Que Igreja (também) para as mulheres?

| 16 Fev 21

Cópia de mulheres religiosas alemanha ordenacao, Foto Direitos Reservados

“Não me revejo, de todo, no discurso de muitos de uma Igreja que discrimina as mulheres”. (Grupo de religiosas alemãs que defende que as mulheres devem poder celebrar eucaristias. Foto: Direitos Reservados.)

 

Foi notícia em todo o mundo: o Papa permite às mulheres os ministérios laicais do leitorado e acolitado. Os mais otimistas, como eu, viram aí um caminho aberto para uma compreensão mais ampla da natureza destes e de outros ministérios; os mais pessimistas, também como eu, percebem que, apesar da grandeza e justeza da revisão legal, nada mudará verdadeiramente.

O Papa S. Paulo VI, na senda do Concílio Vaticano II, não só aprova os novos ritos para as ordenações (1968) deixando cair as chamadas “ordens menores”, num entendimento renovado do ministério ordenado, como reforma mais tarde o seu percurso formativo (cf. Carta Apostólica Ministeria Quaedem, 1972) através da criação de ministérios laicais litúrgicos.

Nesse documento, Paulo VI chamava a atenção para dois aspetos que tenho como relevantes para o meu também afirmado pessimismo: afirma que “os ministérios podem ser confiados a seculares, de modo a que não se considerem como algo reservado aos candidatos ao sacramento da Ordem”, e ainda que “nada impede que as Conferências Episcopais peçam à Sé Apostólica a instituição de outros que por razões particulares julguem necessários ou mais úteis na própria região”, dando o Papa como exemplo o catequista ou outros para os que se ocupem de obras de caridade. No fundo, o Papa S. Paulo VI quis renovar os ministérios numa ótica laical, abrindo inclusivamente o caminho para outros ministérios para além destes litúrgicos definidos, dando exemplos no âmbito da Palavra e da Caridade.

Qual o caminho que, desde 1972, a Igreja em Portugal fez? Apenas se deteve à obrigação mais prática e, necessariamente, passou a instituir os seminaristas ou candidatos ao diaconado permanente nestes ministérios, clericalizando-os. Se até hoje não se foi capaz de usar os critérios então apontados pelo Papa para que outros leigos fossem instituídos, porque é que agora vamos acreditar que o problema foi ou é de género? Se até hoje não se foi capaz de propor à Santa Sé a oportunidade de outros ministérios laicais, na prática vividos como tal por muitos dos nossos cristãos, porquê acreditar no discurso que somos uma Igreja ministerial?

Estou certo que o problema destes ministérios nunca foi a questão da identidade de género, mas uma questão de Igreja. Agora, mesmo apesar deste caminho feliz que o Papa Francisco nos aponta, continuaremos sem ter mulheres instituídas no leitorado e no acolitado e sem a criação de outros ministérios e continuaremos a ter também outros cristãos leigos que são leitores e acólitos e sem o serem propostos de forma instituída. O problema é mesmo falta de ousadia em se rasgar um modelo eclesial clericalizado. O Papa percebeu que só chegaremos lá com as mulheres.

A Comissão Teológica Internacional publicou, em 2002, um documento com o título “Diaconado: evolução e perspetivas”. Na sua introdução já pedia que “convém que também este (diaconado feminino) seja estudado para se estabelecer o seu estatuto eclesial e examinar a possível atualidade a ser-lhe reconhecida”. O Papa Francisco criou (em 2018) uma Comissão com resultados pouco clarificadores e, em abril de 2020, criou uma nova Comissão de estudo da oportunidade do diaconado feminino. Há um caminho que, de facto, o Papa vai suscitando a partir da participação das mulheres na Igreja.

Não me revejo, de todo, no discurso de muitos de uma Igreja que discrimina as mulheres e sei bem que não é fácil a reflexão doutrinal quanto ao sacramento da Ordem; considero mesmo que não é por aí que se assumirá uma Igreja menos clerical. Talvez com os homens eclesiásticos e uma hierarquia exclusivamente masculina não esteja a ser fácil um caminho que promova uma Igreja que, a partir da vida das comunidades,  se paute pela igualdade fundamental dos cristãos e da sua participação também ministerial (ordenada ou instituída). Talvez a questão de fundo não seja tanto o lugar das mulheres na Igreja, mas mais a Igreja que queremos ser para todos, na sua igual dignidade batismal.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

 

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