
Papa Francisco com atletas da equipa de ciclismo da Athletica Vaticana, em agosto de 2023. Foto © Vatican Media
Paris está prestes a receber os Jogos Olímpicos e Paralímpicos e o Papa pede que a trégua proposta pelas Nações Unidas seja aceite. É esse o apelo que faz no prefácio do livro “Jogos de Paz, a alma das olimpíadas e das paralimpíadas“, que será publicado por iniciativa da Athletica Vaticana – associação desportiva da Santa Sé – no próximo dia 17 de junho, e que conta com contributos de dezenas de atletas olímpicos e paralímpicos, alguns deles refugiados, e também do cardeal Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação. “A minha esperança é que o desporto olímpico e paralímpico – com as suas emocionantes histórias humanas de redenção e fraternidade, de sacrifício e lealdade, de espírito de equipa e inclusão – possa ser um canal diplomático original para superar obstáculos aparentemente intransponíveis”, escreve Francisco na sua introdução ao livro. O 7MARGENS partilha aqui o prefácio na íntegra, numa tradução feita a partir da versão em italiano, disponibilizada pelo Vatican News.

A capa do livro prefaciado por Francisco.
No momento histórico particularmente sombrio que vivemos, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris são uma oportunidade para a paz. Pensando no valor da trégua olímpica – proposta pelas Nações Unidas – a minha esperança é que o desporto possa construir pontes concretamente, derrubar barreiras, promover relações de paz. As Nações Unidas propuseram a duração da trégua olímpica: de uma semana antes do início dos Jogos de Paris até uma semana após o encerramento dos Jogos Paralímpicos. O autêntico espírito olímpico e paralímpico é um antídoto para evitar cair na tragédia da guerra e para redimir-se pondo fim à violência.
Sim, hoje a minha esperança é que o apelo a uma trégua que surge da linguagem olímpica popular comum, compreensível para todos, em todas as latitudes, possa ser aceite. A minha esperança é que o desporto olímpico e paralímpico – com as suas emocionantes histórias humanas de redenção e fraternidade, de sacrifício e lealdade, de espírito de equipa e inclusão – possa ser um canal diplomático original para superar obstáculos aparentemente intransponíveis.
A Carta Olímpica indica o princípio da centralidade da pessoa na sua dignidade e compromete-se a contribuir para a construção de um mundo melhor, sem guerras, educando os jovens através do desporto praticado sem discriminação, num espírito de amizade e solidariedade. Está na alma da atividade desportiva unir e não dividir, e os cinco anéis entrelaçados, símbolo e bandeira dos Jogos Olímpicos, representam o espírito de fraternidade que deve caracterizar o evento olímpico e a competição desportiva em geral.
Apreciei particularmente que, em 2021, o Comité Olímpico Internacional optou por acrescentar “Communiter”, ou seja, “Juntos”, como a quarta palavra do famoso lema olímpico: “Citius, altius, fortius” (“Mais rápido, mais alto, mais forte”), criado pelo pregador dominicano francês Henri Didon.
Communiter! O desporto é de todos e para todos: é um direito. O desporto é um sempre novo Cântico das criaturas que vejo “abraçado” pelas minhas Encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti. O verdadeiro desporto – tecido de gratuidade, amateur – é uma grande “estafeta” na “maratona da vida” com o testemunho a passar de mão em mão, fazendo com que ninguém fique sozinho. Adaptando o seu ritmo ao ritmo do último.
Pessoalmente, tenho a experiência de uma criança a jogar na rua com uma “bola de trapos” e acredito que o desporto nunca deve perder aquele estilo de simplicidade que acaba com a busca desmedida por dinheiro e sucesso “a todo custo”. Com o risco de sobrecarregar os atletas em nome do lucro, fazendo-os perder a alegria que os atraía desde pequenos.
Olimpíadas e Paraolimpíadas, portanto, com o estilo “Communiter”: nesta perspectiva a palavra-chave do desporto, hoje mais do que nunca, é “proximidade”. É a primeira sugestão que, como “treinador do coração”, proponho sempre à Athletica Vaticana delinear a essência da sua presença partilhada: correndo ou pedalando ou jogando juntos com todos os atletas. Reunindo diferentes talentos também para construir uma sociedade melhor e mais justa. Quando se pratica desporto em conjunto, não importa a origem, idioma, cultura ou religião da pessoa. Esta é também uma lição para as nossas vidas e chama-nos à fraternidade entre as todos, para além das capacidades físicas, económicas ou sociais.
As Olimpíadas e Paraolimpíadas são também uma oportunidade para abraçar as histórias de mulheres e homens que vivem diferentes experiências humanas, culturais e religiosas. Em particular, incentivo o compromisso de garantir que todos os atletas masculinos e femininos sejam reconhecidos como tendo a mesma dignidade, independentemente do quadro de medalhas e das classificações competitivas.
Penso nos atletas com deficiência. Surpreendo-me sempre ao ver as suas performances e ouvir as suas palavras. O objetivo do movimento paralímpico não é apenas celebrar um grande evento, mas demonstrar o que as pessoas – apesar de profundamente feridas na vida – podem alcançar quando são colocadas em condições de fazê-lo. E se se aplica ao desporto, deve aplicar-se ainda mais à vida. Ver as habilidades de um atleta paralímpico de alto nível inevitavelmente leva à admiração. Com o desporto podemos – devemos – cultivar a consciência de mudar a perceção da deficiência na vida quotidiana de uma família, de uma escola, de um local de trabalho.
Penso nos atletas refugiados que contam histórias de redenção, esperança, inclusão: o nadador olímpico sírio que empurra o bote para o mar aberto até à ilha de Lesbos – onde estive pessoalmente duas vezes, em 2016 e 2021, para visitar o campo de refugiados – salvando 18 pessoas e o nadador afegão que nasceu sem braços e se tornou campeão paralímpico. Não são “apenas” mulheres e homens do desporto. São mulheres e homens de paz, protagonistas de uma esperança tenaz e da capacidade de reerguer-se depois de um “mau momento”.
As Olimpíadas e Paraolimpíadas são oportunidades de paz: retomo a ideia que propus no início da minha reflexão e que constitui o fio condutor. O Papa pessoalmente e a Santa Sé encorajam e apoiam o movimento olímpico e paralímpico. Tem sido assim desde o meu antecessor, São Pio X, que recebeu Pierre de Coubertin e deu vida a eventos desportivos internacionais no Vaticano entre 1905 e 1913 com a participação de jovens deficientes, amputados e cegos.
É o mesmo estilo que o Dicastério para a Cultura e a Educação, ao qual confiei o cuidado do desporto na Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, e a Athletica Vaticana também estão a implementar em contextos internacionais, propondo uma visão desportiva fraterna, inclusiva e solidária. Uma experiência de “proximidade” que pode dar um vivo contributo amateur para manter viva e alimentar, com atletas de todo o mundo, a chama da alma olímpica e paralímpica nas próximas edições.









