Que Igreja na Cidade?

| 27 Jun 20

A Igreja, perante a cidade, encontra-se dividida entre uma organização já estabelecida (e por vezes antiga) no território e a necessidade de ‘recomeçar’ com uma realidade humana móvel e alterada. (Andrea Riccardi, Periferias: crise e novidade para a Igreja, Lucerna, pág. 113).

Sempre vivi em cidades e entusiasma-me a vida citadina. Umas mais pequenas, outras mais cosmopolitas, metrópoles… cidades a habitar. Como pároco numa cidade, desde o início se foi percebendo a tensão entre território e pertença, entre centro e periferia, entre identidade e fronteiras. Há dois anos, organizámos as primeiras Jornadas interparoquiais de Pastoral da Cidade para dar luz a um caminho novo que se impõe. Urge continuar o caminho de uma pastoral de cidade que seja mais que umas procissões em conjunto, mas que manifestem novas apostas comuns. Que pastoral da cultura? Que organização social e caritativa? Que meios de evangelização? Que proposta em novas zonas habitacionais? A resposta continuará a ser territorial ou há uma cidade que se pode pensar em conjunto? Estas e outras questões que se vão colocando e que me levam a refletir em alguns caminhos que urgem mudança.

Uma pastoral mais de conjunto. O perigo é olhar para a “paróquia-quinta”, fechada num determinado território. Nenhuma paróquia de cidade é autónoma, correndo o perigo de uma referencialidade excessiva. Talvez um grande número dos paroquianos seja hoje não-residente na paróquia – muitos vêm das paróquias vizinhas – procurando esta por razões de horários, dinamismos pastorais, identidade cultural e tradicional.

Muitos dos residentes em novas zonas habitacionais já não se identificam ou desconhecem a que paróquia pertencem, sendo a dimensão territorial hoje mais secundária. Permanecemos, pelo direito paroquial, organizados territorialmente, mas o sentido de pertença alarga-nos a atenção e faz cair fronteiras. Quero acreditar numa pastoral de conjunto em contexto de Cidade, que não anula os dinamismos identitários próprios da tradição paroquial, mas que se articula em novas formas de comunhão de serviços, de complementaridade de ação pastoral, na coabitação de uma equipa de ministros ordenados, em programações conjuntas e definição de atenções e prioridades comuns que olhem mais para a cidade a servir e a evangelizar. Uma visão alargada e partilhada serve muito mais a cidade que fechada na fronteira de uma geografia territorial.

Uma pastoral mais dialogante com a cultura. Talvez estejamos a viver a proposta cristã num monólogo homilético e não num diálogo onde ninguém se impõe. Uma pastoral a olhar para o umbigo da vida paroquial perde relevância no espaço público e tona-se incapaz de se tornar relevante. A Cidade é o mundo da arte, da ciência, da razão, do estudo, mas também das tradições, das festas, do folclore. Talvez nos falte alguma convicção, ousadia e estratégia em afirmar o nosso património religioso e cultural e acreditar que ele é caminho de evangelização de novos areópagos e porta da fé.

Uma pastoral mais missionária. Como alcançar novos prédios, bairros e casas? Uma pastoral missionária é aquela que acredita que a missão começa na casa-comum que também é cada paróquia. A missão exige dos missionários ser “fermento na massa”, afirmando a missão batismal que a todos desafia. O anonimato presente em tantos prédios choca com um sentido de vida comunitária que se reduza à esfera da participação litúrgica ou sacramental. Talvez este período de pandemia desperte para uma consciência de Igreja mais doméstica e revitalize o sentido de proximidade, vizinhança e de bairro, onde o Evangelho “sai” também dos grandes centros que são as nossas igrejas e se torna mais próximo e real na proximidade das vidas quotidianas.

Há uns anos ouvi o cardeal Walter Kasper, a propósito das suas bodas de ouro sacerdotais, identificar o futuro das paróquias de cidade mais como centros de espiritualidade. De facto, talvez tenhamos criado estruturas demasiado complexas para responder a demasiadas situações e nos tenha faltado a alma da vida pastoral que é uma experiência fundamental de fé que suscite a necessidade de formação e o testemunho caritativo.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

 

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