestrado em Ensino da Filosofia. A reflexão sobre o que é ensinar e aprender foi uma presença constante, quer abordando e problematizando directamente esta temática, quer tomando-a como pano de fundo orientador nas outras cadeiras que leccionava. E, quanto ao que se entende por ensinar, tomei como referência Hannah Arendt, considerando que ensinar tem como finalidade primeira fazer com que os outros acedam a um mundo, o mundo da cultura e da tradição, laboriosamente tecido ao longo de séculos.[1]

Ensinar filosofia implica necessariamente filosofar, ou seja, não nos podemos limitar a transmitir, reconstituir e explicar o pensamento dos filósofos. Depois de um primeiro passo que é compreender as teorias e os problemas, interessa apropriarmo-nos deles, ou seja, trazê-los para a nossa vida, examinando-os, questionando-os ou deles nos demarcando com opiniões fundamentadas. Por isso, exige-se dos professores de filosofia que não se limitem a reconstituir o pensamento de outrem, mas que sejam também filósofos. E que motivem os seus alunos a partilhar desse estatuto.

De um modo geral, os jovens chegam à filosofia cheios de preconceitos quanto à sua inutilidade. Pouco atreitos a levantar problemas que não tenham uma solução imediata, constantemente perguntam “para que serve”.  É tarefa do professor mostrar que, por meio da filosofia, poderão trilhar o caminho que conduz do vivido ao pensado, que ela lhes dará um distanciamento crítico dos problemas, que contribuirá para a flexibilidade de espírito desejável num mundo em constante mudança, que lhes propiciará a construção de uma visão integradora, inimiga de uma cultura de mosaico e que os ajudará a construir núcleos de resistência, impeditivos de uma assimilação passiva de estereótipos.

Os programas impõem-se institucionalmente aos professores, mas é sempre concedida a estes alguma liberdade na leccionação dos mesmos. Este factor permite-lhes ser criativos e adaptar os seus interesses às exigências requeridas. Estas não se limitam à transmissão de um saber pois simultaneamente se exige ao docente que desenvolva nos seus alunos determinadas competências. Para além do domínio das teorias e conceitos que constituem o programa, há que ensinar a compreender, a interpretar, a comentar, a problematizar, a redigir respostas, a escrever pequenos textos onde se exponham opiniões pessoais devidamente fundamentadas. Admito que haja rubricas em que se possa utilizar a técnica da escolha múltipla. Mas considero abusivo e empobrecedor que uma prova de filosofia se transforme num gigantesco quebra cabeças, onde a maior parte das questões se resolve com a colocação de uma cruz na resposta certa.

Foi isso que aconteceu na prova nacional de filosofia deste ano.[2] Ao lê-la senti-me num concurso televisivo em que são dadas ao concorrente N possibilidades de escolha e em que ele adere a uma ou outra sem necessidade de justificação.

A prova constava de dezoito perguntas. Em doze das mesmas, o aluno limitava-se a escolher a resposta certa entre quatro hipóteses apresentadas (A, B, C, D). A 12 exigia como resposta a escrita de uma linha. As perguntas 14 a 17 referiam-se a textos mínimos (tendo o maior 5 linhas) pressupondo respostas igualmente curtas.

Em função das classificações atribuídas a cada questão, um examinando com sorte poderia chegar aos 15 valores sem ter escrito uma única palavra. Salvou-se a pergunta 18: “Haverá boas razões para acreditar que Deus existe?” De facto, esta foi a única oportunidade que os alunos tiveram para mostrar o domínio das capacidades essenciais visadas pela disciplina, ou seja, identificar uma temática, discuti-la, escrever sobre ela, argumentar confrontando diferentes posições, optar por uma solução fundamentada.

 

Contrariando o preconceito difundido sobre a inutilidade da filosofia, defendo que ela é extremamente útil em inúmeros campos da nossa vida[3],  permitindo-nos resolver problemas tão diversos como o aprofundamento da identidade pessoal, o cuidado da terra e daqueles que a habitam, a descoberta das leis lógicas que regem o nosso pensar, a fruição da beleza, a exigência da justiça, a abertura à transcendência e tantas outras temáticas que nos ajudam a viver de um modo mais pleno a nossa humanidade.

A presente prova veio demonstrar que nada disto é importante.

Tenho pena dos alunos de filosofia a quem foi negado o prazer de filosofar.

 

[1] Hannah Arendt, “The crisis in education” in Between Past and Future, London, Penguin, 2006, pp. 182 e segs.
[2] Devo dizer que me surpreendeu a quase ausência de reacções à dita prova. Para além de alguns elogios por parte da comunidade de filosofia analítica, poucos comentários houve, o que me leva a pensar que a maioria dos professores ficou contente. Destaco como excepção o texto de Orlando Farinha, “O exame de Filosofia como pudim instantâneo”, publicado no Observador a 10 de Julho de 2020.
[3] Vj. Mary Warnock, The Uses of Philosophy, Oxford, Blackwell, 1992.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

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