Que memórias guardamos da pandemia?

| 20 Fev 21

Nas margens da Filosofia (XXIX)

 

“Esquecer (…) é desprender-se da carga entorpecedora do desnecessário.”
Antonio Muñoz Molina[1]

 

No livro X das Confissões, Santo Agostinho fala-nos da memória e sobre ela escreve: “Dirijo-me para as planícies e os vastos palácios da memória, onde estão tesouros de inumeráveis imagens veiculadas por toda a espécie de coisas que se sentiram.”[2] Na impossibilidade de tudo recordar, a nossa mente selecciona aquilo que lembramos e, nessa selecção, os afectos desempenham um papel determinante. As nossas lembranças definem o horizonte da pessoa que somos e revelam as nossas preocupações, as nossas exigências, os nossos valores.

Ao pensar nas memórias desta pandemia o que me vem à ideia em primeiro lugar é a ausência – ausência de gente pois estarmos circunscritos ao núcleo reduzido dos familiares mais próximos; ausência do toque e do abraço, que devemos conter por razões profiláticas; ausência de amigos de carne e osso, gente com quem possamos conversar cara a cara ou em grupo sem necessidade de recorrer às redes sociais para falar do que sentimos, do modo como nos pesa a solidão, das alegrias e dos desgostos, partilhando as pequenas desgraças e felicidades do dia a dia.

Faltam-nos as pessoas, as saídas, os cinemas, os concertos, os passeios em grupo, as idas aos museus, os almoços e jantares de amigos, as tertúlias. É verdade que estabelecemos contactos, mas sempre de um modo policiado e cauteloso, considerando os outros como possíveis transmissores de vírus. Outra lembrança que nos fica é o cansaço. Cansaço das mesmas caras, dos móveis da nossa casa, da monotonia dos dias sempre iguais, das mensagens repetitivas que recebemos de conhecidos e de desconhecidos, dos pedidos de amizade online, dos inúmeros likes no Whatsapp e Facebook, dos noticiários com infinitos gráficos de doentes e de mortos, da presença permanente das mesmas caras na televisão.

A memória é uma função social. Robinson na sua ilha não precisava de escrever o diário. Se escrevêssemos um diário durante a pandemia possivelmente anotaríamos diferentes ocorrências – encontros agradáveis e desagradáveis, notícias felizes como o anúncio de nascimentos, outras preocupantes e tristes devido à doença e morte de familiares e amigos, visitas esporádicas, encontros rápidos e zooms intermináveis onde uma multidão de gente se manifesta com a incontinência verbal própria dos isolados. Os telejornais são avidamente escutados e o desfiar de baixas é recebido com a indiferença forçada de quem se sente também ameaçado.

Sabemos que o passado é uma reconstrução e que a lembrança não é apenas uma imagem, mas um juízo que fazemos sobre o que passou. A tonalidade emocional tem um papel importante nas nossas recordações; por isso, os elementos neutros são mais facilmente esquecidos. Esta pandemia lançou sobre os nossos actos um manto de neutralidade e eles aparecem diluídos na massa cinzenta que constituiu a maior parte dos nossos dias. Falta-nos a capacidade de Marcel Proust que, ao molhar um bolo no chá, consegue recuperar a felicidade da infância perdida. A monotonia imposta pelo propagar da doença transformou a nossa vida numa espera e substituiu o presente pela ânsia de um futuro diferente, para o qual, por enquanto, não nos é possível antever uma data.

Mas também neste período houve pontos luminosos. Deles lembro os tempos dedicados à leitura. E de entre as muitas obras que devorei ao longo de meses destaco o livro de Antonio Muñoz Molina, Os Teus Passos nas Escadas, um livro em que a memória ocupa um lugar central. É uma obra que revisita o passado e que a partir dele constrói o futuro.

A história, aparentemente banal, situa-se em Lisboa e o narrador e a sua mulher são as personagens principais. Trata-se de um casal que vive nos Estados Unidos da América mas que pretende estabelecer-se em Portugal. Ela é investigadora científica ainda em actividade, ele é aposentado e, como tal, foi o primeiro a regressar, com a missão de arranjar casa e tratar do necessário para a vinda de Cecília, sua mulher. Esta é-nos dada a conhecer pela evocação de episódios passados ligados ao seu trabalho, aos seus gostos, aos seus amigos, aos seus interesses e divertimentos. Embora ausente, Cecília é constantemente lembrada. A partir dela, o autor antevê um futuro harmoniosamente partilhado. A memória do ataque às Torres Gémeas é recorrente, ensombrando outras recordações e motivando o desejo de recomeçar vida nova em Portugal. Em função do passado que nos vai descrevendo, o narrador antecipa um tempo de encontro numa data que nunca é fixada mas que espera ser próxima.

A primeira sombra aparece com o ruído constante dos aviões, uma agressão à paisagem idílica do Tejo. Nesta espera solitária do regresso de Cecília, desfilam memórias de uma vida em Nova Iorque, num frenesim e insegurança que a quietude lisboeta promete apaziguar. A vinda de Cecília é permanentemente adiada e a casa vai-se tornando estranha, misturando-se as recordações recentes de Lisboa com as mais longínquas de Nova Iorque. A solidão pesa e o narrador entra numa espécie de twilight zone onde perde a noção do tempo e do espaço. Ao desorientar-se num túnel do Metro pensa ter regressado à América, e escreve: “O agora tornou-se distante de mim. O passado de então tem uma consistência mais poderosa do que o presente. As pedras da calçada, os cheiros do mar e a matéria corrupta, os muros muito altos dos armazéns às escuras (…). Observo a hora, o dia, o mês em que estou, o ano que durante uns minutos tinha esquecido, como a noção e o nome da cidade onde me encontro.”[3] A partir deste momento há uma reversão na narrativa e o autor assume estar desorientado. Instalam-se as dúvidas e a angústia: “Já sei que não posso confiar nas minhas faculdades mentais. Esqueço-me de coisas essenciais de agora e perco o tempo e a memória em lembranças inúteis de há muitos anos, ou de histórias que li nos livros. Procuro alguma coisa e não a encontro onde devia estar. Vou sair e procuro as chaves, a carteira ou o telemóvel e perco muito tempo a examinar todos os lugares possíveis onde posso tê-los deixado. Parece que as coisas se escondem de mim em recantos imprevisíveis, às vezes até inacessíveis.”[4]

Esta e outras obras a que recorri em tempos de confinamento foram uma terapia preciosa que me permitiu manter a sanidade mental.

Retomo o texto de Agostinho sobre a memória. Na sequência da citação colocada no início o Santo escreve: “Aí [nas planícies da memória] está escondido também tudo aquilo que pensamos, quer aumentando, quer diminuindo, quer variando de qualquer modo que seja as coisas que os sentidos atingiram, e ainda tudo aquilo que lhe tenha sido confiado, e nela depositado, e que o esquecimento ainda não absorveu nem sepultou.”[5]

Para superarmos os dias aparentemente iguais desta pandemia aconselho a escrita de um diário. Porque, para além da ausência e do cansaço atrás referidos, ocorreram certamente gestos que nos comoveram, episódios que nos fizeram rir, surpresas que quebraram a monotonia, celebrações festivas que marcaram a diferença. Importa registá-los deixando estas vivências aos nossos filhos e netos, para que percebam que, em situações de provação, a esperança nunca morre e que as recordações deste tempo se devem manter. Delas depende uma tarefa que a todos se impõe – a construção de um modo mais responsável e justo de habitar a terra e de lidar com os outros. Porque as memórias que guardamos deste flagelo fizeram de cada um de nós uma pessoa diferente.

 

[1] Antonio Muñoz Molina, Os Teus Passos nas Escadas, Lisboa, Relógio D’Água, 2020, p. 180.
[2] Santo Agostinho, Confissões, Livro X, VIII, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2000, p. 453.
[3] Ibidem, p. 180.
[4]Ibidem, p. 200.
[5] Santo Agostinho, ob. cit. p. 453.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

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