Que quer dizer “boa educação”?

| 29 Ago 19

Lemos na Bíblia que o profeta Eliseu foi autorizado a visitar a sua família, para dela se despedir e só depois acompanhar Elias (1 Reis 19, 19-21). Até organizou um banquete de despedida, matando a junta de bois com que ganhava a vida.

Por que é que os Evangelhos apresentam Jesus a dissuadir pretensos discípulos de se despedirem da família e até, para um deles, de cumprir o dever quase sagrado de sepultar o pai acabado de morrer? Como se pode falar de boa educação? (Lucas,9.57-62)

Não duvido de que Jesus foi exemplo de boa educação. Contudo, várias vezes parecia seguir uma etiqueta no mínimo estranha. Nas bodas de Caná, quase pôs de lado a própria mãe. Pretenderia mostrar a toda a gente que a missão dele não era seguir os desejos ou sugestões de sua mãe, por muito sensatos que fossem? Se acabou por “dar uma ajudinha” à festa, foi porque achou que a ideia era plenamente ajustada à sua missão (João,2,1-12).

Pelo que sei e vou sabendo, Jesus combate a mediocridade e a presunção. Comecemos por verificar que a situação histórica é bastante diferente da de Eliseu. Por outro lado, não se pode afirmar que Jesus falou e agiu como escreve o evangelista, nem podemos esquecer o estilo semita de argumentação, que utiliza muito o contraste de ideias e comportamentos. Neste caso, serve para vincar a dificuldade de escolher o que é melhor num momento stressante e decisivo. Agiu como profeta: deixou claro o sinal de que já era tempo de dar o primeiro lugar ao que é mais importante, sem nos perdermos com coisas ou acções, por muito bonitas e louváveis que sejam. Temos um provérbio adequado: “Vão-se os anéis, fiquem os dedos”. Numa aterragem de emergência, só se salva quem deixa para trás os pertences mais “preciosos”. Não se avança com a construção, se os alicerces do projecto não garantem solidez.

Jesus também partia do princípio de que não dispunha de toda uma vida: urgia aproveitar o tempo para realizar o projecto da sua vida. Podíamos dizer que se sentia num “teatro de guerra”: quem entra nas fileiras não tem tempo para grandes despedidas. Hoje, o mais pobre telemóvel anunciaria com um só toque: “I love you” – e tanto a família como a namorada e amigos ficariam contentes por ver partir o amigo em tão nobre missão.

É claro que o exército de telemóveis favorece novas “etiquetas”, continuamente a serem actualizadas. E a educação poderá deixar de ser boa?

“Etiqueta” é um rótulo ou espécie de prego para fixar um lembrete, como normas de “bom comportamento” ou de cerimónia. Adapta-se aos tempos e situações. Mas para nunca nos cansarmos de bem-querer em todo o tipo de relações humanas nem sermos “Maria vai com as outras”, só faz bem reflectir em que não somos animais irracionais.

A história da palavra “educação” esclarece o sentido fundamental: conduzir ou levar para mais além. É libertar do casulo e não ter medo de sermos “insatisfeitos”: não se fechar na sua concha, ter coragem de vencer o medo da aventura (cada qual segundo o seu jeito!). Como se diz, “ficar parado é andar para trás”.

Mas como garantir que não nos vamos perder? Temos a capacidade de perguntar o caminho. Porém, quer o guia quer a nossa cabeça precisam de conhecer o que mais desejamos e as nossas aptidões. Se seguirmos a “manada”, será porque tomámos essa decisão de modo razoável.

A boa caminhada, contudo, implica parar de vez em quando para descansar, admirar as novas paisagens e discernir o trilho mais conveniente para seguir. Precisamos de estabelecer um “critério”, que nos permita elaborar um juízo de apreciação.

Ora, muita coisa se faz sob o nome de educação que não é sequer educação e muito menos boa.

O verbo latino educare(puxar para fora, conduzir) pode-se aplicar a todos os seres vivos (animais e plantas): originalmente tem os significados de produzir, alimentar e cultivar, passando para instruir, formar, educar. Aplica-se especialmente à acção sobre um ser humano. Note-se que a dimensão de alimentar é muito importante: pois “adulto” significa “alimentado”. Ainda hoje, depois de milhares de anos, a noção de adulto mantém o valor da perfeição (sempre utópica!) de cada pessoa. Enquanto caminhamos do nascimento até à morte, como que continuamos adolescentes, num contínuo e indefinido processo de crescimento (educação contínua). Parece que bastaria desenvolver o ser humano para se dar boa educação.

O pior é que o mal também se desenvolve… Sejam doenças, ideologias ou o progresso da violência. O desenvolvimento em foco só poderá ser aquele que possibilita ao sujeito um estádio considerado superior, na linha dos talentos disponíveis em cada qual.

Sendo assim, talvez a melhor garantia de que a nossa caminhada – educação – é boa será alimentar essa busca insatisfeita por paisagens cada vez mais espantosas, sem esquecer que a nossa estrutura interior se fortalece ao saber utilizar as situações difíceis para se enriquecer. Perante o que parece melhor, mais prático, mais apetecível, temos que assumir a responsabilidade de escolher. Ora a escolha própria do ser humano é um exercício da razão: a procura honesta de justificação.

Descobrindo as razões de como vale a pena viver, encontramos o prazer da boa educação.

 

Manuel Alte da Veiga é professor universitário jubilado

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