Que fizeste do teu irmão?
Acabei de ler há dias o último livro de Hélia Correia (HC) Um Bailarino na Batalha(Relógio de Água, 2018). O livro descreve uma espécie de “peregrinação” de um grupo de refugiados africanos em direção à “terra prometida” – neste caso a Europa – onde nunca chegarão: “Fogem da pátria? Tinham pátria? Tinham, pelo menos, povo,” afirmam: homens, velhos, mulheres e crianças. Caminhavam “num silêncio [que] era uma coisa como um tamanho”.
O tema não podia ser mais atual. Mas o que impressiona é que a escrita poética a que nos habituou Hélia Correia venha tão cheia de compaixão – no sentido latino cum pacio, viver a paixão com – dando uma dramaticidade ao texto a ponto de nos doer. Hélia Correia como que acompanha o grupo, sentimos que ela faz parte do grupo, uma mulher caminhando com outras mulheres…
No relato aparece, dominante apesar do seu apagamento formal, um conjunto de mulheres:
- Aiyanna, a mulher da compaixão, idosa e sempre atenta.
- Awa é a jovem mulher-guerreira com o filho e “violada” por nova gravidez; durante a viagem pariu mais um filho nado-morto.
- Niwa, a velha curvada para o chão, para a areia cruel queimada pelo sol, a que afirma: “Não somos homens nem mulheres. Somos apenas pés na areia quente”.
- A norade Aiyanna, Miriam, a “que olha como as mulheres não sabem olhar”, a que dantes “nunca falara com homens como se fala com iguais”, a que passou a ousar fazer perguntas.
Agora, graças a Miriam, as mulheres “têm uma cara e um nome”, afirma a autora.
Nuru, “o cego que sentia o mar”, em diversos momentos guia todo o grupo. Apesar da cegueira ele era “aquele que sentia”.
“Tinham ganhado um coração de nómadas”. “No entanto prosseguiam”.
A certa altura da sua “peregrinação” tomam consciência – através da informação de um grupo de beduínos – de que a Europa não os quer, não lhes abrirá as suas portas. Buscam uma explicação: “é por isso que não nos querem lá. Paramos muito. Damos prejuízo. Paramos para rezar. Temos costumes”… E, no entanto, “necessitavam muito menos de um projeto do que deuma esperança. E a esperança precisava de um nome. Chamava-se Europa, a desejada, porque “ninguém vive sem terra prometida”. O livro tem um final em aberto: não sabemos se chegam lá. A sua esperança vai-se convertendo em desespero, em escuridão, em perda.
Podemos encontrar muitas afinidades com a caminhada dos judeus em busca da terra prometida relatada no Livro do Êxodo. O deserto do Sinai será o mesmo que Hélia Correia nos descreve. Os sentires, as visões, as dúvidas e a urgência de “sinais”, serão os mesmos. Mas os judeus tiveram um profeta e um Deus “na sarça ardente” que os guiou. A solidão deste grupo é muito mais pungente.
O movimento profundamente empático de Hélia Correia convida-nos à descentração, a uma solidariedade entre iguais, à verdadeira hospitalidade… e à esperança!
No final apetece talvez perguntar: “Que fizeste do teu irmão?”
(Um Bailarino na Batalha, de Hélia Correia; edição Relógio d’Água; 120 pág.; 2018; 16 euros)
Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e membro do Movimento Graal
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