[xxxi domingo do tempo comum // 1º dia da semana dos seminários ― a ― 2023]

[vai um pouco de humor? / és da arca de Noé! ― / o servo é curador © haicai e fotografia: Joaquim Félix]
1. Como sabereis, neste e no próximo fim de semana,
os seminários arquidiocesanos de Braga deslocam-se
às comunidades do arciprestado de Celorico de Basto.
Estamos em saída e garantimos as ‘portas abertas’ do seminário,
acolhendo grupos de jovens que participaram na JMJ de Lisboa,
tal como acolhemos, em julho, na pré-jornada,
mais de 2000, oriundos de Portugal e outros países.
2. Ultimamente, muito se tem falado dos seminários.
Foi um dos temas da assembleia geral do sínodo dos bispos,
que decorreu ao longo do passado mês de outubro,
apresentado aliás como o «primeiro grande consenso».
Todos apontam à necessária qualidade da formação
e da vida comunitária, verdadeiramente cristã,
tendo em vista uma melhor inserção e serviço na vida pastoral.
O próprio Instrumento laboris regista o seguinte:
«a promoção de uma cultura de sinodalidade
implica a renovação do atual currículo dos seminários».
Esta renovação possibilitará, segundo o mesmo documento,
«que sejam mais sinodais e estejam mais em contacto com todo o Povo de Deus».
Os novos padres promoveriam nas comunidades
os necessários processos eclesiais de comunhão, participação e missão.
Desta forma, combater-se-ia inclusive um grande pecado: o clericalismo.
3. Partilho do consenso, mas creio que faltará conhecer melhor as realidades.
E estou persuadido de que necessitaremos de fazer perguntas outras,
que nos projetem para horizontes mais vastos;
sim, além dos seminários, com base numa análise de natureza eclesial.
Se nos concentramos na atual realidade portuguesa,
verificamos que, progressivamente, os seminários têm feito mudanças
nos respetivos projetos educativos, diversificando-os:
casais (com filhos) na formação humana, nos seminários;
jovens a viver no seminário e na casa da família, nos Açores;
mulheres competentes, no acompanhamento espiritual;
contributo das ciências humanas, em particular da psicologia, etc.
Além disso, a inserção pastoral vai-se fazendo paulatinamente,
acautelando as condições da formação ao nível dos estudos.
4. Ainda assim, a demografia nos seminários regista uma retração.
No presente ano letivo, na responsabilidade de coordenador,
fiz as entrevistas dos candidatos à Licenciatura em Teologia.
Apercebi-me, pois, do número de seminaristas das dioceses portuguesas,
que se matricularam no primeiro ano.
Das 16 dioceses que optam pela formação na Faculdade de Teologia da UCP,
apenas 8 matricularam alunos, assim distribuídos:
Braga 2; Bragança-Miranda 1; Coimbra 1; Guarda 2; Lamego 2; Lisboa 2; Porto 4; Viana 1.
As outras 8 estão sem alunos seminaristas no primeiro ano:
Aveiro, Leiria-Fátima, Madeira, Portalegre-Castelo Branco,
Santarém, Setúbal, Vila Real e Viseu.
Das ordens religiosas, só dois seminaristas portugueses se matricularam:
Franciscanos Capuchinhos 1 e Verbo Divino 1, respetivamente.
Em relação às outras 4 dioceses de Portugal,
cujos alunos não frequentam a Faculdade de Teologia da UCP,
o Seminário Maior de Évora tem, ao todo, 4 seminaristas portugueses
(das dioceses de Évora, Beja e Algarve);
e, no Seminário de Angra, entraram 2 jovens para o Tempo Propedêutico.
Note-se que há várias dioceses que só têm 1 seminarista no seminário maior.
É verdade que nos seminários maiores vivem mais seminaristas portugueses
e um número significativo de jovens de dioceses estrangeiras.
5. A relação que forneço não é para ‘demorar’ nos números,
mas para os ler, à luz da fé, como um ‘sinal dos tempos’.
Há dias, ao verbalizá-los num contexto académico,
o Prof. Alfredo Teixeira, que tem ‘mapeado’ e interpretado
a evolução da religião na sociedade portuguesa,
referiu que eles correspondem à «contração da Igreja em Portugal».
Mais: na última assembleia do clero de Braga,
que tinha como tema único a questão dos seminários e das vocações,
partilhei estes e outros dados aos padres da mesa na qual participava.
Nenhum imaginava tal situação, nenhum dos dez.
Após um grande silêncio, de forma muito cordial e complementar,
começámos por tentar identificar causas desta mudança.
Um deles dizia: «Olhando para nós, em correria e sem tempo,
de missa para missa, qual será o jovem que desejará ser padre?»
Outro disse: «Não precisamos de generalizar apontando só para os outros.
Consideremos a situação, antes de mais, a partir das nossas famílias.
Sinceramente, alguém vê um jovem capaz de aceitar esta vocação?»
Um outro acrescentou: «O inverno demográfico não ajuda.
O mesmo se diga das alterações culturais e do atual estilo de vida.
Qual é o jovem que hoje faz opções para a vida inteira, casto, pobre e obediente?»
6. Muitos outros motivos foram apresentados,
aliás alinhados com «a problemática dos seminários católicos»,
refletida, há um ano, no Congresso Internacional «Erguendo os olhos e vendo»
Esta problemática tem a sua raiz na atual situação da Igreja,
como bem foi sublinhado pela generalidade dos conferencistas.
O paradigma dos seminários ditos de ‘matriz tridentina’
não está efetivamente a responder aos desafios contemporâneos.
E, como defendeu o pe. José Frazão sj, palestrante no congresso,
hoje, precisaríamos de liberdade e criatividade,
como a que foi possível no Concílio de Trento,
para desenhar o modelo ou modelos para a formação dos presbíteros.
7. Afastemo-nos de uma interpretação literalista da Profecia de Malaquias,
como fazem alguns, identificando a atual situação como ‘tempo da maldição’,
que Deus, o «temível entre as nações», lança sobre os padres (Mal 1,14-2,1-3),
por causa dos seus desvios e crimes, entre eles os abusos de vária ordem.
O que, recordemos, não nos deve levar a ‘branquear’
a lastimável vida de alguns padres que fazem tropeçar os seus irmãos,
fomentando aceções, ou sendo desleais com os outros padres.
É verdade que, atualmente, sem nos queremos vitimizar,
parecemos «desprezíveis e abjetos» (Mal 2,9) aos olhos de muitos.
Todavia, sejamos justos, pois há muitos padres, muitos mesmo,
que, tal como escreve S. Paulo aos Tessalonicenses (1 Tes 2,7-9.13),
continuam a amar as suas comunidades,
com verdadeiro amor de mãe e de pai,
partilhando com elas, de «viva afeição», o Evangelho de Deus e a vida.
8. Ao preparar esta homilia, dei comigo a reler um livro,
da autoria de Bernard Häring, intitulado «Que padres… para a Igreja?».
Vendo-o todo sublinhado, recordo-me que me marcou muito,
em 1995, a dois anos de ser ordenado presbítero.
Relendo-o, agora, 28 anos depois, dou comigo a pensar:
Como é urgentíssimo renovar a linguagem da pastoral vocacional,
para enunciar os atuais desafios nos horizontes largos do Evangelho de Jesus!
Sem esta renovação da linguagem e o devido ‘reenquadramento’,
desviar-nos-emos do caminho do Senhor;
sim, sim, da mensagem que Ele dirige no Evangelho de hoje (Mt 23, 1-12).
Permiti que, a este respeito, leia uma breve passagem do livro:
«Se a Igreja, nesta época de transformações tão profundas e rápidas,
considerasse o problema da falta de padres e da sua imagem e tipo
à luz dos primeiros séculos, a questão de
“como encontrar um número suficiente de padres qualificados?”
seria resolvida facilmente, com soluções muito simples e muito evangélicas.
Porque complicar, então, as coisas simples?» (pág. 150).
Vamos persistir em culpabilizar apenas os jovens por falta de generosidade?
9. Tal como Bernard Häring, também nós esperamos que a crise atual
se torne uma crise de crescimento e de aprofundamento,
sobretudo na linha do compromisso da vocação batismal.
Precisamos de rezar muito pelos seminários e pedir mais padres, sim,
mas, sobretudo, «de vocações para seguir o humilde Servo de Deus,
Jesus, Filho do Homem, “um de nós”» (pág. 90).
Que Ele queime, através do seu Espírito todas as filactérias e exaltações,
os títulos nobiliárquicos e honoríficos constantinianos e medievais,
e nos refresque e comprometa a vocação batismal com as águas do alto,
na semelhança imagética da instalação «The crossing» (A travessia), de Bill Viola:
De contrário, não precisaremos de muito tempo,
para que se torne impossível celebrar a Eucaristia, como estamos aqui a fazer.
E isso, infelizmente, não poderá constituir a morte da Igreja?
Poderão certas normas e tradições eclesiásticas anular o Evangelho de Jesus?

Exterior do Museu Kunsthaus, Zurique. Foto © Joaquim Félix
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia do último domingo, dia 5 de novembro, XXXI Domingo do Tempo Comum na liturgia católica 2023, na paróquia de São Clemente (paróquia de onde era natural o Cardeal Patriarca de Lisboa D. António Ribeiro), no arciprestado de Celorico de Basto.










