Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Depois de um primeiro texto sobre a guerra da Ucrânia e um outro sobre o Afeganistão, publicámos também uma música que evoca o apelo de paz feito por muitas mães israelitas e palestinianas.
Sem uma garantia absoluta de regularidade, procuraremos continuar esta chamada de atenção pelo menos no dia 15 de cada mês. Os nossos leitores podem também sugerir músicas ou partes de obras musicais que possam traduzir a importância da paz, nomeadamente em regiões em conflito, podendo fazer acompanhar a sugestão de algum pequeno texto.

A palestiniana Haya Zaatry publicou o seu último disco Rahawan em 2022.
Na música Summer Storms, Haya Zaatry canta: “Com que voz hei-de cantar?/ (…) Que palavra escolherei/ Antes que tudo se desfaça?” E responde: “Sobre os pássaros que pousam nos telhados da cidade/ Das nossas casas abandonadas, que habitamos/ (…) O tempo que me ensinou/ A confiar em nós/ A amar o esquecimento, vê-lo como liberdade/ (…) Aprender a perdoar, mesmo a perda/ E a acender a luz…”
Esta é uma música pela paz no meio da guerra. A palestiniana Haya Zaatry parecia antever com estas palavras – quando publicou o seu último disco Rahawan, em 2022 – a tragédia que se abateu de novo sobre o seu povo, desde o ataque terrorista do Hamas em 7 de Outubro de 2023 contra Israel. Esta obra confirma uma voz original, numa música acústica e melodicamente muito transparente, com incursões pelas raízes árabes que a tornam doce e firme.
A história começa com o passaporte da bisavó de Haya, Nazira Rahawan, que dá nome ao disco. A música e arquitecta arrumava com outra familiar os pertences de uma tia-avó e descobriu o salvo-conduto da bisavó, que viveu entre 1890-1972, e onde Zaatry viu pela primeira vez Palestina, escrito num documento. Segurava um “tesouro”: a bisavó nasceu em Damasco (Síria) e viveu depois no que hoje é Israel: Nazaré (onde a bisneta nasceu) e Haifa (onde Haya vive há uma década). “Foi a última pessoa da família de Haya que viveu e vagueou livremente pela terra, antes da imposição forçada de fronteiras”, resumia-se na apresentação do Festival Músicas do Mundo, de Sines, onde Haya actuou em Julho.
É essa simultânea “liberdade e pertença”, bem como “todas as tristezas, perdas, amor e opressão que rodeiam a vida quotidiana de Haya”, como se lia na nota de imprensa de Rahawan, que o disco recupera. Dessa forma a cantora homenageia as mulheres árabes e palestinianas que, no Levante (Síria, Líbano, Israel, Palestina) há muito circulavam livremente… “As fronteiras não fazem sentido, especialmente quando são impostas violentamente e destinadas a apagar sistematicamente a identidade” dos palestinianos”, dizia Haya Zaatry em entrevista recente ao jornal digital +972. Em Borders & Promises, de 2015, já ela cantava: “Até agora, não importa o quão perto/ O mesmo mar e costa/ (…) Não exatamente a mesma gaiola/ Mas o mesmo pássaro ferido.”
Alouli (“Eles contaram-me”), a belíssima segunda música do disco, fala de como um sistema patriarcal asfixiante retirava liberdade às mulheres. A par do já referido Summer Storms, de Rahawan, a primeira música, que recupera o folclore da Palestina, ou ainda Plumeria (onde se escutam as pulseiras da avó que Zaatry herdou), Ishtar ou Tabula Rasa.
Esta é uma música de pássaros feridos que acendem muitas luzes.
Haya Zaatry, Rahawan
Disponível no Spotify e outras plataformas digitais
(Texto publicado inicialmente no número de Setembro 2024 da revista Além-Mar.)










