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Papa Francisco com atletas da equipa de ciclismo da Athletica Vaticana. Foto Vatican Media

Prefácio do Papa em livro sobre os Jogos Olímpicos

“Que o desporto possa construir pontes, derrubar barreiras, promover relações de paz”

| 13/06/2024

Papa Francisco com atletas da equipa de ciclismo da Athletica Vaticana. Foto Vatican Media

Papa Francisco com atletas da equipa de ciclismo da Athletica Vaticana, em agosto de 2023. Foto © Vatican Media

Paris está prestes a receber os Jogos Olímpicos e Paralímpicos e o Papa pede que a trégua proposta pelas Nações Unidas seja aceite. É esse o apelo que faz no prefácio do livro “Jogos de Paz, a alma das olimpíadas e das paralimpíadas“, que será publicado por iniciativa da Athletica Vaticana – associação desportiva da Santa Sé – no próximo dia 17 de junho, e que conta com contributos de dezenas de atletas olímpicos e paralímpicos, alguns deles refugiados, e também do cardeal Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação. “A minha esperança é que o desporto olímpico e paralímpico – com as suas emocionantes histórias humanas de redenção e fraternidade, de sacrifício e lealdade, de espírito de equipa e inclusão – possa ser um canal diplomático original para superar obstáculos aparentemente intransponíveis”, escreve Francisco na sua introdução ao livro. O 7MARGENS partilha aqui o prefácio na íntegra, numa tradução feita a partir da versão em italiano, disponibilizada pelo Vatican News.

Livro Giochi di pace, capa

A capa do livro prefaciado por Francisco.

No momento histórico particularmente sombrio que vivemos, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris são uma oportunidade para a paz. Pensando no valor da trégua olímpica – proposta pelas Nações Unidas – a minha esperança é que o desporto possa construir pontes concretamente, derrubar barreiras, promover relações de paz. As Nações Unidas propuseram a duração da trégua olímpica: de uma semana antes do início dos Jogos de Paris até uma semana após o encerramento dos Jogos Paralímpicos. O autêntico espírito olímpico e paralímpico é um antídoto para evitar cair na tragédia da guerra e para redimir-se pondo fim à violência.

Sim, hoje a minha esperança é que o apelo a uma trégua que surge da linguagem olímpica popular comum, compreensível para todos, em todas as latitudes, possa ser aceite. A minha esperança é que o desporto olímpico e paralímpico – com as suas emocionantes histórias humanas de redenção e fraternidade, de sacrifício e lealdade, de espírito de equipa e inclusão – possa ser um canal diplomático original para superar obstáculos aparentemente intransponíveis.

A Carta Olímpica indica o princípio da centralidade da pessoa na sua dignidade e compromete-se a contribuir para a construção de um mundo melhor, sem guerras, educando os jovens através do desporto praticado sem discriminação, num espírito de amizade e solidariedade. Está na alma da atividade desportiva unir e não dividir, e os cinco anéis entrelaçados, símbolo e bandeira dos Jogos Olímpicos, representam o espírito de fraternidade que deve caracterizar o evento olímpico e a competição desportiva em geral.

Apreciei particularmente que, em 2021, o Comité Olímpico Internacional optou por acrescentar “Communiter”, ou seja, “Juntos”, como a quarta palavra do famoso lema olímpico: “Citius, altius, fortius” (“Mais rápido, mais alto, mais forte”), criado pelo pregador dominicano francês Henri Didon.

Communiter! O desporto é de todos e para todos: é um direito. O desporto é um sempre novo Cântico das criaturas que vejo “abraçado” pelas minhas Encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti. O verdadeiro desporto – tecido de gratuidade, amateur – é uma grande “estafeta” na “maratona da vida” com o testemunho a passar de mão em mão, fazendo com que ninguém fique sozinho. Adaptando o seu ritmo ao ritmo do último.

Pessoalmente, tenho a experiência de uma criança a jogar na rua com uma “bola de trapos” e acredito que o desporto nunca deve perder aquele estilo de simplicidade que acaba com a busca desmedida por dinheiro e sucesso “a todo custo”. Com o risco de sobrecarregar os atletas em nome do lucro, fazendo-os perder a alegria que os atraía desde pequenos.

Olimpíadas e Paraolimpíadas, portanto, com o estilo “Communiter”: nesta perspectiva a palavra-chave do desporto, hoje mais do que nunca, é “proximidade”. É a primeira sugestão que, como “treinador do coração”, proponho sempre à Athletica Vaticana delinear a essência da sua presença partilhada: correndo ou pedalando ou jogando juntos com todos os atletas. Reunindo diferentes talentos também para construir uma sociedade melhor e mais justa. Quando se pratica desporto em conjunto, não importa a origem, idioma, cultura ou religião da pessoa. Esta é também uma lição para as nossas vidas e chama-nos à fraternidade entre as todos, para além das capacidades físicas, económicas ou sociais.

As Olimpíadas e Paraolimpíadas são também uma oportunidade para abraçar as histórias de mulheres e homens que vivem diferentes experiências humanas, culturais e religiosas. Em particular, incentivo o compromisso de garantir que todos os atletas masculinos e femininos sejam reconhecidos como tendo a mesma dignidade, independentemente do quadro de medalhas e das classificações competitivas.

Penso nos atletas com deficiência. Surpreendo-me sempre ao ver as suas performances e ouvir as suas palavras. O objetivo do movimento paralímpico não é apenas celebrar um grande evento, mas demonstrar o que as pessoas – apesar de profundamente feridas na vida – podem alcançar quando são colocadas em condições de fazê-lo. E se se aplica ao desporto, deve aplicar-se ainda mais à vida. Ver as habilidades de um atleta paralímpico de alto nível inevitavelmente leva à admiração. Com o desporto podemos – devemos – cultivar a consciência de mudar a perceção da deficiência na vida quotidiana de uma família, de uma escola, de um local de trabalho.

Penso nos atletas refugiados que contam histórias de redenção, esperança, inclusão: o nadador olímpico sírio que empurra o bote para o mar aberto até à ilha de Lesbos – onde estive pessoalmente duas vezes, em 2016 e 2021, para visitar o campo de refugiados – salvando 18 pessoas e o nadador afegão que nasceu sem braços e se tornou campeão paralímpico. Não são “apenas” mulheres e homens do desporto. São mulheres e homens de paz, protagonistas de uma esperança tenaz e da capacidade de reerguer-se depois de um “mau momento”.

As Olimpíadas e Paraolimpíadas são oportunidades de paz: retomo a ideia que propus no início da minha reflexão e que constitui o fio condutor. O Papa pessoalmente e a Santa Sé encorajam e apoiam o movimento olímpico e paralímpico. Tem sido assim desde o meu antecessor, São Pio X, que recebeu Pierre de Coubertin e deu vida a eventos desportivos internacionais no Vaticano entre 1905 e 1913 com a participação de jovens deficientes, amputados e cegos.

É o mesmo estilo que o Dicastério para a Cultura e a Educação, ao qual confiei o cuidado do desporto na Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, e a Athletica Vaticana também estão a implementar em contextos internacionais, propondo uma visão desportiva fraterna, inclusiva e solidária. Uma experiência de “proximidade” que pode dar um vivo contributo amateur para manter viva e alimentar, com atletas de todo o mundo, a chama da alma olímpica e paralímpica nas próximas edições.

 

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